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Empresa diz que a confiança de quem usa o dispositivo e das pessoas ao redor é levada em conta desde a concepção do produto
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Pesquisa da Universidade de Sydney achou assédio potencial em 60% dos casos analisados
Uma mulher aguarda a refeição sentada sozinha à mesa de um restaurante nos Estados Unidos. Um homem desconhecido senta à sua frente e fala “Desculpa, estava atrasado” como uma forma de cantada.
Ela pede que ele saia. Ele insiste. Outra mulher, sentada na mesa ao lado, pede que ele se retire.
Um vídeo do momento foi publicado como parte do conteúdo filmado com óculos inteligentes da Meta no TikTok. O homem não aparece no vídeo, já que usava os óculos de inteligência artificial para gravar. As mulheres são expostas e recebem comentários sobre sua aparência e “falta de educação” na rede social.
Esse é um entre vários vídeos de mulheres abordadas e filmadas sem consentimento com os óculos quando estão no trabalho, na academia e no mercado, entre outros espaços. Em um deles, mulheres precisam expulsar o produtor de conteúdo do elevador.
A maioria dos registros é em inglês, com poucos no Brasil e falados em português. Em um dos exemplos no país, um homem que faz pegadinhas para as redes sociais filma crianças que têm o corpo e o rosto exposto mesmo com a tarja que ele coloca. O vídeo mostra as mães proibindo a filmagem e discutindo com o produtor de conteúdo.
Um estudo do projeto Governança de Tecnologias Imersivas da Universidade de Sydney, na Austrália, analisou 350 registros desse tipo de 2023 a 2026 e concluiu que os óculos inteligentes, que filmam e gravam áudio, facilitam o assédio a mulheres e sua exposição digital.
Dentre os vídeos analisados, cerca de 60% foram classificados como assédio potencial, com as mulheres exibindo desconforto visível ou tentando ir embora.
O artigo também encontrou um dano digital prolongado. Em 43% dos casos, as mulheres tiveram seus dados revelados pela audiência, incluindo localização, nome e perfil na rede social.
Em julho, o Instagram anunciou que removeria os vídeos que filmam mulheres sem consentimento, mas ainda é possível achá-los na rede social.
Além disso, afirmam os pesquisadores, 13% das filmagens focam em detalhes dos corpos das mulheres e cerca de 14% mostram mulheres racializadas, que recebem comentários racistas sobre seus corpos.
Segundo o artigo, a tecnologia está avançando em “velocidade vertiginosa” e os reguladores estão sempre um passo atrás, incapazes de agir após o dano já estar nas ruas.
Procurada, a empresa diz, em nota, que as pessoas usam os óculos inteligentes porque eles são úteis para funções como ouvir música, fazer traduções simultâneas ou ligações com as mãos livres. Segundo a Meta, a confiança de quem usa o dispositivo e das pessoas ao redor é levada em conta desde a concepção dos óculos.
A primeira geração do produto foi lançada em 2023 nos Estados Unidos. No Brasil, a Anatel autorizou a comercialização da segunda geração em setembro de 2025 custando cerca de R$ 3.000.
Movimentos feministas brasileiros se juntaram neste ano aos americanos para alertar sobre os perigos em relação aos direitos das mulheres.
Em Londres, anúncios satíricos têm sido exibidos em pontos de ônibus e estações de metrô como forma de protesto contra os óculos. O grupo ativista “Todos Odeiam Elon” promove uma campanha contra o dispositivo, alegando riscos à privacidade e o risco de gravações não consensuais.
No Brasil, a Girl Up, que reúne cerca de 80 coletivos feministas pelo país, com aproximadamente 800 meninas, começou a se mobilizar para protestar contra os óculos. As campanhas são feitas em conjunto com a organização de direitos digitais Ctrl+Z.
As ativistas citam também um caso brasileiro. Em Salvador, uma paciente denunciou um ginecologista que usava os óculos inteligentes durante a consulta. O médico foi preso em flagrante, mas solto após a investigação descartar qualquer atitude criminosa e confirmar que ele não havia filmado a paciente.
O problema é que a arquitetura do produto por si só projeta um mundo sem direito ao consentimento sobre o uso da própria imagem, diz Daniela da Silva, ex-gerente de políticas públicas do WhatsApp no Brasil e cofundadora da Ctrl+Z. Segundo ela, isso afeta, de maneira desproporcional, mulheres e crianças.
Os pesquisadores da Universidade de Sydney também usam esse argumento para diferenciar a possibilidade de gravações pelo celular e pelos óculos. Segundo o estudo, os óculos inteligentes permitem gravações em primeira pessoa sem os gestos deliberados que sinalizam o uso de uma câmera.
Isso, afirma o documento, cria uma condição de não consentimento estrutural, pois os sinais de gravação (como pequenas luzes brancas) são discretos e facilmente ocultáveis, impossibilitando para quem está sendo filmado saber que sua imagem está sendo capturada.
A Meta tem investido em bloquear a filmagem quando o usuário desativar as luzes brancas, mas fóruns online ainda ensinam meios de burlar a proibição.
Desde seu lançamento, os acessórios de alta tecnologia ganharam tração por suas funcionalidades. Por exemplo, eles se tornaram uma ajuda para pessoas com deficiência visual ao fazer descrições de cenários ao redor.
Daniela afirma, porém, que o ônus de sustentar os benefícios da tecnologia não deve recair sobre as mulheres.
Letícia Bahia, psicóloga e codiretora executiva do Girl Up, conta que já recebeu relatos de adolescentes e meninas jovens que tiveram imagens publicadas em perfis de redes sociais sem saber como foram parar ali. “Uma sensação de descontrole mesmo. Você nem sabe direito de onde veio.”
No Brasil, leis como a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), o Código Civil e a Constituição protegem dados pessoais, imagem, intimidade e privacidade. Um decreto publicado em maio também prevê responsabilização de plataformas por falhas sistêmicas na remoção de conteúdos que configurem crimes contra mulheres.
Para Daniela da Silva, o arcabouço legal para proteger as vítimas já existe, mas falta fiscalização. Procurada pela Folha, a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) disse que suas áreas técnicas não têm, no momento, estudos ou posicionamento institucional específico sobre o uso dos óculos.