Pesquisa do HCFMUSP mostra que mulheres vítimas de violência apresentam quadros clínicos mais complexos na menopausa, com dores crônicas, disfunções sexuais e sintomas psicossomáticos que o sistema de saúde ainda não está preparado para identificar e tratar.
Aos 59 anos, Imilda Ferreira Lima transpira ao conversar com a reportagem. As ondas de quentura vêm sem aviso, fazendo o rosto da mestre Griot – guardiã da memória e tradição oral africana – corar e o suor escorrer pela face. São os fogachos, sensações súbitas e intensas de calor no corpo que ela conhece bem: convive com eles desde os 32 anos, quando o climatério – período de transição entre a vida reprodutiva e a não reprodutiva – chegou de forma precoce.
O corpo de Imilda simplesmente desligou. Não foi ao acaso. “Os médicos foram claros comigo: tudo isso tem a ver com o estresse que eu passei [em um relacionamento abusivo]. A violência psicológica vai minando sua força, sua resistência, vai matando aos poucos, até que seu corpo adoece de verdade”, conta enquanto enxuga o rosto.
Um estudo recente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) revelou que o que aconteceu com Imilda não é exceção: a violência doméstica afeta profundamente a saúde de mulheres no climatério. Conduzida pela psicóloga e mestranda Débora Krakauer, a pesquisa mostra como os episódios de agressão física, sexual ou psicológica por parceiros íntimos estão relacionados a doenças ginecológicas, disfunções sexuais, transtornos psicológicos e até comorbidades crônicas, como hipertensão e diabetes.
Segundo dados do Instituto DataSenado presentes no Mapa Nacional da Violência de Gênero, em 2025, estima-se que 23.632.380 mulheres – 27% dessa parcela da população – declararam já terem sofrido violência doméstica e familiar. Em 62% dos casos, o marido ou companheiro foi o agressor. O mapa, resultado de uma parceria da Gênero e Número, do Senado Federal e do Instituto Natura, é atualizado diversas vezes ao ano, com números de diversas bases de dados.
A alta incidência da violência de gênero no Brasil, aliada às descobertas da pesquisa de Débora Krakauer, evidenciam os abusos como uma questão que não deve ser restrita ao âmbito jurídico e criminal. E sim, tratada, também como . “uma questão de saúde pública”, afirma a psicóloga.
“A violência doméstica não causa apenas um hematoma, uma fratura, um olho roxo. Ela não vai terminar no momento em que termina os maus-tratos físicos. Ela se perpetua no dia a dia com o estresse psicológico”, explica Joele Leripio, ginecologista especialista em menopausa, pós-graduada em fisiologia do envelhecimento.
Estresse esse capaz de “alterar vias metabólicas hormonais, podendo piorar a pressão arterial e desenvolver diabetes”, entre outros problemas de saúde, pontua a médica. Sem essa compreensão, o atendimento ginecológico permanece fragmentado. “O sistema tende a tratar apenas sintomas isolados, sem investigar suas causas, o que leva ao subdiagnóstico da violência”, defende Débora.
Décadas de perseguição e controle
Imilda é a caçula de oito irmãos, filha de um pai desaparecido político e de uma mãe costureira e cozinheira que lutava sozinha para sustentar a prole. Seu adoecimento começou muito antes da menopausa precoce, quando deixou Serra de Sossela, no Sul do Brasil, e mudou-se com a família para Poá, na região metropolitana de São Paulo, aos 13 anos.
No mesmo período, conheceu o namorado Gilberto* que, desde o início, apresentava sinais de controle. O primeiro foi quando pediu para namorar Imilda à mãe dela, sem ouvir o que ela própria queria ou pensava. Em outro episódio, presenteou Imilda com uma saia e depois pediu à sogra que mentisse que a peça tinha manchado na lavagem. A justificativa do rapaz: “Suas pernas são muito bonitas, e todo mundo olha para você”. Quando a jovem tentava terminar, a mãe pressionava: ele era “homem para casar”.
A situação se tornou insustentável quando Imilda o flagrou se envolvendo com sua mãe. O término definitivo, contudo, não representou paz. Ele a perseguiu durante décadas, aparecendo em lugares onde ela estava com os filhos, sempre observando. Fez isso até dias antes de morrer, há três anos.
