Filósofa disseca o fenômeno red pill, as lacunas raciais nos 20 anos da Lei Maria da Penha e por que o Estado brasileiro ainda falha ao tratar as mulheres como uma “massa abstrata”.
Quando Djamila Ribeiro diz que “a raiz da nossa sociedade é o ódio às mulheres”, percebe as pessoas desconfortáveis. O incômodo com a palavra ódio, segundo ela, parece sobrepor os números alarmantes de violência contra mulher no Brasil. Ela responde não ligando para os narizes torcidos ou olhos virados e ainda o nomeia: misoginia.
Para a escritora, professora e filósofa, entender a misoginia contemporânea é não só encarar uma infraestrutura que reafirma que a mulher é o “outro” — aquela que pode ser mercadoria, dominada ou silenciada por uma suposta “natureza” inferior, mas também olhar para o passado. É entender gênero a partir das raízes escravocratas do Brasil.
Em uma conversa profunda com a Gênero e Número, ela detalha o novo curso que promove, sobre o pensamento Red Pill, com inscrições abertas até 15 de maio, e traz para o debate como ignorar as discussões sobre raça e classe é manter a estrutura da opressão e da violência rodando.
Para ela, nomear é urgente no agora: enquanto as mulheres estão vivas.
Em sua participação na edição comemorativa de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, você resgata a premissa de que se a mulher é o “Outro”, a mulher negra ocupa o lugar de “Outro do Outro”. Como equilibrar o reconhecimento da genialidade de Beauvoir com a necessidade crítica de apontar os limites de uma obra que, em 1949, ainda partia de uma visão universal de mulher?
Djamila Ribeiro – Primeiro eu queria dizer que sou absolutamente apaixonada por Simone de Beauvoir. Essa é uma das minhas autoras favoritas da vida. Porque em 1949, lançar um livro sobre a filosofia da condição feminina é para poucas. O tanto de ataques que ela sofreu à época… Ainda mais na filosofia, que é uma área muito masculina.
É importante dizer que Simone de Beauvoir, no Brasil, na faculdade de filosofia, ainda não tem o reconhecimento que merece, mesmo sendo uma mulher branca e europeia. Então, a gente está falando do quanto ainda, independentemente de sermos brancas ou negras, é difícil para a mulher em geral nesse campo.
Quando ela pensa a categoria do Outro, colocando a mulher nesse lugar do Outro, é muito importante para a gente entender por que a mulher é tratada como o segundo sexo. Ela fala que a mulher está inserida na mesma lógica colonial: o branco é o sujeito, o negro é o objeto. Então, ela está dizendo: o homem é o sujeito, a mulher o objeto. O homem é o racional, a mulher é o emocional. O homem é o superior, a mulher é o inferior.
Só que, em 1949, ela estava muito focada na realidade de mulheres como ela. De fato, ela parte de uma visão universal de mulher. Às vezes, eu fico em discussões com feministas negras: “Ah, não, tem que jogar fora”. Calma lá.
Apontar o limite de uma análise não é jogar fora. Grada [Kilomba, psicóloga e artista] vem e aponta esse limite: ‘A mulher negra, ela é esse ‘Outro do Outro’, porque ela é essa antítese tanto de branquitude como de masculinidade.”
Ela acaba partindo de um outro lugar social. Então, para a gente entender a realidade da mulher negra, precisa necessariamente entendê-la a partir do componente racial, da intersecção de raça, classe e gênero.
Eu insisto nisso com os meus alunos, porque em discussão de Twitter fica tudo muito raso. Você não pode jogar o trabalho de Beauvoir fora. Não interessa o que você acha da vida pessoal dela; ela fez um trabalho monumental e, a partir da sua estrutura filosófica, até hoje, a gente pode pensar outras realidades.
Se Grada consegue pensar o “Outro do Outro”, Beauvoir pensou o “Outro”. Eu super amo Beauvoir, mas nem por isso vou deixar de trazer a crítica que as feministas negras fazem a ela. Acho que essa é a honestidade do trabalho. A teoria feminista é uma história de mulheres que tiveram essa coragem numa época muito dura e que, claro, tinham limites. As feministas negras conseguem dar conta desses limites porque trazem [seu pensamento] a partir da interseccionalidade.
Seu livro Quem tem medo do feminismo negro? reúne artigos de 2014 a 2017 escritos por você na Carta Capital. Eles questionavam, já naquela época, a hegemonia de um “feminismo universal”, que muitas vezes silenciava as dores específicas das mulheres negras. Passada quase uma década, essa pauta avançou?
