Denunciar é fundamental, mas esse passo pode ser dado coletivamente, oferecendo mais segurança para que mulheres evangélicas quebrem os ciclos de violência
Eu sou uma mulher negra, mãe e evangélica, e a partir de agora, tenho a honra de compartilhar algumas reflexões com vocês, como integrante do time de colunistas da Revista AzMina. O meu lugar de fala neste espaço feminista é de uma mulher que há 20 anos aceitou a palavra do feminismo como regra de fé e prática (risos). Há dez anos, passei a me posicionar como ativista por justiça reprodutiva e contra a intolerância religiosa, por compreender a ameaça que o fundamentalismo religioso presente nas igrejas evangélicas representa para nossa democracia e liberdades laicas.
Como uma mulher nascida e criada em uma igreja evangélica de periferia, conheço o peso que esse espaço comunitário tem na vida de milhões de brasileiras. E acredito que se faz necessário repensar nossas estratégias de comunicação com essas mulheres que não estão apenas na base das igrejas, mas estão, também, na base da sociedade.
A expressiva participação da famigerada Bancada Evangélica em processos antidemocráticos fez com que muito se falasse sobre políticos evangélicos, mas pouco se dialogasse com as pessoas evangélicas. Um erro estratégico para nós, comunicadoras de direitos humanos e defensoras da democracia, que pode e deve ser corrigido.
Pensando que a diferença entre o veneno e o antídoto pode ser o tamanho da dose, tenho me dedicado a buscar uma outra forma de estabelecer essa comunicação com as mulheres religiosas. A ideia é dialogar com pessoas evangélicas compreendendo que a igreja é um espaço importante para as suas vidas.
É preciso entender as contradições
É importante entender que igrejas evangélicas são cheias de contradições: ao passo que são lugares que acolhem as pessoas em suas necessidades e vulnerabilidades, suas práticas também podem alimentar a estrutura misógina, racista e exploratória em que estamos inseridas no Ocidente. E apesar dessa contradição, as pessoas permanecem neste espaço porque no cálculo cotidiano da vida, pertencer a esse espaço é um benefício pelo qual valeria a pena relativizar as violências às quais estão submetidas.
Ao mesmo tempo em que se sentem acolhidas, elas se mantêm em situação de violência e opressão: permanecendo em casamentos abusivos, não aceitando filhos LGBTQIAPN+ e permitindo que suas filhas violadas sejam mães, mesmo que sejam crianças. Todas essas atitudes parecem compensadas pela sensação de segurança que a igreja oferece, principalmente diante da sensação de insegurança fortemente explorada por setores reacionários da sociedade.
Assim, quando pensamos especificamente em mulheres evangélicas, não podemos desconsiderar que é na igreja que essas mulheres compartilham suas angústias, criam vínculos comunitários e mantêm redes de cuidado, visitando umas às outras, ajudando com suporte emocional e material. É nesse espaço que se sentem humanas.
Discursos moralizantes negram direitos fundamentais
E é exatamente com essa sensação de segurança que estamos lidando quando apontamos para essas mulheres as diversas violências que estão presentes na igreja. Alguns discursos que dizem defender a família, a fé e a moralidade são, na verdade, uma maneira muito eficaz de negar direitos fundamentais como autodeterminação sexual e reprodutiva, independência financeira e possibilidade de escolhas sobre suas vidas.
A moral cristã é um veneno para a vida e liberdade das mulheres, principalmente quando homens querem legislar sobre seus corpos, explorar seu trabalho não remunerado e tratá-las como seres humanos de segunda categoria com justificativa religiosa. Mas eu acredito que a fé e a prática comunitária de mulheres evangélicas podem ser um antídoto para esse veneno. E é sobre isso que pretendo falar com as leitoras desta coluna.
A grande questão é como acessamos essas mulheres e dialogamos com elas sobre o que nós acreditamos ser justo e digno para todas nós? A minha aposta é que temos que vincular ao programa dos direitos humanos a ideia de defesa da família. Sendo a violência doméstica a pauta que pode nos aproximar desse grupo.
Você pode até pensar: “mas as mulheres conservadoras também têm falado desse tema e estão roubando a nossa pauta feminista”. De fato, as igrejas evangélicas não podem mais ignorar o que pesquisas têm demonstrado: proporcionalmente, as mulheres evangélicas são as que mais sofrem violência de gênero. O que vemos é, na verdade, uma adaptação do discurso conservador à nova sensibilidade social ao tema da violência doméstica.
Mais de 40% das evangélicas já sofreram violência
A pesquisa Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicou que 42,7% das mulheres evangélicas sofreram algum tipo de violência de gênero de parceiros ou ex-parceiros. Quase metade delas experimentou algum tipo de controle excessivo por parte de parceiros íntimos. A pesquisa também apontou que 47,4% destas mulheres não fizeram nada após identificarem a violência, e que 6% procuraram orientação religiosa.
Ana Clara de Arruda Nunes e Tatiana Machiavelli Carmo Souza abordaram o tema no livro “Análise das vivências de violência doméstica em mulheres evangélicas e pentecostais e neopentecostais”. Elas constataram que o discurso religioso que valoriza o perdão, a submissão e o cuidado como atributos femininos pode causar a relativização da violência e, assim, justificar que mulheres se mantenham nesses ciclos de violação.
Então, pastoras evangélicas que acompanham cotidianamente a realidade dessas mulheres necessitam se posicionar, uma vez que não é mais possível silenciar sobre esse tema.
Contudo, existe uma diferença fundamental entre o que elas estão dizendo e o que nós temos a dizer. Muito dificilmente ouviremos falar da Lei Maria da Penha em espaços conservadores, nem da tipificação do feminicídio ou das propostas a respeito de uma política nacional do cuidado, muito menos sobre prevenção e condições efetivas para sair do ciclo de violência.
Afinal, incentivar a denúncia de um agressor é um passo, mas é pouco sem estabelecer protocolos de prevenção dentro das igrejas e comunidades de fé. Denunciar a violência como um erro moral do agressor não é igual a combater uma estrutura que faz com que homens se sintam no direito de violentar mulheres. E pedir para que uma mulher saia de um relacionamento violento não é a mesma coisa que dar suporte real para que isso aconteça, com políticas de autonomia financeira e de garantia de moradia.