Pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mostra que estereótipos raciais limitam a autoestima de mulheres negras desde a infância
Os estereótipos raciais atribuídos às mulheres negras no Brasil não afetam apenas a forma como elas são vistas socialmente, mas também influenciam diretamente a construção de suas identidades. Essa é uma das conclusões da dissertação de mestrado O que nós se vê: estereótipos raciais e a construção da subjetividade das mulheres negras brasileiras.
O trabalho foi realizado pela pesquisadora Valerya Elizabeth Borges da Silva, com orientação da professora Maria Angélica Souza Ribeiro, no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e outras Legitimidades, vinculado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
A pesquisa mostra que o racismo não atua apenas em episódios explícitos de discriminação, mas também de maneira cotidiana e estrutural, ao analisar os rótulos que representam mulheres negras na sociedade. Conforme a pesquisadora, esses estereótipos reduzem experiências complexas e dificultam o reconhecimento da individualidade dessas mulheres, por meio de imagens historicamente associadas às mulheres negras que atravessam gerações e permanecem presentes no imaginário social em figuras como a mucama, a mãe preta, a empregada doméstica e a negra guerreira. “A força dessas imagens reside em revelar que o racismo opera antes mesmo de qualquer ação. Ele se manifesta no modo como o corpo é lido, interpretado e situado”, diz Valerya.

A dissertação examinou mais de 40 respostas de um questionário voltado a mulheres negras de diferentes idades e trajetórias sociais. O resultado mostra que, desde a infância, meninas negras são apresentadas a essas imagens que limitam suas oportunidades e ditam o modo como elas reagem a diferentes acontecimentos ao longo da vida, distorcendo a visão de si mesmas, além de afetarem sua autoestima e relações afetivas e profissionais. “A nossa autoestima normalmente começa boa; ela começa em casa, começamos sendo amadas e protegidas e deixa de ser boa quando colocamos o pé na rua”, reitera.

Reexistência
Ainda de acordo com a pesquisa, as percepções falhas da individualidade de mulheres negras têm como base o padrão colonial e eurocêntrico de beleza e personalidade. Segundo Valerya, a construção desse padrão contribui para estratégias de embranquecimento da noção de beleza e da superioridade branca. A pesquisadora dialoga com as formulações da ativista e filósofa Lélia Gonzalez, que explica que o padrão proposto internaliza nas mulheres negras o desejo de embranquecer e a rejeição da própria raça e cultura.
Valerya também explica que redes de apoio de mulheres são de extrema importância na construção das suas identidades. “Estar em contato com outras mulheres que sofrem o mesmo fenômeno de desconexão as ajuda a procurar o autoconhecimento e cria um ambiente seguro e confortável para construir a autoestima”, diz.
Para a autora, a parte mais importante do trabalho foi documentar o problema social, entender como as mulheres negras sobrevivem a partir dele e idealizar outros futuros possíveis, além de fortalecer as redes de apoio. Para nomear esse movimento, Valerya utiliza o termo reexistência, que é a capacidade de resistir e ao mesmo tempo reinventar a própria existência diante dos estigmas históricos a que essas mulheres são submetidas. “Imaginar não é luxo nem exercício especulativo. É um gesto político fundamental, condição de possibilidade da própria vida”, finaliza a pesquisadora.