Contra o racismo, misoginia e transfobia: a educação política como defesa da democracia, por Deborah Ramos da Silva

24 de março, 2026 Portal Catarinas Por Deborah Ramos da Silva

A deputada estadual Fabiana Bolsonaro fez blackface na tribuna da Alesp para criticar a eleição da deputada federal Erika Hilton à Comissão da Mulher.

No coração da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), práticas que deveriam ser inaceitáveis ainda se repetem. Recentemente, a deputada estadual conhecida como Fabiana Bolsonaro (PL-SP) pintou-se de preto na tribuna, reproduzindo o blackface, prática que, além de ofensiva, simboliza a persistência de racismo institucional e violência simbólica contra pessoas negras.

O episódio revela algo que vai além de uma provocação isolada: nos corredores da política brasileira, certos corpos continuam a ser tratados como estereótipos, enquanto hierarquias raciais e de gênero são reforçadas sob o verniz da normalidade democrática.

O blackface não é apenas um anacronismo teatral. Ele historicamente desumanizou pessoas negras, consolidando poder simbólico e naturalizando desigualdades. Sua repetição em espaços institucionais mostra que, sem instrumentos de contestação e reflexão, a política pode reproduzir preconceitos centenários. A violência simbólica soma-se às práticas de exclusão de mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, como evidenciado pelos ataques transfóbicos dirigidos à deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) ao assumir a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres na Câmara.

Esses episódios não acontecem no vácuo: ocorrem em um contexto cultural e político em que discursos de ódio encontram espaço no debate público. Em 2020, o então deputado estadual Douglas Garcia (à época no PSL-SP) afirmou que retiraria uma pessoa trans “à tapa” de um banheiro, dirigindo sua fala à deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL-SP). A declaração explicita a naturalização da violência contra pessoas trans no discurso político e não constitui um caso isolado, mas parte de uma sequência de episódios em que autoridades recorrem à intimidação e à agressividade para reforçar exclusões de gênero e identidade.

A deputada federal Carol Dartora (PT-PR) sofreu ameaças de morte e estupro após propor leis contra a misoginia digital, evidenciando como racismo, misoginia e LGBTfobia convergem para tentar silenciar aqueles e aquelas que questionam estruturas de poder. São ataques planejados para intimidar, invisibilizar e restringir o acesso de mulheres negras e LGBTQIAPN+ à política e à esfera pública.

Projetos de Lei como o PL 8.992/2017, que propõe incluir a misoginia no rol de crimes de ódio da Lei do Racismo (Lei nº 7.716/1989), são fundamentais. Mas criminalizar apenas não basta. Sem educação política, leis permanecem letra fria, incapazes de transformar padrões culturais que naturalizam discriminação e violência simbólica. Formar cidadãos críticos, conscientes de direitos e responsabilidades, é a única maneira de enfrentar o racismo, a misoginia e a transfobia de forma duradoura.

A educação política é, portanto, ferramenta de empoderamento e transformação social. Ela ensina a identificar discursos de ódio, a questionar hierarquias injustas e a construir solidariedade entre grupos historicamente marginalizados.

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