Mídia brasileira desacredita a palavra das mulheres vítimas de violência, por Mabel Dias

15 de junho, 2026 Brasil de Fato Por Mabel Dias

A influenciadora Bella Longuinho postou um vídeo em suas redes sociais no último final de semana, falando sobre a agressão que sofreu do ex-namorado, Will Leite em uma boate.

Bella disse que o ex-namorado aplicou um golpe em seu pescoço, conhecido popularmente como mata-leão. Will Leite agrediu Bella porque ela havia tirado uma foto com um fã e, segundo ele, o fã havia tocado no corpo da ex-namorada. Seja qual for a situação, nada justifica a violência contra uma mulher.

A notícia da violência sofrida por Bella Longuinho foi publicada no portal g1, do grupo Globo de Comunicação, no dia 10 de junho. A matéria não é assinada, e no lead a frase: “A influenciadora Bella Longuinho deu mais detalhes sobre a agressão que disse ter sofrido do ex-namorado”, coloca dúvidas sobre as palavras de Bella. Esse não é um caso isolado na mídia brasileira ao duvidar da palavra de uma mulher, vítima de violência por parte de um homem com quem ela mantinha um relacionamento.

O próprio agressor, Will Leite, também postou um vídeo nas redes sociais dele, confirmando a agressão contra Bella. Mesmo assim, isso não foi suficiente para que o g1 acreditasse nas palavras da vítima, e usasse no lead da matéria a conjugação do verbo sofrer em um sentido que gera dúvidas sobre o depoimento da influenciadora em relação à violência que ela sofreu do ex-namorado.

Bella Longuinho é uma mulher trans, e divulgou publicamente a sua transição de gênero em suas redes sociais. No entanto, não é possível entender por quê o g1 publicou uma foto dela antes da transição, ilustrando a matéria, pois não importa o gênero anterior de Bella, e sim, o agora, pois ela é uma mulher trans e foi contra uma mulher que um homem praticou a violência física. A matéria faz uma retrospectiva sobre a vida de Bella, da transição de gênero até os dias atuais, mas não traz informações sobre as violências que as mulheres trans sofrem, cotidianamente, o que poderia dar um panorama para a leitora e o leitor do portal da Globo, sobre a grave realidade de violência, vivenciada pelas mulheres trans no Brasil.

Segundo pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2025, apesar da redução no número de assassinatos de pessoas trans no Brasil, houve um crescimento das tentativas de assassinato e faltam políticas públicas que coíbam a violência contra pessoas trans e travestis no país. Além dos dados sobre violência, a pesquisa traz outras informações importantes, como a política anti-LGBT e antigênero, encabeçada pelo governo da extrema direita nos Estados Unidos, que vem reverberando em diversos outros países, como o Brasil, e estimula o discurso de ódio, a desinformação e contribui para a disseminação de preconceito, que pode reverberar em um caso de violência concreta. A pesquisa completa pode ser acessada no site da Antra.

Esse tipo de postura da mídia de duvidar da palavra das mulheres, infelizmente, é algo comum. Com certeza, a cobertura da violência contra as mulheres no Brasil e na Paraíba tem melhorado, mas ainda há muito a ser feito para que a concepção machista, sexista e LGBTfóbica da mídia seja mudada. O jornalista e influenciador digital na Paraíba, Hyldo Pereira, ao noticiar em seu perfil no Instagram sobre a violência sexual praticada por um motorista de aplicativo contra uma passageira, no bairro dos Bancários, também usou uma frase, que coloca em dúvidas a palavra da vítima. A postagem, publicada no dia 7 de junho, traz no título a frase “Estudante diz ter sido estuprada por motorista de aplicativo, após corrida, em João Pessoa.”

Sabemos que existe a presunção de inocência – direito constitucional que a imprensa, geralmente, não respeita –, que o motorista tem direito a se defender, no entanto, não se pode duvidar da palavra de uma mulher vítima de violência, principalmente diante de uma sociedade machista e misógina como a brasileira. Nenhuma mulher quer ocupar as redes sociais ou a mídia tradicional (TV, rádio) para dizer que foi vítima de violência, pois sabemos o que tudo isso vai implicar na vida dela. O agressor pode ser preso e em seguida solto, como aconteceu algumas vezes, e a mulher ser vítima de violência novamente, podendo um feminicídio ser consumado.

A mídia, sabemos bem, tem um papel social importante na conscientização e combate à violência contra as mulheres, sejam elas cis ou trans, e por isso, precisa ter responsabilidade e ética ao divulgar casos como esse. Por isso, a ONU Mulheres desenvolveu uma campanha voltada à mídia, com o objetivo de conscientizar jornalistas a refletir e mudar o modo como divulgam e cobrem notícias sobre violência contra a mulher. A campanha Voz ativa #MachetesemViés quer recolocar o agressor no centro da narrativa jornalística, sem revitimizar as mulheres e sem culpabilizá-las pela violência sofrida.

“A proposta parte do entendimento de que a linguagem não é neutra. A maneira como crimes são descritos influencia a percepção pública sobre responsabilidade, urgência e prevenção. Ao ‘sumir’ com o sujeito da violência, a cobertura pode naturalizar o crime e deslocar simbolicamente o foco para a vítima. A campanha defende que dar visibilidade à autoria, quando possível e responsável, é um passo editorial importante para a responsabilização e para a construção de normas sociais que rejeitem a violência”, diz um dos trechos da matéria publicada no site da ONU Mulheres sobre a campanha.

Outra proposta que também tem o objetivo de conscientizar jornalistas e comunicadores, e mostrar que a mídia deve ser aliada das mulheres pelo fim da violência, é o Guia de Enfrentamento da Violência contra as Mulheres: diretrizes para uma cobertura responsável, uma iniciativa da Secretaria de estado da Mulher e da Diversidade Humana, Intervozes – coletivo Brasil de Comunicação Social, Observatório Paraibano de Jornalismo e Reamcav, lançado em 2024. O material está disponível gratuitamente no site do Intervozes, e pode ser acessado neste link.

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