Djamila Ribeiro – Eu considero que tivemos avanços, sobretudo com um número maior de pesquisadoras negras conseguindo mais espaço. Acho que, até por conta das ações afirmativas, elas acessaram o ensino superior e isso fez uma diferença muito grande. A primeira universidade [a ter cotas para pessoas negras] foi a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2001, mas a gente tem a lei federal de cotas em 2012. Antes disso, a gente tinha poucas mulheres negras nesse lugar.
Um outro ponto digno de nota é o mercado editorial, que não foi dado às mulheres negras, mas conquistado. Projetos como o Feminismos Plurais e outras iniciativas mostraram que autores negros vendem, sim, e fazem sucesso com seus livros. Isso forçou o mercado mainstream a se abrir mais para essas pautas. Eles começaram a publicar autoras feministas negras como a gente nunca teve.
Hoje, temos vários títulos da bell hooks publicados, da Patrícia Hill Collins, da Angela Davis. Em 2015, eu que mandei um e-mail para Angela perguntando se ela tinha interesse em traduzir Mulheres, raça e classe para a Boitempo Editorial. Importante dizer que eu não ganhei nada para isso, mas era muito do meu incômodo de não ver essas autoras publicadas no Brasil. Ela aceitou o convite, o livro foi publicado em 2016, e eu escrevi o prefácio. Foi um dos títulos mais vendidos.
A partir daí, eu comecei a organizar publicações em 2017, e a gente teve um boom de autoras negras. Eu participei muito de perto da publicação de algumas delas, como a própria Angela Davis, mas também Audre Lorde, Maya Angelou e Toni Morrison.
Foi um movimento que nós feministas negras no Brasil criamos para forçar o mercado editorial a publicar mais, porque a gente sentia muita falta disso nas nossas pesquisas. Esses livros não eram traduzidos, a gente tinha que traduzir nós mesmas ou fazer tradução coletiva, e isso impactava diretamente na percepção dos nossos estudos no campo do feminismo negro.
Isso também possibilitou que várias autoras brasileiras fossem publicadas, como Lélia Gonzalez, que não era, demorou muito para ter um reconhecimento e tantas outras. A própria Sueli Carneiro. Eu criei o selo Sueli Carneiro em 2018, e a gente publicou o livro dela Escritos de uma Vida.
A geração mais nova começou a puxar para que as mais velhas também pudessem ser republicadas. Isso é inegável.
Esse fenômeno editorial e acadêmico não parece ser apenas uma mudança de catálogo, mas uma ferramenta política. A popularização das teorias feministas negras tem conseguido, de fato, romper a bolha intelectual e pautar a formulação de políticas públicas ou a disputa por espaços de poder institucional?
Djamila Ribeiro – Sim, porque daí, a gente tem material suficiente para poder organizar e pensar determinadas políticas para as mulheres, com um olhar interseccional. A gente tem como justificar quando tem essas obras em mãos.
Acho que nunca na história do Brasil o feminismo negro e as feministas negras tiveram tanto espaço e, com isso, conseguiram pautar os temas que são importantes no debate nacional.”
O que aconteceu com Marielle Franco foi algo que nos impactou muito. Impactou a população em geral, mas também nós, mulheres negras, em especial. Isso, apesar da tristeza e da tragédia, também fortaleceu e impulsionou que mais mulheres negras se candidatassem para política institucional.
Essa presença, ainda que pequena — é importante falar, o Brasil ainda tem números baixíssimos de representação feminina — sem dúvida nenhuma impulsionou que mais mulheres negras pudessem estar nas políticas fazendo essas disputas. É o que a gente precisa muito no âmbito da política institucional.
E, por falar em política pública, também no livro Quem tem medo do feminismo negro?, você diz que “no fim, nossa busca é sobre o alargamento do conceito de humaninade”. O que isso significa e como se conecta com o racismo brasileiro?
Djamila Ribeiro – Desde o processo de escravidão e de colonização, a população negra foi colocada nesse lugar de outro, de objeto, de não humano. Aquele que pode ser mercadoria, que pode ser escravizado, que não é racional.
As teorias racistas e biologizantes do século XIX, o que a gente chama do racismo científico, foram utilizadas para tentar justificar a dominação da Europa nas Américas, dizendo que os negros não eram racionais e que o nosso cérebro era diferente. Existiram vários desses mecanismos de opressão que estruturaram as sociedades que foram escravizadas e colonizadas.
