Cristiane* prometeu à filha Camile*, assassinada pelo ex-marido há quase dois anos, que cuidaria dos netos como se fossem filhos. Para isso, precisou encontrar formas de enfrentar a dor, o luto e conhecer os caminhos jurídicos a que teria direito. Cristiane é uma das 1.021 mães de mulheres assassinadas atendidas pelo Cravi (Centro de Referência e Apoio à Vítima) —número que supera o de familiares de vítimas de homicídios atendidos pelo serviço em São Paulo.
Mães de mulheres assassinadas buscam serviço
Em 2024, Cristiane perdeu a filha de 28 anos morta pelo ex-companheiro em São Mateus, zona leste de São Paulo. Naquele ano, o estado registrou 253 casos de feminicídio, de acordo com dados da Secretaria da Segurança Pública. Desses, 51 ocorreram na capital. Foi também o primeiro ano que o Cravi (Centro de Referência e Apoio à Vítima), serviço vinculado à Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, passou a registrar um número de mães e familiares de mulheres assassinadas em atendimento igual ou superior ao de parentes de meninos e homens mortos pela violência urbana.
O Cravi é um serviço gratuito que atende vítimas diretas e indiretas de crimes contra a vida. Hoje, existem nove unidades no estado. O serviço oferece orientação jurídica, atendimento social e psicológico às mães, irmãs e filhos de vítimas de crimes de feminicídio, homicídio e latrocínio.
Em 2024, foram registrados 981 casos ativos de familiares de vítimas de feminicídio contra 758 vítimas indiretas da violência urbana. No ano passado, a tendência se repetiu: 1.021 casos ativos referentes a feminicídios contra 960 de homicídio. Ao UOL, as assistentes sociais do Cravi relatam que há uma consolidação do atendimento de mães e irmãs de meninas e mulheres mortas por companheiros no programa.
“Antes, vinham mães de homens e meninos assassinados”, diz Siméia Ivo, assistente social do Cravi. “Agora, chegam as mulheres que sobreviveram a tentativas de feminicídios ou mães e irmãs de mulheres assassinadas”, afirma. Segundo a coordenadora do serviço, Luane Natale, a procura pelo atendimento é feita majoritariamente por mulheres. “Temos apenas um pai no momento”, diz Natale. “Eles não reconhecem o espaço como um lugar de escuta. Ouvimos das esposas que eles preferem ficar chorando em casa.”
“Antes, vinham mães de homens e meninos assassinados”, diz Siméia Ivo, assistente social do Cravi. “Agora, chegam as mulheres que sobreviveram a tentativas de feminicídios ou mães e irmãs de mulheres assassinadas”, afirma. Segundo a coordenadora do serviço, Luane Natale, a procura pelo atendimento é feita majoritariamente por mulheres. “Temos apenas um pai no momento”, diz Natale. “Eles não reconhecem o espaço como um lugar de escuta. Ouvimos das esposas que eles preferem ficar chorando em casa.”

“Prometi que cuidaria das crianças”
Cristiane leva os netos para sessões de terapia no Cravi, no Fórum Criminal da Barra Funda, todas as quintas-feiras às 15h. “Antes de vir para cá, me sentia sozinha, tinha medo de alguma coisa acontecer”, diz ela. “No começo, cheguei desorientada, é uma dor que a gente não consegue nem falar.” Mas foi aconselhada por amigos a buscar ajuda para conseguir cuidar das crianças.
Camile foi morta pelo ex-marido no dia 18 de agosto de 2024, na zona leste de São Paulo. “Ela tinha combinado com a outra avó de pegar os filhos”. Segundo Cristiane, a filha e o ex-companheiro estavam separados havia sete meses. Ela havia entrado na Justiça para que ele pagasse a pensão para os três filhos. “Ele se revoltou e disse que preferia matá-la.”
Quando ela chegou a um ponto de ônibus para pegar os filhos, foi atacada com uma série de golpes com um martelo. Segundo a mãe de Camile, o ex-marido foi preso uma semana depois do crime.
Foram três meses internada no Hospital Santa Marcelina, em Itaquera. Em um dos dias de visita, Cristiane prometeu à filha criar as crianças como se fossem filhos dela. “Ela suspirou, apertou a minha mão, parecia que ela estava se despedindo feliz”. No dia seguinte à visita, Cristiane foi informada que a filha havia morrido.
Nos primeiros meses após perder a filha, Cristiane conta que parou de se alimentar e não conseguia dormir. “Maio é o aniversário dela, da minha neta e tem o dia das mães, é muito doloroso.” Hoje, Cristiane faz sessões de terapia online às quartas-feiras, depois de deixar as crianças na escola.
Como é a busca pelo serviço
Vítimas e familiares costumam ter o primeiro contato com as assistentes sociais do atendimento “desconfiadas e abaladas”, relata Siméia. “Elas chegam sem saber o tipo de amparo que vão precisar, algumas chegam com o pedido de atendimento psicológico, outras querendo a um advogado ou saber como está a investigação policial.”
Cristiane chegou ao Cravi após recomendação de uma funcionária de uma Unidade Básica de Saúde em seu bairro. “No começo, estava desorientada, tinha muita coisa que eu não entendia, mas elas me ajudaram a obter o auxílio para as crianças.”
Violência sofrida pela vítima não precisa estar registrada, diz a coordenadora. Passado o primeiro acolhimento, as assistentes sociais direcionam as vítimas para os serviços necessários. “No atendimento psicológico, mapeamos algumas coisas, entre elas, se participaram do velório porque isso faz muita diferença na elaboração do luto”, afirma Siméia. A partir do atendimento inicial, são marcados os próximos encontros. A média de permanência das mulheres no serviço é de três anos.
Outra forma de se chegar às vítimas é por meio dos casos de repercussão nacional, relata Siméia. “Assistimos um caso na televisão, entramos em contato com os delegados do DHPP e alinhamos.”