Recy Taylor, a mulher que impulsionou a resistência de outras mulheres negras em 1944

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Taylor será lembrada por sua coragem ao denunciar os seis homens brancos que a estupraram na era das leis de Jim Crow nos Estados Unidos.

(HuffPost Brasil, 08/01/2018 – acesse no site de origem)

Recy Taylor, mulher negra do Alabama que foi a público corajosamente na década de 1940 para denunciar seus agressores brancos, morreu aos 97 anos, em dezembro de 2017. Mas foi citada por Oprah Winfrey no Globo de Ouro 2018.

Recy Taylor foi raptada e estuprada por seis homens brancos em 1944 quando tinha 24 anos

Ao receber a honraria das mãos da atriz Reese Witherspoon, a apresentadora discursou sobre assuntos espinhosos e importantes como a força das mulheres anônimas, liberdade de imprensa, o potencial transformador da representatividade negra e as trajetórias das ativistas negras Recy Taylor (1912-2017) e Rosa Parks (1913-2005).

À época de sua morte, seu irmão, Robert Corbitt, contou à NBC News que Taylor morreu dormindo na casa de repouso onde vivia em sua cidade natal de Abbeville. Taylor deixou seu irmão, Corbitt, duas irmãs, uma neta e vários bisnetos. Ela teria completado 98 anos no domingo. Sua filha Joyce Lee Taylor morreu tragicamente em um acidente de carro em 1967.

Corbitt disse à NBC que sua irmã foi “uma mulher corajosa e lutadora” que fez questão de fazer sua voz e sua história serem ouvidas.

Sua história chegou ao noticiário nacional em 1944, quando ela foi sequestrada sob a mira de uma arma e estuprada brutalmente por seis homens brancos. Taylor tinha 24 anos na época, era casada e tinha uma filha pequena. Ela estava voltando para casa a pé depois de ir à igreja. Os homens a sequestraram, a violentaram por várias horas e depois a deixaram jogada ao lado da estrada, com os olhos vendados.

“Depois que fizeram tudo que queriam comigo, me machucaram, eles disseram: ‘Vamos levar você de volta. Vamos deixar você na rua. Mas, se você contar para alguém, vamos lhe matar'”, Taylor contou à NPR (Rádio Pública Nacional) em 2011.

Apesar das ameaças de morte, Taylor e sua família procuraram a polícia imediatamente.

Sete homens sequestraram Taylor naquela noite: Hugo Wilson, Billy Howerton, Herbert Lovett, Luther Lee, Robert Gamble, Joe Culpepper e Dillard York. Seis dos homens a estupraram (mas apenas um deles confessou o estupro). Mesmo assim, um júri formado exclusivamente por homens brancos decidiu não indiciar os acusados.

Um mês após o ataque, seis dos homens disseram que estavam dispostos a pagar US$100 dólares cada um a Taylor se ela “esquecesse” o estupro coletivo. Ela recusou o dinheiro.

O caso dela foi retomado mais tarde pela Associação Nacional para o Avanço das Pessoas de Cor (NAACP). A ativista Rosa Parks, que na época era defensora das mulheres negras vítimas de violência sexual, foi escolhida para ser a investigadora principal do caso de Recy Taylor. A própria Parks tinha sido vítima de uma tentativa de estupro cometida por um homem branco em 1931 e iniciara sua carreira como ativista contra o estupro. Ela investigou o caso de Recy Taylor 12 anos do incidente icônico em que ela se recusou a ceder seu assento num ônibus em Montgomery, Alabama, a um passageiro branco.

Parks obteve suas impressões digitais tomadas em 1956 depois que ela se recusou a se mover para a parte de trás de um ônibus para acomodar um passageiro branco. Doze anos antes, ela foi designada pela NAACP como investigadora principal no caso de violação de Recy Taylor em 1944.

Depois que Taylor denunciou à polícia a agressão da qual foi vítima, justiceiros jogaram coquetéis Molotov contra sua casa. Ela e seus familiares receberam dezenas de ameaças de morte mandadas por vizinhos brancos em sua comunidade. Com a ajuda de Rosa Parks foi aberta uma segunda investigação sobre os seis estupradores, mas outro júri composto exclusivamente por homens brancos se negou novamente a indiciá-los.

Em 2011 o Legislativo do Alabama pediu desculpas formais a Recy Taylor por não ter levado seus agressores à justiça.

Durante a era das leis de Jim Crow (que institucionalizaram a segregação racial nos EUA), eram comuns as agressões sexuais de homens brancos contra mulheres negras. Faziam parte dos muitos ataques brutais lançados contra pessoas negras nessa época.

“O estupro de Recy Taylor não foi um caso excepcional. Ele se enquadrou numa campanha de terror contínuo em que o estupro de mulheres era um risco tão grande quanto o linchamento de homens”, escreveu Soraya Nadia McDonald, do site The Undefeated. “A história das mulheres negras como vítimas do terror branco tem sido em grande medida ignorada, silenciada e minimizada, apesar da busca delas por segurança física ter alimentado sua luta pelos direitos civis desde a década de 1890.”

A história de Recy Taylor voltou às manchetes recentemente com o lançamento em 8 de dezembro de um documentário sobre o que lhe aconteceu, intituladoThe Rape of Recy Taylor (O estupro de Recy Taylor). Assista ao trailer:

A história dela também foi destacada no livro At The Dark End Of The Street: Black Women, Rape And Resistance ― A New History Of The Civil Rights Movement From Rosa Parks To The Rise of Black Power (2010), de Danielle L. McGuire. Boa parte do que sabemos sobre Taylor vem das pesquisas que McGuire fez ao longo de anos e apresentou em seu livro.

A diretora Nancy Buirski (diretora de Loving, filme de 2016 sobre o casal inter-racial Richard e Mildred Loving), falou ao jornal britânico The Guardian sobre a importância de a história de Recy Taylor ser lembrada e divulgada.

“Este é um momento na trajetória deste país em que é tão importante reconhecermos Recy Taylor”, disse Buirski. “Com mulheres sendo destacadas na capa da revista ‘Time’ como parte da campanha #MeToo, quero chamar a atenção para as mulheres negras que foram a público fazer suas denúncias numa época em suas vidas corriam perigo grave.”

Quando soube do falecimento de Taylor na quinta-feira, Buirski voltou a falar à NBC sobre a importância histórica de mulheres negras como ela.

“Foram Recy Taylor e outras raras mulheres negras como ela as primeiras a elevar suas vozes no momento em que o perigo era maior”, disse a diretora. “Foram as vozes dessas mulheres fortes dos anos 1940 e 1950 e seus esforços para retomar o controle de seus próprios corpos que levaram ao boicote dos ônibus em Montgomery e outros movimentos que o seguiram, notadamente o movimento ao qual estamos assistindo hoje.”

Alanna Vagianos

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