Em entrevista, pesquisadores da Rede de Observatórios da Segurança explicam como a ausência de dados raciais nos registros de violência de gênero mantém mulheres negras invisíveis nas estatísticas oficiais
A ausência de dados raciais nos registros de violência contra mulheres compromete a capacidade do Estado de compreender o alcance do problema e de formular políticas públicas voltadas à prevenção e ao atendimento das vítimas.
A avaliação é de pesquisadores da Rede de Observatórios da Segurança, responsáveis pelo boletim “Elas vivem: a urgência da vida”, lançado em março de 2026.
O levantamento aponta que 86,7% dos casos de violência de gênero monitorados não trazem qualquer registro de raça ou cor das vítimas. Em alguns estados, a lacuna aparece com intensidade ainda maior, como no Maranhão e no Piauí, onde a maioria dos registros também não apresenta esse tipo de informação.
Para os pesquisadores, esse cenário dificulta a leitura das desigualdades que atravessam a violência de gênero no país.
Em entrevista à Alma Preta, a pesquisadora Tayná Boaes afirma que a falta de dados detalhados impede identificar quais mulheres enfrentam maior vulnerabilidade.
Segundo ela, sem informações sobre raça, etnia, identidade de gênero, idade ou território, o planejamento de ações públicas perde precisão e dificulta a definição de prioridades.
“Sem dados concretos, o Estado deixa de construir políticas específicas e situadas”, explica.
A pesquisadora aponta que a produção de estatísticas também influencia o planejamento do orçamento público. Quando a violência não aparece de forma detalhada nos registros, tende a ocupar menos espaço nas agendas institucionais e recebe menos recursos para prevenção e proteção.
Os dados reunidos pela Rede resultam de monitoramento diário de notícias sobre violência e segurança pública em nove estados: Amazonas (AM), Bahia (BA), Ceará (CE), Maranhão (MA), Pará (PA), Pernambuco (PE), Piauí (PI), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP). As informações são cruzadas entre diferentes veículos antes de serem registradas em banco de dados.
Boaes explica que, quando a informação racial não aparece nas reportagens, o caso permanece classificado como “não informado”.
A metodologia adotada pela Rede impede que pesquisadores atribuam identidade racial por dedução, mesmo quando fotos, relatos de familiares ou referências territoriais indiquem contextos sociais específicos.
Segundo ela, esses elementos ajudam a compreender a desigualdade na distribuição da violência, mas não substituem o registro formal.
Apagamento racial atravessa imprensa e dados oficiais
O coordenador de pesquisa da Rede, Jonas Pacheco, afirma que a ausência de dados raciais não se restringe à cobertura jornalística. O problema também aparece nos registros institucionais.
De acordo com ele, boletins de ocorrência frequentemente omitem o campo de raça ou não qualificam a informação nos bancos públicos. Como reportagens dependem das autoridades para obter dados, a lacuna institucional se reproduz na divulgação dos casos.
Pacheco relata que algumas secretarias de segurança responderam aos relatórios da Rede e promoveram melhorias pontuais na qualidade das informações. Ainda assim, ele afirma que não há processo amplo de padronização ou qualificação dos dados.
A ausência de recorte racial e étnico afeta a visibilidade de grupos com dinâmicas territoriais próprias de violência. O relatório menciona casos de meninas indígenas vítimas de violência sexual no Amazonas.
Para Boaes, quando o pertencimento étnico não aparece nos registros, as vulnerabilidades dessas populações deixam de integrar o debate público. A pesquisadora afirma que a omissão contribui para reduzir a pressão institucional por políticas de proteção e reforça processos históricos de apagamento.
Ela destaca que compreender a violência exige considerar a intersecção entre gênero, raça, etnia e território. Sem esses dados, a leitura do fenômeno permanece incompleta.