Ao transformar duplo homicídio em narrativa de traição conjugal, jornalismo repete lógica de culpar mulher e reforça violência midiática contra uma vítima.
O jornalismo que preza em amolar facas se esmerou no terrível caso de infanticídio/filicídio e machismo que ocupou o debate nacional nas últimas semanas, quando o secretário de governo da prefeitura de Itumbiara, Goiás, Thales Naves Alves Machado, alvejou e matou os próprios filhos. Em seguida, ele atirou contra si e morreu. Thales visava destruir uma pessoa: a empreendedora Sarah Tinoco, mãe das crianças, com quem ele estava casado há cerca de 15 anos.
O secretário conseguiu infligir uma dor inimaginável para Sarah. Mas, mesmo após as mortes que causou, Thales contou com diversos parceiros para que seu projeto continuasse firme – incluindo o jornalismo.
- “TRAGÉDIA! Secretário descobre traição da esposa, mata o filho e tira a própria vida” (Terra)
- “Secretário de Governo de Itumbiara descobre traição da esposa e atira nos filhos” (Forum)
- “O que se sabe sobre o caso do secretário que matou os dois filhos e tirou a própria vida após suposta traição da esposa” (Portal PE 10)
- “Informações preliminares são de que ele cometeu o crime depois de descobrir traição da mulher, mãe das crianças” (Revista Oeste)
- “Em carta, secretário revela motivo de atirar em filhos e se matar; leia íntegra” (Metrópoles)
- “Suposta carta de Thales Machado sugere que traição da esposa teria motivado crime brutal” (ND +)
Esses registros de títulos, legendas e trechos de matérias são alguns dos exemplos que demonstram o quanto a mãe dos meninos teria sido, de acordo com parte da imprensa, quase literalmente o gatilho que causou a morte das crianças e do marido. A “traição” é colocada como a motivadora da tragédia, e não o machismo, o narcisismo e a perversidade de alguém que teve a coragem de balear duas crianças para ferir a mãe delas.
É claro que Sarah foi julgada e defenestrada no espaço público, fosse nas redes sociais ou no próprio enterro do filho: não dava para ser diferente tendo em vista um Brasil que ocupa o 5º lugar no ranking de violência contra mulheres no mundo, segundo dados da Organização das Nações Unidas, a ONU.
Em um perfil de fofoca no Instagram, @rollling_blues comentou: “se consola com o amante”. Em outra página, @arrozcomleite escreveu nos comentários (mantive os erros de digitação, mas dá para entender): “parabens a teste homem, nos deus exemplo de como agir”. Somente dois exemplos do mar de ódio, misoginia, moralismo e hipocrisia dirigido para a mãe.
Mas atentem para algo: não é exagero dizer que esse caldo grosso de ódio social enfrentado por Sarah e todas as mulheres – mesmo aquelas que se conectam a um papel de subserviência e também culpam a mãe das crianças – é nutrido também por um jornalismo que, apesar de divulgar tantas matérias criticando a violência contra as mulheres, as enquadra como culpadas ou pelo menos coautoras das próprias tragédias.
Pior: muitas vezes essa misoginia vem embalada com um sensacionalismo assustador – “olha, a gente vai ajudar a destruir mais um pouquinho a tua vida, mas vai render muito clique e engajamento”. O caso do portal Terra se enquadra nessa seara. Além do título irresponsável, observem que o conteúdo foi publicado na sessão “Entretê”, dedicada, isso mesmo, ao entretenimento.
O duplo homicídio de duas crianças está associado à editoria “Diversão/Gente/Mais Novela”. O Terra trata um caso terrível como se estivesse no terreno da ficção e, ao mesmo tempo, joga para o colo de Sarah Tinoco a responsabilidade pelo crime que o marido dela cometeu.
É interessante observar como essa perspectiva, embebida de misoginia estrutural, atravessa veículos com linhas editoriais distintas. À esquerda e à direita, a mesma engrenagem narrativa: deslocar o foco do autor do crime para o comportamento da mulher.
Na revista Fórum, o título foi direto ao ponto – mas ao ponto errado: “Secretário de Governo de Itumbiara descobre traição da esposa e atira nos filhos”. A estrutura sintática é reveladora. Descobre. Traição. Esposa. E então, quase como consequência lógica, atira nos filhos. A oração estabelece uma cadeia causal que não é apenas informativa; ela organiza o sentido do acontecimento. O assassinato aparece como desdobramento de um fato conjugal, não como expressão de violência masculina extrema.
A Revista Oeste, por sua vez, optou por reforçar “informações preliminares” de que ele teria cometido o crime após descobrir a traição da mulher. O advérbio de cautela não impede a consolidação da narrativa. Pelo contrário: ajuda a espalhá-la com verniz de prudência. Publica-se primeiro, problematiza-se depois – se for o caso. Nesse intervalo, a imagem da mulher já foi marcada.
Não se trata de ideologia partidária. Trata-se de uma cultura jornalística que ainda opera a partir do mesmo eixo: quando um homem mata, busca-se o que a mulher fez.
O Portal PE 10 entra nessa engrenagem ao reunir “o que se sabe” sobre o caso e, no desenvolvimento, reiterar a suposta traição como chave explicativa. A fórmula do “o que se sabe” costuma dar a impressão de levantamento técnico, quase neutro. Mas o recorte do que se escolhe saber é político. Se a ênfase recai na vida íntima da sobrevivente – e não na trajetória de controle, violência ou possíveis sinais anteriores do agressor –, o enquadramento está dado.
E então chegamos ao ND +, cujos textos merecem muita atenção. Aqui, o problema deixa de ser pontual e se torna sistemático. A publicação integral da carta deixada pelo agressor – cuja função evidente é manipular a memória do crime – oferece a ele a última palavra. O assassino passa a narrar o próprio ato. E o jornalismo, ao reproduzir sem mediação crítica consistente, torna-se veículo póstumo de sua versão.
Mais: matérias que apresentam a mulher como personagem de curiosidade pública – “mãe e empreendedora”, “saiba quem é”, “vizinhos revelam como era a rotina” – ampliam a exposição da vítima sobrevivente num momento de vulnerabilidade extrema. A vida privada vira ativo noticioso. Seus negócios, sua rotina, sua imagem com um novo namorado. Tudo convertido em conteúdo-clique-engajamento.
Em entretenimento. Novela. Ficção.
Não menos revelador é o papel do Metrópoles. Ao publicar sob a chamada “Em carta, secretário revela motivo de atirar em filhos e se matar; leia íntegra” o jornal incorpora e amplifica a narrativa do agressor sem o contextualizar criticamente.
A carta, cujo teor evidencia mecanismos íntimos de manipulação afetiva e justificativa subjetiva, é oferecida quase como explicação completa dos eventos. A reprodução literal de um documento produzido por alguém que acabou de tirar duas vidas e a própria vida – sem contraponto analítico robusto – é, na melhor das hipóteses, um atalho jornalístico; na pior, uma colaboração indireta com a narrativa do criminoso.
É isso que chamo, baseada neste texto, de jornalismo amolador de facas. Não é o veículo que aperta o gatilho. Mas é ele que prepara o terreno simbólico onde certos gatilhos encontram justificativa social. Ao insistir na “traição” como elemento central, a cobertura não apenas informa: ela sugere compreensão, quase explicação. E toda explicação mal enquadrada pode soar como atenuante.