‘Serei a próxima’: casos de violência contra mulher criam onda de ansiedade

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Foto: Freepik

24 de março, 2026 UOL Por Fabíola Perez

Notícias de feminicídios que chegam aos celulares das mulheres todos os dias têm gerado crises de ansiedade, revolta e pavor — especialmente em quem já foi vítima de violência. Os relatos chegam aos consultórios de psicólogos, e o “efeito gatilho” sufoca a saúde mental de quem já luta para superar traumas.

‘Notícia me deu desespero’

Pacientes levam às sessões de terapia seus sentimentos em relação a casos de violência contra mulheres. Na Sou Pagu, rede nacional de atendimento psicológico a mulheres em situação de violência, os relatos de ansiedade em relação às notícias que circulam têm se tornado mais comuns desde o fim do ano passado, diz Mayhumi Kitagawa, psicóloga e fundadora da rede.

Engenheira agrônoma de Florianópolis levou o caso do feminicídio de Catarina Karsten às consultas. Nayara*, 36, faz acompanhamento psicológico na rede Sou Pagu há três anos. No fim do ano passado, o feminicídio da estudante universitária que fazia uma trilha foi tema da sessão de terapia de Nayara algumas vezes.

“No fim de semana em que ela foi morta, eu também estava acampando com meus amigos. Quando a internet voltou, peguei o celular e a primeira coisa que vi foi o rosto dela. É muito duro ser lembrada de que se é mulher com a pior notícia que poderia existir. Me chocou muito, senti desespero, me senti vulnerável, como se não fosse dona da minha vida.”

Nayara diz que desde criança entendeu “o que é ser mulher” — com assédios que sofria na rua. Ela viveu um relacionamento abusivo em que o ex praticava violência psicológica. Segundo Nayara, ele tinha crises de ciúmes, comportamento que se agravou quando ela fez um intercâmbio. “Mandava mensagens querendo saber onde eu estava, e era tão bom com as palavras que eu me sentia louca e cúmplice da loucura dele”, diz. “Comecei a sonhar que ele me perseguia e me matava.” Por isso, tem a sensação de que precisa estar o tempo todo em alerta.

“Entender que para o mundo sou vista como uma presa é desesperador.”
— Nayara

Reações diante do perigo

Casos de grande repercussão produzem impactos na saúde mental das mulheres, aponta psicóloga especialista em gênero e trauma. “A exposição repetida à cobertura midiática pode gerar níveis de estresse comparáveis ou até superiores aos de pessoas diretamente expostas ao evento”, afirma Arielle Sagrillo, doutora em psicologia pela Universidade de Kent, na Inglaterra.

“Nos casos de mulheres que acessam esses conteúdos e já foram vítimas de violência doméstica, o efeito tende a ser mais intenso. Há uma identificação direta com a vítima. Existe uma memória prévia de ameaça e o evento noticiado confirma a possibilidade de repetição.”
— Arielle Sagrillo

Trauma mobiliza diversos sistemas cerebrais, segundo a psicóloga. Entre eles, o sistema de ameaça, responsável pela ansiedade e pelo medo, o sistema de perda, que corresponde a tristeza e melancolia, o moral ou social, que mobiliza a raiva e a indignação. Imaginar que é possível ser “a próxima vítima” não é exagero, avalia Sagrillo. O trauma rompe com a sensação de segurança. “O cérebro opera em modo sobrevivência, e essa frase sinaliza uma antecipação do risco.”

As reações vêm de diferentes grupos de mulheres. “As mães de meninos começam a se questionar sobre como estão educando os filhos desde pequenos”, diz Mayhumi. “Tem as mulheres que não conseguiam nomear a violência que sofriam e ao verem um caso conseguem”, afirma. “E professoras preocupadas com a forma violenta como meninos se relacionam com meninas.”

‘Vejo os casos e penso: pode acontecer comigo’

“Quando vejo esses casos, penso que pode acontecer comigo. A sensação é de que serei a próxima”. A funcionária pública Renata*, 38, também faz acompanhamento psicológico com a equipe da Sou Pagu uma vez por semana. Ela voltou à terapia em fevereiro após a irmã ter sofrido um estupro. “Senti que precisava apoiá-la.”

O caso recente de uma menina de 12 anos vítima de estupro coletivo no Rio lhe causou grande tristeza. “Essas notícias acabam com a gente, tive a sensação de morte”, diz. “Me deixou melancólica, a gente sente que tem que ser forte por nós mesmas e pelas outras.”

Nos atendimentos da psicóloga Elizabeth Garcez, 31, pacientes citam sintomas como queda de cabelo, ansiedade e insônia quando têm contato com casos de violência. Ela trabalha no atendimento de mulheres vítimas de violência no Mapa do Acolhimento. A rede de enfrentamento à violência doméstica é formada por 16 mil psicólogos.

Antes de se formar em psicologia, Elizabeth viveu um relacionamento abusivo por cinco anos. “Começamos a namorar quando eu tinha 16 e aos poucos ele passou a ter domínio completo sobre minha vida. Ele tinha contato com sócios da empresa onde eu trabalhava, que passavam informações sobre minha vida mesmo após a separação.” O ex também divulgou conteúdo íntimo dela na internet e a coagiu a fazer uma tatuagem com seu nome.

“Quando vi o caso das vítimas do [Thiago] Brennand, associei ao que tinha vivido. Me senti no mesmo lugar das vítimas, no sentido de ter o corpo marcado como se fosse propriedade do agressor. Não tem um dia sequer que eu não sinta revolta. Mesmo depois de ter a tatuagem coberta, ainda sinto as consequências.
— Elizabeth Garcez

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