Orgulho gay ferido em Uganda

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(O Estado de S. Paulo, 20/03/2014) Em 2012, eu vivia em Uganda e trabalhava numa organização sem fins lucrativos na zona rural, distante dos amigos de meu país. Sendo gay e solteiro, ansiava por uma vida em comunidade. Contatei Frank Mugisha, diretor executivo da Sexual Minorities Uganda, organização que congrega os grupos de defesa dos direitos dos gays, depois de ler um ensaio escrito por ele. Por meio de Frank, conheci Richard Lusimbo, diretor de pesquisa da mesma organização e depois outros membros da vibrante comunidade LGBT de Uganda.

Eles são algumas das faces que precisam permanecer ocultas da sociedade e não confiam facilmente em estranhos. Com a ajuda desses amigos, fiz um projeto fotográfico para a revista americana The Advocate, em que membros da comunidade LGBT contavam suas histórias, muitos pela primeira vez. Meu ensaio foi publicado no website da revista em janeiro de 2012 e na sua edição impressa de fevereiro/março.

Foi um ato de coragem dos ugandenses participar desse projeto. Eles sabiam que as fotografias estariam na internet. Discutimos muito sobre as consequências se as fotos fossem vistas em Uganda. Eles entenderam que, de modo irreversível, estavam saindo do armário. Mas estavam orgulhosos de participar de uma história importante.

Em 24 de fevereiro, tudo mudou. Neste dia, o presidente Yoweri Museveni sancionou lei contra a homossexualidade. Dois dias depois, o maior tabloide de Uganda, Red Pepper, publicou um artigo intitulado “A homossexualidade pode causar doenças mentais, alerta médico”. O artigo foi acompanhado de uma foto – também publicada por The Advocate -, que eu havia tirado durante a primeira parada gay de Uganda em 2012, mostrando dois ugandenses com um largo sorriso. O jornal não pediu autorização para publicá-la.

O pior momento para mim e meus amigos ativistas ocorreu no dia 28, quando o Red Pepper republicou – novamente sem minha permissão – a versão do meu ensaio fotográfico para a revista americana. A reportagem tinha o título “Conhecidos gays ugandenses contam francamente: como nos tornamos homossexuais”. Meu nome foi colocado nos créditos como se eu fosse um dos repórteres do jornal. Algumas palavras foram mudadas e as fotos foram recortadas para eliminar minha marca d’água. A revista jamais foi contatada nem mencionada nos créditos.

Uganda tem leis rigorosas contra violação de direito autoral. Embora aqueles que participaram do ensaio e eu soubéssemos que as fotos e as histórias poderiam algum dia ser usadas contra nós, jamais pensamos que o projeto inteiro seria roubado. Alguns ugandenses muito provavelmente já tinham visto as fotos, mas a apropriação indevida pelo Red Pepper quis distribuir o material de maneira odiosa.

Meu amigo Richard, nomeado no artigo, contatou-me em Portland. Disse que seu telefone não parava de tocar. Amigos repentinamente se tornaram inimigos homofóbicos, insultando-o com palavrões. A vida de meus amigos estava em risco. Contatei os ugandenses envolvidos por e-mail e Skype. Alguns haviam encerrado suas contas em redes sociais e desligaram seus telefones. Quase todos estavam em estado de choque. Vários estavam histéricos. Outros estavam calmos, mas enfurecidos com o roubo mal-intencionado.

Elijah, que também vive em Uganda, contou-me que estava no trabalho quando colegas se aproximaram com um exemplar do jornal. O grupo, encolerizado, expulsou-o dali em meio a gritos e ameaças. Quando eu o contatei, ele caminhava pelas ruas de Masaka, cidade distante várias horas de ônibus da sua casa. “O que devo fazer?”, ele gritou no telefone. “Perdi tudo.”

Senti-me culpado e responsável. Com amigos em Uganda, trabalhamos para encontrar alojamento temporário para Elijah. Muitos dos que contribuíram para o meu ensaio foram obrigados a mudar de localidade ou se esconder. Um fugiu do país. Várias, como Elijah, perderam o emprego.

Muitos ugandenses são contrários à nova lei e muitas decisões de tribunais do país em ações de direito civil impetradas por homossexuais têm sido favoráveis a eles. Vários tiveram seu nome revelado em 2009 pelo tabloide ugandense Rolling Stone (sem relação com a revista de música americana). Eles moveram ação contra os responsáveis e venceram, numa decisão que qualificou a reportagem da revista, revelando nomes de pessoas, uma ameaça “a direitos e liberdades fundamentais”. O tabloide posteriormente encerrou suas atividades.

Moverei uma ação judicial em Uganda por violação de direito autoral contra o tabloide Red Pepper. Até o momento, a The Advocate, a mais antiga publicação que luta pelos direitos da comunidade LGBT nos EUA, relutou em se envolver. Depois da publicação não autorizada do ensaio, a revista removeu a versão online do trabalho. O editor Lucas Grindley disse que antes de republicar o documento desejava contatar os participantes para lhes dar uma chance de “reafirmar sua intenção de resistir frente a essas novas e aterrorizadoras condições”.

*Denver David Robinson trabalha para uma organização de desenvolvimento internacional.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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