Ofensiva antitrans: como se organizam grupos de mulheres que atacam direitos de pessoas trans

Vidas Trans Importam

Foto: Mídia Ninja

18 de março, 2026 AzMina Por Dani Avelar

Do discurso a alianças políticas, organizações transfóbicas que dizem lutar pelos direitos das mulheres têm se aliado à ultradireita no Brasil e no mundo

  • Movimentos de mulheres se articulam com setores da ultradireita para promover restrições aos direitos de pessoas trans, usando o discurso de proteção a mulheres e crianças;
  • A associação Matria surge como um ator central dessa articulação, atuando com advocacy, litigância e alianças políticas para influenciar decisões institucionais contrárias a pessoas trans;
  • Especialistas apontam que esses grupos fazem parte da ofensiva antigênero global, que reúne setores religiosos, políticos e organizações que difundem pânico moral sobre pessoas trans.

Em diferentes partes do mundo, alguns movimentos de mulheres cis têm somado esforços com grupos da ultradireita para impulsionar políticas contra pessoas trans. Sob o pretexto de proteger mulheres e crianças, essas entidades se mobilizam para excluir travestis e transexuais de espaços femininos em banheiros, presídios e competições esportivas, e se opor a ações afirmativas e serviços de saúde especializados para essa população. No Brasil, esse movimento tem aumentado e se institucionalizado nos últimos anos.

Uma organização emergente nesse campo é a Matria – Associação de Mulheres, Mães e Trabalhadoras do Brasil. Registrada como organização da sociedade civil em outubro de 2023, a entidade tem cerca de 300 associadas e 50 mil seguidores nas redes sociais e trabalha principalmente por meio de advocacy junto ao Legislativo e órgãos de controle, além de litigância predatória (uso repetitivo de ações) no Judiciário.

Esses movimentos sustentam que as diferenças entre homens e mulheres são determinadas pelo sexo biológico, em oposição à identidade de gênero, considerada uma construção artificial. Os posicionamentos transfóbicos encontram ressonância na cruzada de setores cristãos conservadores e da extrema direita contra o que eles chamam de “ideologia de gênero”.

E a ressonância vai além do discurso, em alianças políticas e ações concretas. Abaixo, explicamos como esse movimento surgiu e tem se organizado no Brasil, suas ações, pontos de convergência com a extrema-direita e também como seu discurso se organiza para cooptar seguidoras.

Matria profissionaliza atuação antitrans

Organizações transfóbicas como Garra Feminista, Raízes Feministas e WDI Brasil (Women’s Declaration International) já existiam no país, porém tinham baixa capacidade de incidência junto às instituições. O quadro mudou drasticamente após o surgimento da Matria, como explica Bruna Benevides, presidenta da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

“A Matria veio para profissionalizar uma atuação antitrans, no sentido oposto do que a Antra faz em termos de mobilizar uma rede de instituições, entidades e perfis nas redes sociais para defender uma agenda única”, afirma Bruna.

A organização atua na disseminação de mensagens transfóbicas em redes sociais e eventos, mas seu profissionalismo se dá principalmente no trabalho de incidência nas instituições do poder, como o Supremo Tribunal Federal ou o Ministério das Mulheres, para tentar reverter direitos já conquistados pela população trans ou barrar novos direitos.

A organização também realiza ações como a promoção da vinda da relatora especial da ONU sobre violência contra a mulher, Reem Alsalem, para uma agenda antitrans em Brasília na última semana.

A Matria afirma que é financiada por recursos próprios e doações de pessoas físicas, e sustentada pelo trabalho voluntário de suas integrantes, que contribuem com mensalidade de R$50. Com sede em Joinville (SC), a associação aceita apenas mulheres adultas do sexo de nascimento feminino — a entidade evita mencionar o termo mulheres cis.

Sem se definir como feminista (apesar de muitas de suas integrantes assim se definirem), a Matria também não defende explicitamente bandeiras como aborto legal, combate à violência doméstica e promoção da igualdade de gênero. Além da pauta trans, a organização aborda temas como alienação parental e exploração sexual de meninas. Ao priorizar a agenda antitrans, a entidade busca a construção de pontes com setores da ultradireita.

Questionada pela reportagem, a Matria negou ser uma organização antitrans e afirmou que “não atua para ‘restringir direitos’, mas para assegurar direitos das mulheres com base no sexo, conforme previsto em marcos jurídicos como a CEDAW.”

“Nosso compromisso é com a escuta e a proteção de direitos de mulheres, crianças e adolescentes nas questões relativas às políticas de gênero e colisões com seus direitos”, afirma por e-mail Celina Lazzari.

A teoria por trás: feminismos essencialistas, TERFs e RADFEMs

As correntes supostamente feministas que se opõem à inclusão de pessoas trans costumam se definir como radicais ou críticas ao gênero. De forma pejorativa, são chamadas de radfems ou TERFs (sigla em inglês para feministas radicais transexcludentes).

“É curioso pensar que, dentro do movimento feminista, a radicalização de certos princípios de explicação sobre a sociedade tenha gerado compreensões transfóbicas”, afirma Beatriz Bagagli Pagliarini, doutora em linguística pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O feminismo radical teria suas origens nos anos 70 em meio a organizações de mulheres lésbicas, movimentos sindicais e grupos feministas sionistas em países anglófonos, conta Greta Lafleur, professora de estudos americanos na Universidade Yale. Sua agenda é contra prostituição, pornografia, tráfico de pessoas e violência contra a mulher, além da defesa da definição de mulher a partir do sexo. Mas essa postura não é unânime.

Leona Lopes dos Santos, psicanalista e doutoranda em filosofia pela Universidade Federal do ABC (AFABC), ressalta a existência de organizações feministas radicais que entendem que mulheres trans e travestis sofrem as mesmas violências que as mulheres cis.

Para evitar imprecisões e variações semânticas do termo feminismo radical, especialistas adotam outras nomenclaturas. O relatório de pesquisa Fronteiras Borradas: movimentos feministas e de mulheres e política antigênero no Brasil fala em feminismos essencialistas ou transfóbicos, apontando para a confluência entre essas correntes e as ofensivas antigênero mobilizadas pela ultradireita.

Publicado em novembro de 2025, o estudo foi produzido pelo Observatório de Sexualidade e Política (SPW), Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT+ da Universidade Federal de Minas Gerais (NUH/UFMG) e a Antra.

Para Greta há precedentes que ajudam a entender por que alguns movimentos defendem a transfobia como plataforma feminista. Ela cita o histórico de organizações feministas do norte dos Estados Unidos que abandonaram feministas negras para conquistar o apoio de mulheres brancas no sul do país, contribuindo para a manutenção das hierarquias raciais. “Infelizmente, o feminismo comporta muita opressão”, afirma Greta.

AzMina, acompanhando reflexões de grandes nomes do pensamento feminista, acredita que esses grupos não deveriam sequer ser chamados de feministas. Na obra Quem tem medo do gênero?, Judith Butler afirma que esses grupos se envolvem em formas de discriminação na contramão do compromisso feminista com a igualdade.

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