Até quando homens lavarão as mãos diante da violência contra mulheres?, por Priscila Lobregatte

26 de fevereiro, 2026 Vermelho Por Priscila Lobregatte

Mudar o cenário tenebroso de feminicídios, agressões e estupros depende de transformações profundas e complexas, mas em especial de uma tomada de consciência por parte dos homens

Todos os dias — com um misto de incredulidade, indignação e asco — nos deparamos com notícias sobre mais um feminicídio; sobre o avanço no número de estupros e agressões; sobre meninas que têm sua infância destruída por violações sexuais e de direitos básicos; sobre mulheres sendo atacadas nas redes, na política, nas ruas. E em praticamente todos os casos, esses crimes são cometidos por homens.

É forçoso lembrar, ainda, que dois dos crimes mais graves envolvendo a condição feminina — os feminicídios e os estupros, sobretudo de vulneráveis — têm como autores companheiros, ex-companheiros ou homens próximos.

O Anuário 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024; outras 3.870 sofreram tentativas. Nos casos consumados, 97% dos autores eram homens e oito em cada dez eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas.

Dezenas de casos de feminicídio já aconteceram neste ano, que ainda está no segundo mês. Um dos estados com o pior desempenho nesse ranking macabro é o Rio Grande do Sul, com 18 ocorrências apenas em janeiro.

O recente caso de Tainara Santos — que perdeu a vida um mês após ser atropelada e arrastada por um carro dirigido por um ex-parceiro, em São Paulo — ilustra bem esse quadro de terror e covardia. Um adendo: nesta terça-feira (24), uma amiga dela, Priscila Verson, também foi vítima de feminicídio na capital paulista — o suspeito é o próprio companheiro.

Outro crime abominável que se tornou rotineiro é a violência sexual contra meninas. Os dados mostram que elas não estão seguras nem mesmo (e principalmente) dentro de casa, na companhia de parentes.

Segundo o mesmo Anuário, 2024 registrou o maior número de estupros da história, inclusive de vulneráveis: foram mais de 87 mil casos, sendo 87% das vítimas do sexo feminino. Desses, 77% foram contra vulneráveis — a maior parte das vítimas, 33%, eram crianças na faixa dos dez aos treze anos e 18%, entre os cinco e os nove anos. 66% dos casos ocorreram dentro de suas próprias casas e 45% foram cometidos por familiares — a maioria dos quais, homens.

Nesse cenário de horror, também há espaço para situações em que as próprias instituições de Estado — que têm a obrigação de cumprir a lei e proteger essas meninas e mulheres — atuam no sentido de vitimá-las novamente, relativizar a violência e agir sob uma “lógica” que de tão absurda inviabiliza qualquer sentido.

Foi o que aconteceu em Minas, onde dois desembargadores acharam razoável absolver um homem de 35 anos (com passagens anteriores por homicídio e tráfico) que havia sido condenado em primeira instância por viver com uma menina de 12 anos. O argumento do relator, seguido por seu colega, foi de que havia “vínculo afetivo consensual” entre o homem e a menina. O único voto divergente coube à desembargadora Karin Emmerich.

Nesta quarta-feira (25), após a repercussão negativa, o desembargador e relator do processo, Magid Nauef Láuar — ele mesmo investigado por denúncias de abuso sexual — resolveu reverter a decisão.

Como se não bastasse tudo isso, há ainda muitos outros tipos de violências embutidas no cotidiano feminino e no das vítimas desses e de outros crimes.

Afinal, quantas mulheres já foram “culpadas” pela violência que elas mesmas sofreram sob o argumento de que estavam usando “roupas inadequadas” ou andavam muito tarde na rua? Quantas jovens já tiveram sua intimidade invadida e exposta nas redes sociais?

Quantas meninas foram assediadas ou violentadas por homens muito mais velhos, que comumente alegam ter “pintado um clima”, homens esses que agem como se não houvesse alternativa senão “pegar” uma dessas meninas que “provocaram seus desejos”?

Quantas foram ridicularizadas ou descredibilizadas ao recorrer às polícias ou aos operadores do sistema jurídico? Quantas foram taxadas de “malucas”, “paranoicas”, “mal-amadas” por reagirem a um assédio, por pedirem socorro, por denunciarem o que realmente acontecia entre quatro paredes?

Em meio a tudo isso, fico me perguntando qual a dificuldade de os homens compreenderem algo tão básico, sintetizado em frases tão simples e diretas como “chega de nos matar”, “não é não”, “criança não é mãe (ou esposa)”, “estuprador não é pai (ou marido)”.

Acesse o artigo no site de origem.

Nossas Pesquisas de Opinião

Nossas Pesquisas de opinião

Ver todas
Veja mais pesquisas