Sem redistribuir cuidado, enfrentamento a feminicídio continuará incompleto

22 de maio, 2026 Conjur Por Alice Bianchini

O feminicídio costuma ser interpretado como evento extremo, ruptura ou desvio. Em geral, pergunta-se por que um homem matou uma mulher, quais foram os sinais anteriores da violência ou quais medidas poderiam ter evitado aquele resultado específico. Embora importantes, esses questionamentos são insuficientes. Eles concentram o olhar no episódio final (feminicídio) e acabam obscurecendo as estruturas que tornam essa violência possível.

O problema começa muito antes da agressão física, psicológica, patrimonial, moral ou sexual. E uma de suas bases mais invisíveis está na forma como as estruturas de poder e dominação estão distribuídas na sociedade, o que inclui a organização do cuidado, relegada às mulheres, sem que desfrutem de uma contraprestação pelos intensos e fadigantes serviços dele decorrentes.

Como sustenta Rita Laura Segato, a violência contra as mulheres deve ser compreendida como linguagem de poder e mecanismo de reafirmação hierárquica, produzindo e reproduzindo relações de dominação. Nessa perspectiva, o feminicídio não pode ser lido como evento isolado, mas como expressão extrema de estruturas sociais anteriores de controle, dependência e subordinação.

Cuidado como estrutura invisível de desigualdade

A sociedade depende diariamente de uma enorme quantidade de trabalho de cuidado: limpar, cozinhar, fazer compras, lavar e passar roupas, cuidar de crianças, pessoas idosas, pessoas doentes, administrar a rotina doméstica, oferecer suporte emocional e garantir o funcionamento cotidiano da vida. Esse trabalho sustenta famílias, viabiliza o mercado de trabalho e permite a reprodução da própria economia. Apesar disso, ele continua sendo tratado como obrigação natural das mulheres.

Historicamente, o cuidado foi deslocado para a esfera privada e associado à feminilidade, como se fosse decorrência espontânea da condição de ser mulher. O resultado é uma distribuição profundamente desigual do tempo, da energia e das oportunidades entre homens e mulheres.

Silvia Federici demonstra que o trabalho doméstico e reprodutivo constitui elemento indispensável à manutenção da economia capitalista, embora permaneça invisibilizado, não remunerado e naturalizado como dever feminino. A autora evidencia que a reprodução da vida foi historicamente apropriada como trabalho gratuito das mulheres, produzindo dependência econômica e reforçando desigualdades estruturais.

Os dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que mulheres brasileiras dedicam quase o dobro de horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado em comparação aos homens. Ao mesmo tempo, levantamento da Sociedade de Economia da Família e do Gênero, com base na Pnad Contínua/IBGE, revela que 43,9% das mulheres fora do mercado de trabalho apontam os afazeres domésticos como principal motivo para não trabalhar ou não procurar emprego.

Esses números não revelam apenas desigualdade na divisão das tarefas. Revelam uma estrutura de produção de dependência.

Essa lógica dialoga diretamente com as reflexões de Helena Hirata e Danièle Kergoat acerca da divisão sexual do trabalho, segundo as quais a distribuição desigual das atividades produtivas e reprodutivas constitui um dos principais mecanismos de reprodução das hierarquias de gênero.

Quanto maior a sobrecarga de cuidado, menor tende a ser a autonomia econômica feminina. E quanto menor a autonomia econômica, maior tende a ser a vulnerabilização em contextos de violência, dificultando (e muitas vezes até inviabilizando) que a mulher saia da relação abusiva.

Utiliza-se aqui a ideia de “vulnerabilização”, e não apenas de “vulnerabilidade”, porque esta tende a indicar uma condição de fragilidade ou exposição ao risco, enquanto aquela desloca o foco para os processos estruturais que produzem essa exposição. No contexto da violência doméstica e do feminicídio, mulheres não são vulneráveis por natureza, mas vulnerabilizadas por relações sociais organizadas em torno da divisão sexual do trabalho, da desigual distribuição do cuidado e das assimetrias de poder de gênero. A categoria “vulnerabilização” permite, assim, compreender a violência de gênero como fenômeno estrutural, e não como mera decorrência de fragilidade individual.

Dependência econômica e permanência na violência

A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado (2025), evidencia de forma bastante clara a relação entre dependência econômica e violência doméstica. O levantamento mostra que a dependência financeira continua sendo apontada pelas mulheres vítimas como um dos principais fatores que dificultam a denúncia e a ruptura de relações abusivas. Os dados revelam, assim, que a violência doméstica não pode ser compreendida como fenômeno isolado ou episódico, mas como parte de relações estruturadas de controle e subordinação.

Quando uma mulher depende economicamente do agressor, a decisão de romper a relação deixa de envolver apenas aspectos emocionais ou jurídicos, passando a atingir diretamente sua sobrevivência material. A denúncia pode significar perda de moradia, ausência de sustento para os filhos, impossibilidade de reorganização da vida cotidiana e risco de agravamento da violência. Não por acaso, a mesma pesquisa demonstra que muitas mulheres deixam de denunciar por preocupação com a criação dos filhos.

Há um dado particularmente revelador no levantamento: 74% das mulheres que sofreram violência nos 12 meses anteriores à pesquisa são mães. O dado evidencia que maternidade, cuidado e violência estão profundamente conectados. Mulheres que concentram responsabilidades familiares e possuem menor inserção no mercado de trabalho enfrentam obstáculos muito mais severos para romper ciclos de violência. Nesse contexto, o cuidado deixa de ser apenas atividade afetiva ou relacional e passa a funcionar como mecanismo de aprisionamento estrutural.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que mães correspondem a 51,7% das vítimas de violência no país, reforçando a relação entre maternidade, dependência econômica e processos de vulnerabilização feminina.

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