No mundo, aproximadamente a cada 10 minutos, uma mulher ou menina é morta por um parceiro ou familiar. Em 2024, foram 83 mil mulheres e meninas mortas intencionalmente, das quais 50 mil — ou 60% — assassinadas por alguém de sua própria convivência. Os dados foram divulgados em 25 de novembro de 2025, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, em um relatório produzido pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), agência da ONU responsável por monitorar crimes e violência no mundo, em parceria com a ONU Mulheres. O levantamento expõe uma verdade dura: se a rua pode ser perigosa, a casa tampouco é abrigo seguro para as mulheres.
Esses dados reforçam que o feminicídio não é um episódio isolado nem tragédia súbita. Costuma ser o desfecho extremo de um contínuo de violências que começa muito antes, com controle, ameaças, assédio, coerção, vigilância, intimidação e perseguição — inclusive no ambiente digital. As Nações Unidas chamam a atenção para formas de violência digital como compartilhamento não consensual de imagens, exploração sexual, controle coercitivo, perseguição e deepfakes (vídeo, imagem ou áudio criado ou manipulado com inteligência artificial). Quando essa violência transborda das telas para a vida concreta, pode se transformar em espancamento, lesão grave e morte.
O primeiro passo para combater o feminicídio é entendê-lo, e para isso é preciso quantificá-lo. Sem receio, podemos afirmar que a qualidade e a disponibilidade das estatísticas refletem o grau de compromisso dos países — e também dos estados e municípios — no enfrentamento da violência de gênero. O próprio relatório da ONU mostra que, apesar de avanços, a disponibilidade de dados segue limitada em grande parte do mundo.
Dados sobre o feminicídio no Brasil
No Brasil, os números revelam que a violência letal contra mulheres está crescendo. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), desde a tipificação do crime, em 2015, ao menos 13.703 mulheres foram assassinadas por sua condição de gênero.
Por que tantos feminicídios no país? Que sociedade é essa, que continua produzindo e tolerando esse tipo de violência? Esses assassinatos não decorrem de um fator isolado. São resultado de uma estrutura social que naturalizou o machismo e o patriarcado e que, ainda hoje, trata como aceitável o controle sobre o corpo, a vida e as escolhas das mulheres. Mulheres são mortas por ciúme, por sentimento de posse, pela recusa masculina em aceitar a separação, pela ideia de honra ferida. A violência se sustenta também em uma profunda desigualdade de poder. Estudos mostram que mulheres com maior renda, escolaridade ou posição de prestígio também são alvos da violência de gênero.
Mas essa realidade não atinge as mulheres da mesma maneira. Ela é atravessada pelo racismo estrutural, que define a distribuição da vulnerabilidade, da proteção e do valor social atribuído à vida – as mulheres negras são as principais vítimas de feminicídio no país, representando 68% dos casos.
As desigualdades no território
Em um país de dimensões continentais, a distribuição territorial dos feminicídios também é desigual. Segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), divulgados em janeiro de 2026 e ainda incompletos para dezembro de 2025 para alguns estados, o Brasil registrou ao menos 1.470 feminicídios em 2025, acima dos 1.464 de 2024. Nesse levantamento preliminar, São Paulo (233 casos), Minas Gerais (139) e Rio de Janeiro (104) aparecem com os maiores números absolutos no ano, enquanto o Acre registra a maior taxa, com 3,38 assassinatos por 100 mil mulheres.
Nos dados acumulados de 2015 a 2025, também com base no Sinesp, São Paulo lidera com 1.774 feminicídios, seguido por Minas Gerais (1.641) e Rio Grande do Sul (1.019). Além dos casos consumados, o número de tentativas de feminicídio também cresceu: em 2025, foram registradas 3.702 tentativas, alta de 16,3% em relação ao ano anterior. No acumulado de seis anos, o país soma mais de 15 mil tentativas.
Mesmo sem a consolidação completa dos dados de dezembro, os números indicam uma média de quatro mulheres assassinadas por dia no país em contextos de violência doméstica, familiar ou motivados por discriminação de gênero.
Um cruzamento inicial entre os dados de feminicídio de 2025 e o perfil partidário dos governos estaduais, realizado a partir das informações preliminares do Sinesp, chama atenção para um elemento do debate atual: nove entre os dez estados com mais casos de feminicídio eram governados por partidos classificados à direita no espectro político. Entre os dez estados com maiores taxas por 100 mil mulheres, sete estavam nessa mesma situação.
Tais dados, no entanto, não permitem estabelecer, por si sós, uma relação causal entre orientação ideológica e incidência de feminicídio, mas indicam a necessidade de investigar de forma mais aprofundada as prioridades estatais, o desenho institucional e o financiamento da rede de proteção às mulheres.