Mulheres lésbicas e bissexuais 40+ desafiam estigmas e projetam futuro em comunidade

26 de junho, 2026 Portal Catarinas Por Ariele Lima

Entre o apagamento na mídia e o sonho de envelhecer em comunidade, quatro mulheres compartilham medos, desejos e reivindicações para o futuro.

A heterossexualidade compulsória é um fenômeno que a filósofa e poetisa Adrienne Rich denominou, nos anos 1980. Trata-se de um sistema social e cultural que, desde a infância, orienta desejos, brincadeiras, relacionamentos e até projetos de vida em relação a compreensão dos papéis de gênero, silenciando outras formas de afeto.

Na prática, essa pressão invisível faz com que muitas mulheres, por exemplo, interpretem sua falta de interesse por homens como timidez ou uma “fase”, e não como uma orientação sexual legítima. Para Camila Marins, hoje com 42 anos, esse foi um fator que adiou a descoberta da sua própria sexualidade por muito tempo.

A minha primeira relação com mulher foi por volta dos 25 anos, infelizmente! Nunca namorei homens e achava que tinha algo errado comigo. Mas o que estava errado era a sociedade, que impunha a heterossexualidade como padrão e modelo a ser seguido, e isso é devastador para a vida de tantas de nós. Me afirmar sapatão foi transformador e libertador!”, recorda.

Jornalista e mestre em políticas públicas em direitos humanos, Camila transformou a própria trajetória e o desejo de conectar outras mulheres lésbicas em um projeto coletivo: a Revista Brejeiras. Fruto de um movimento cooperativo, a iniciativa busca ampliar os espaços de fala dessa população, colocando as lésbicas no centro do debate.

A publicação aborda temas como economia, política, gastronomia, paquera, astrologia, cultura e lazer. Para além do entretenimento, tornou-se um movimento social que reivindica políticas públicas e direitos, promovendo e fortalecendo uma rede de solidariedade entre lésbicas.

A construção dessas redes de pertencimento aparece, de diferentes formas, nas trajetórias das mulheres entrevistadas para esta matéria. Seja no ativismo, na produção de conteúdo ou nas relações familiares, elas compartilham o desejo de viver seus afetos com total liberdade.

Sexualidade e família

O mesmo dente que Camila Carvajal tratou aos 16 anos, em sua primeira sessão de canal, quebrou agora, aos 44. E essa quebra a fez viajar no tempo de volta à adolescência no interior do Rio de Janeiro. Aos 16, ela tinha um jeito “moleca” e usava um bermudão largo quando virou assunto no bairro. Em um consultório odontológico, durante sua primeira sessão de canal, imobilizada na cadeira e com a boca escancarada, ouviu a pergunta seca: “Então quer dizer que você virou sapatão?”. Paralisada, nem conseguiu responder.

Mesmo em uma família formada por mulheres que desfiaram convenções sociais, sua mãe e avó enfrentaram julgamentos por serem divorciadas, ser lésbica era um tabu que ultrapassava esses limites.

Percebi que minha família só me aceitava se eu ficasse dentro do armário. Curiosamente, minha avó não me apoiou exatamente, mas foi a mulher que me disse: ‘Minha filha, se está te fazendo feliz, sua avó está contigo’. Ainda era quem me botava no colo. Mas minha mãe e minha tia foram mais rígidas, não aceitavam”, relata.

Atual coordenadora financeira da Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Norte, a contadora afirma que, apesar de viver em um contexto matriarcal, sua família apresentava nuances muito machistas.

O processo de se descobrir lésbica não foi imediato. Até pouco tempo antes do fatídico dia do consultório, Camila namorava meninos, inclusive aqueles considerados os mais “disputados” pelas garotas da escola.

“Era um ‘playboy’ do Rio de Janeiro que ia me buscar no colégio, na cidade do interior, no carro importado. Me dava presentes caros, o sonho das meninas. Eu namorava e o menino adorava, porque eu via futebol com ele. Aí me descobri apaixonada pela minha melhor amiga, e isso mudou minha vida”, relembra.

A “saída do armário” resultou em alguns rompimentos nas relações familiares, mas também lhe trouxe a liberdade de viver a própria sexualidade.