O estresse crônico, a vigilância e a ameaça constantes fizeram o corpo de Imilda colapsar. Aos 30 anos, tinha hemorragias, dores e sintomas até então inexplicáveis.
Percorreu diversos especialistas até chegar ao veredicto: menopausa aos 32 anos. “Mas aí já tinham passado quase 10 anos de sintomas. E eu fiquei com todas as sequelas por causa do diagnóstico tardio.” Uma delas foi a fibromialgia, uma síndrome caracterizada por dor crônica generalizada.
Foi um reumatologista quem finalmente conectou os pontos. “Ele falou: ‘A senhora tem noção de que tudo isso tem a ver com o estresse que passou?’. A menopausa precoce, a fibromialgia, tudo tem relação com o estresse emocional crônico.”
Foi quando caiu a ficha: mesmo com a morte do agressor, a violência persistia inscrita no corpo dela.
Quando o trauma se manifesta no corpo
O que aconteceu com Imilda tem nome: psicossomática, uma ciência que estuda como fatores psicológicos (emoções, estresse, traumas) afetam a saúde física. A pesquisa do HCFMUSP, intitulada “Sexualidade e saúde mental da mulher climatérica vítima de violência doméstica”, investigou exatamente essa relação.
O estudo avaliou 100 mulheres entre 40 e 65 anos – metade vítimas de agressões em diferentes momentos de vida, metade sem esse histórico – e revelou diferenças alarmantes.
Mulheres que sofreram violência apresentaram taxas mais altas de endometriose (28% contra 10%), infecções ginecológicas (32% contra 10%), incontinência urinária (58% contra 26%) e dor pélvica – esta última afetava 82% das vítimas, contra 26% do grupo que não sofreu abusos.
Também foram constatadas diferenças significativas quanto às queixas de vaginismo (42% contra 6%), que é “uma alteração da musculatura do assoalho pélvico, caracterizada por contração involuntária dos músculos vaginais”, explica Joele. O mesmo acontece com a dispareunia (46% contra 22%) – dor genital persistente ou recorrente durante ou após a relação sexual – e o desconforto sexual (76% contra 46%).
“Hoje, se sabe que há uma forte conexão entre traumas de violência doméstica e dor na relação sexual, dor e desconforto do assoalho pélvico”, afirma a ginecologista.
“O trauma pode manter o corpo em estado constante de alerta, levando à contração involuntária da musculatura, hipersensibilidade e dor. No climatério, a queda hormonal pode intensificar esses sintomas, somando fatores físicos da falta hormonal aos emocionais.”
Doenças crônicas
A servidora pública Renata* é prova de que os impactos da violência na saúde podem ultrapassar a esfera ginecológica. À reportagem, ela enumera parte dos diagnósticos que acumulou: diabetes, hipertensão, endometriose, ovários policísticos, fibromialgia, depressão, entre outros.
Tratava cada um deles com um médico diferente. Foi já perto dos 50 anos que sua psicóloga mencionou uma possível conexão com as violências que sofreu.
Vítima de abuso sexual dos 7 aos 15 anos, Renata desenvolveu depressão ainda na adolescência. Entrou no climatério aos 47, durante a pandemia de covid-19, quando também foi diagnosticada com fibromialgia, “uma dor nas pernas que parece que você está pisando em brasa”, descreve.
Toda a situação era uma bomba emocional: seu corpo passava por mudanças, seu convívio social tinha restrições severas e, para completar, seu então marido a constrangia por ter engordado 17 kg. “A violência psicológica foi muito grande. Ele sempre foi gordofóbico”, conta.
Com o passar dos dias, “eu ia piorando de todas essas doenças, sentia muito calor, um desânimo profundo e muita dor no baixo ventre”, o que, além de causar desconfortos intensos durante o sexo, a impedia de sentir prazer.
O que viveu Renata apareceu no relato de várias mulheres que integraram a pesquisa conduzida por Débora: casos de diabetes foram nove vezes mais comuns entre as vítimas (18% contra 2%), e os de hipertensão arterial, quase o dobro (54% contra 32%).
“Aí entra a chave da psicossomática para explicar por que isso acontece. São mulheres que têm mais risco cardiovascular, de diabetes, de pressão alta, que tomam mais medicação psiquiátrica, mas são mulheres que têm muito mais queixas ginecológicas do que outras”, sintetiza Débora.