Então, quando as pessoas falam: “Ah, mas escravidão é lá no passado”. Não, a escravidão molda o processo de colonização, a forma como as pessoas negras vão ser tratadas.
Ao se criar um comércio de mercantilização de gente, é isso que a gente está falando que é a escravidão. As pessoas eram consideradas mercadorias até pela igreja, como pessoas que não tinham alma, logo, podiam ser escravizadas. Todas essas construções colocam a população negra nesse lugar [do outro], e isso continua estruturando a sociedade até hoje.”
A nossa luta, desde então, é justamente para alargar esse conceito, para a gente quebrar essa imposição e dizer que nós somos seres humanos e, por isso, deveríamos ser tratados de uma maneira que reconhecesse nossa humanidade.
Você usa o termo mercantilização e é bastante comum ouvirmos críticas que tentam separar a pauta identitária da pauta econômica, como se fossem campos distintos. No entanto, sua fala aponta para a escravidão como motor da economia. É possível que hoje a gente discuta raça sem interseccionar classe?
Djamila Ribeiro – A escravidão foi a base da economia no Brasil durante quase quatro séculos. Não tem como falar de classe sem falar de raça, porque a gente está falando de um debate econômico. Se a escravidão foi a base da economia, significa que os donos de engenho, os senhores de engenho, enriqueceram às custas desse trabalho forçado e da imposição desse lugar de objeto — de mercadoria — à população negra.
Acaba a escravidão, não se cria nenhum tipo de políticas para reparar a população negra por séculos de trabalho forçado. Aí, o Brasil começa o processo de favelização, e as mulheres negras vão ser trabalhadoras domésticas. E o Estado brasileiro vem com essa teoria fantasiosa da democracia racial para não se responsabilizar pela reparação à população negra — porque você não vai reparar algo que não existe.
Como Kabengele Munanga vai dizer: o racismo no Brasil se configura pela própria negação do racismo. A gente vai sendo deixado à margem durante muito tempo, inclusive pela esquerda brasileira, que também abraçou essa ideia da democracia racial, essa ideia da mestiçagem, como se fosse uma mestiçagem romantizada.
A população negra ficou à parte disso. Quando a gente fala que o racismo estrutura todas as relações sociais, é desde o momento em que a gente foi considerado um ser inferior que serve para ser escravizado, explorado, mercantilizado, e isso não mudou.
Agora, se o racismo estrutura todas as relações sociais, como você bem pontuou, a Lei Maria da Penha, que completa 20 anos este ano, consegue dar conta de esgotar as discussões sobre [violência] raça e as diferentes realidades das brasileiras?
Djamila Ribeiro – Acho que a Lei Maria da Penha é um marco legal muito importante e necessário. Pouco antes de ela completar 10 anos, saiu a pesquisa “O Mapa da Violência” em 2015, com dados muito importantes. Dizia que, em 10 anos, havia diminuído o assassinato de mulheres brancas em quase 10%, o que mostrou que a política tinha sido efetiva. Porém, no mesmo período, havia aumentado em quase 55% o assassinato de mulheres negras.
Essa pesquisa foi muito importante, porque mostrou que faltava um olhar étnico-racial na política. Não é no sentido de que ela não presta. Não, ela é importante. Mas ela precisa ser aprimorada para poder atender às outras possibilidades de ser mulher. O marco legal é importante, mas por si só não garante proteção.
A maior parte das mulheres negras é pobre e mora na periferia, então, não basta dizer: “Ah, vai lá e denuncie”. Ela não pode chamar a polícia no território dominado por facções. Ela tem uma relação muitas vezes de desconfiança com a polícia, que é a mesma que vai nos territórios onde ela mora e age com violência com a comunidade.”
Muitas vezes essa mulher não vai ter o dinheiro do transporte para ir ao centro da cidade, para um centro de referência. Essa pesquisa mostrou que era necessário descentralizar esses centros de referência à mulher.
Era necessário que a realidade da mulher negra fosse pensada junto porque provavelmente a política, quando foi feita, foi pensada a partir de uma categoria universal de mulher. Garantiu uma certa proteção às mulheres brancas, mas não garantiu às mulheres negras. É o “deixar morrer” do Foucault. Se a gente não nomeia, fica invisível.