Modelos transgêneros põem cordialidade brasileira à prova

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(Folha de S.Paulo, 01/04/2014) Quando era garoto no interior do Brasil, Carol Marra observava seus pais corrigirem estranhos que comentavam como era bonitinha a filha deles. Hoje uma das favoritas entre o grupo crescente de modelos transgêneros brasileiras, Carol, 26, virou estrela.

Ela já participou de duas minisséries da TV brasileira, está lançando uma linha de lingerie e foi a primeira modelo trans a desfilar no Fashion Rio.

Sua popularidade aponta para avanços notáveis, embora precários, dela e de seus poucos pares na cultura popular brasileira. Num país que festeja publicamente sua herança mestiça e multicultural, as capitais cosmopolitas do Brasil, como São Paulo e Rio de Janeiro, já se tornaram lugares onde a mudança de sexos é cada vez mais aceita. Mas o Brasil ainda é, de muitas maneiras, um país conservador, com forças religiosas poderosas que podem criar um ambiente hostil para sua população gay e transgêneros.

“Dizem que o Brasil é um país liberal e progressista, mas não é bem assim”, comentou Carol. Ela própria virou exemplo de sucesso para cada vez mais modelos transgêneros que, como ela, migraram de regiões mais remotas para São Paulo, considerada a mais importante capital da moda da América Latina.

Felipa Tavares é uma das modelos que têm espaço garantido no mercado nacional
Foto: Lianne Milton / NYTNS

Relativas novatas como Melissa Paixão, Camila Ribeiro e Felipa Tavares vêm conseguindo trabalho em desfiles e catálogos no mercado nacional de moda. Camila Ribeiro desfilou no Fashion Business, no Rio, para a Santa Ephigênia, uma grife de moda feminina. E Melissa Paixão vai estar no próximo catálogo de Walério Araújo, importante estilista brasileiro.

As modelos trans dizem que suas experiências confirmam a ideia de que os avanços em sua aceitação social têm sido irregulares, não obstante a imagem do Brasil como país em que vale tudo.

Camila Ribeiro modelos de sucesso
Foto: Lianne Milton / NYTNS

O cross-dressing tem história no Brasil, chegando ao auge todos os anos no Carnaval. Os shows de drag queens feitos por artistas gays e transgêneros viraram moda nas boates cariocas nos anos 1950.

O Brasil vem dando apoio crescente aos direitos dos homossexuais. Uma das maiores paradas gays do mundo acontece em São Paulo, e desde 2010 o Judiciário brasileiro respalda o direito dos casais gays a formalizar uniões civis, adotar filhos e se casar. Mas uma proposta de distribuir kits antidiscriminação na rede de ensino público foi derrotada pelo governo depois de membros da bancada evangélica no Congresso terem reclamado de seu conteúdo sexual.

E a violência e o preconceito contra as populações gays e transgêneros ainda é grande. O Grupo Gay da Bahia, destacada organização de defesa dos direitos dos homossexuais, denunciou 338 assassinatos de gays, lésbicas e transgêneros em 2012.

Roberta Close, que posou para a “Playboy” em 1984, é considerada a primeira modelo trans do país e, com sua estética de menina, conquistou uma legião de fãs homens. A atriz Rogéria, nascida Astolfo Barros Pinto, é conhecidíssima no país, depois de aparecer na TV Globo durante anos. A modelo trans brasileira mais conhecida internacionalmente é Lea T, nascida Leando Cerezo, filho do ex-jogador de futebol Toninho Cerezo.

Mesmo assim, a proporção de modelos trans é minúscula, considerando as dimensões do setor da moda no Brasil.

Carol Marra disse que sua fama no mundo da moda não chega a outros âmbitos. Ela contou que recebe uma enxurrada de mensagens vulgares de homens em sua página no Facebook.

“Eu nunca quis ser ativista da causa”, disse a modelo. “Pensava que era uma mulher como outra qualquer.” Mas ela começou a se manifestar depois de receber mensagens de indivíduos trans de lugares mais distantes do país, como uma prostituta em Manaus.

Carol disse que não recebe tratamento justo quando é chamada para trabalhar como atriz, dizendo que só foi escalada para papéis de mulheres trans. “Os atores geralmente são gays e podem fazer papéis de galã”, disse a modelo a seu diretor numa tomada de sua minissérie. “Por que eu não posso fazer papel de empregada, de secretária, de árvore?”

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