Onde eu estiver, eu quero ser quem eu sou”, afirma.

“Muito feminina para ser sapatão?”

O termo que Camila ouviu no consultório na pergunta invasiva carrega uma longa história de estigma e ressignificação. A palavra “sapatão” surgiu como uma gíria pejorativa e lesbofóbica, associada ao uso de sapatos masculinos por mulheres, especialmente a partir da década de 1920, e foi amplamente difundido pela marchinha de carnaval “Maria Sapatão”. Embora sua origem esteja enraizada no preconceito, ela foi ressignificada pela comunidade lésbica ao longo do tempo, sendo hoje utilizada como uma identidade política de afirmação e resistência.

Apesar disso, a mudança não eliminou os estereótipos associados às mulheres que se relacionam com outras mulheres. Ideias sobre aparência, comportamento e feminilidade ainda influenciam a forma como elas são percebidas e, muitas vezes, como têm suas identidades questionadas. Como já aconteceu com a advogada Rosa Oliveira, de 58 anos.

Desde a adolescência, ela já percebia que sua maior afinidade era com mulheres. Mas, como ela mesma conta, não frequentava a cena LGBTQIAPN+, nem se identificava com os estereótipos associados a ela. Foi na faculdade que tudo se concretizou: apaixonou-se por uma colega, iniciou sua vida sexual com liberdade, namorou meninas e meninos e se descobriu bissexual.

No início dos anos 1990, ela começou a atuar no movimento LGBTQIAPN+ e fundou, em Porto Alegre (RS), o grupo Nuances – Pela Livre Expressão Sexual. A ONG atua na promoção da cidadania e no debate de questões que envolvem travestis, bissexuais, transexuais, lésbicas e gays. A militância também marcou sua vida afetiva, pois foi nesse ambiente de luta que Rosa conheceu sua atual esposa, Gisele, em 1994.

Muitas vezes ouvi de amigas que sou ‘muito feminina’. E já fui discriminada por colegas do movimento que não aceitavam minha bissexualidade como legítima para atuar nele, especialmente no início, quando a fluidez de gênero ainda não era discutida nem vivenciada abertamente. Enfim, quando dizem que sou muito feminina, quase completo a frase: ‘muito feminina para ser sapatão?’”, ironiza.

Rosa observa que seu relacionamento com Gisele frequentemente frustra expectativas heteronormativas. Embora a advogada expresse mais feminilidade e sua parceira se encaixe esteticamente no estereótipo “sapatão”, as duas vivem uma dinâmica própria, na qual tarefas domésticas e decisões financeiras não seguem divisões baseadas na performatividade de gênero.

Para Rosa, essa organização representa uma conquista do casal na forma de se comunicar, buscar harmonia e felicidade, sem se prender a modelos heteronormativos ou a rótulos que tentam enquadrar sua relação em padrões pré-estabelecidos.

“Agora você tem que decidir”

O processo de conhecer a própria sexualidade é fluido e pode ser atravessado por outras vivências, como a maternidade e não-monogamia. Como é o caso da humorista e criadora de conteúdo, Aline Negríndia, de 42 anos. Ela se descobriu bissexual aos 12 anos e passou a se identificar como não-monogamica na vida adulta.

Aos 30, entendi que eu era não-monogâmica. Logo depois engravidei e minha mãe falava coisas do tipo: ‘Agora você tem que decidir se namora só com homens ou com mulheres, porque vai ser confuso pra minha neta saber que a mãe tem o pai dela e uma namorada’. Mas eu sempre lidei bem com isso”, garante.

A não-monogamia, termo que se refere a modelos de relacionamento nos quais as pessoas têm liberdade de estabelecer vínculos afetivos e/ou sexuais com mais de uma pessoa de forma consensual, inclui práticas como poliamor, relacionamento aberto, anarquia relacional e swinging. Não é uma prática homogênea e cada relação define seus próprios limites.

Nos vídeos que produz para as redes sociais, Aline também aborda a relação com a irmã, que é evangélica. As diferenças religiosas e sexuais entre as duas frequentemente aparecem em seu conteúdo, que utiliza o humor para abordar a convivência dentro da própria família.

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