Crime cometido por ex-marido no território Tekoha Paraguassu evidencia a escalada da violência contra mulheres indígenas, que cresceu 258% na última década.
O assassinato de Ereni Benites, 44 anos, mulher indígena Kaiowá, na madrugada de 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, foi o sétimo feminicídio registrado no Mato Grosso do Sul em 2026. Ela morreu em um incêndio criminoso provocado por Juares Fernandes, 52 anos, ex-marido da vítima, que confessou ter ateado fogo na casa dela usando um isqueiro e desodorante aerossol.
Após o caso, a Assembleia Geral do Povo Kaiowá e Guarani denunciou a violência sistemática que silencia mulheres indígenas: “Enquanto o mundo fala sobre respeito, dignidade e direito das mulheres, mais uma vida indígena é marcada pela violência. Uma mulher, mãe, uma filha de seu povo teve sua vida arrancada de forma cruel”, destacou em nota.
A Assembleia das Mulheres Guarani e Kaiowá do estado também se manifestou, reforçando a gravidade do caso em suas redes sociais:
“Este crime evidencia a urgência de olhar para a realidade que muitas mulheres indígenas enfrentam dentro e fora dos territórios: violência, silêncio e falta de proteção do Estado”.
Além da data histórica de luta, o 8 de março deste ano marcou os cinco anos da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), organização dedicada à defesa das mulheres indígenas, de seus biomas e territórios. Em suas redes sociais, a Anmiga também se juntou às manifestações de repúdio ao caso, reforçando a denúncia da violência sistemática contra mulheres indígenas.
Ao Catarinas, um amigo de Ereni, que preferiu não se identificar, contou que ela vivia no território desde que nasceu e mantinha uma boa convivência com os demais moradores. Também disse que a comunidade estava triste com o ocorrido. Ereni trabalhava no ramo de alimentos e deixou três filhos, frutos do relacionamento com o autor do crime.
Violência contra mulheres indígenas aumentou
A morte de Ereni integra uma estatística alarmante: desde 2021 o Mato Grosso do Sul figura entre os cinco estados com as maiores taxas de feminicídio no país, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
A vulnerabilidade é ainda maior para mulheres indígenas. Um levantamento da Gênero e Número aponta que a violência contra mulheres indígenas saltou 258% entre 2014 e 2023, um crescimento significativamente superior à média nacional de 207% para o restante da população feminina. Entre os agressores, os companheiros e ex-companheiros se destacam.
Do total de registros, 64% envolveram violência física, enquanto a violência sexual, – que engloba casos de assédio, estupro, exploração e pornografia infantil – aumentou 297% no mesmo período. Entre as vítimas de violência sexual, 79% eram menores de idade, e metade delas tinha menos de 14 anos, revelando a extrema vulnerabilidade das meninas indígenas.
A pesquisa ressalta que essa proporção não deve ser interpretada como um problema cultural:
“É sinal, sim, da vulnerabilidade a que essas mulheres estão sujeitas pela falta de políticas de prevenção e acolhimento, assim como o racismo que embarreira sua autonomia financeira e normaliza a violação de seus direitos.”
Casos recentes em outras regiões do país reforçam esse cenário. No Tocantins, a morte da indígena Vanusa Smikadi Xerente, de 16 anos, no Hospital Geral de Palmas (HGP), está sendo investigada pela Polícia Civil. A suspeita é de que a jovem, que estava grávida de sete meses, tenha sido agredida pelo ex-companheiro antes de ser internada.