Cabe à gente não se render, apoiar as vítimas, denunciar, enxergar a violência dos nossos tempos como ela é
Sou dos tempos do Orkut. Quando esse embrião das redes sociais surgiu, eu apresentava o jornal local, e criaram uma comunidade chamada “Eu amo a Ana Paula do RJTV”. Eram cerca de 200 pessoas, e fiquei muito lisonjeada. Alguns dias depois deparo com outra comunidade, “Eu odeio a Ana Paula do RJTV”. Duas pessoas participavam. Duas. E adivinha qual das comunidades virou assunto na terapia? Foi meu primeiro contato com o ódio público e sua capacidade de nos mobilizar.
Naquela época, jamais poderia imaginar a proporção a que chegariam os ataques distribuídos pelas redes sociais. A ONU Mulheres escolheu a violência digital como tema deste ano. Produziu um relatório tratando especificamente dos ataques a jornalistas, ativistas, comunicadoras em geral. São mulheres que postam opiniões, análises, se expõem, participam do debate público. Elas relatam ser alvo de importunação sexual, montagens de nudes, compartilhamento não autorizado de imagens pessoais e ofensas machistas. Nessa terra de ninguém que ainda é a internet, os ataques a mulheres ganham contornos específicos, quase sempre ligados à aparência ou à sexualidade.
Mulheres públicas são vítimas preferenciais, mas não as únicas. Basta postar para correr o risco de ser atacada pelo que se é. Nem precisa ser nada polêmico, pode ser uma simples selfie ou até foto em família. Se tiver mais de 40 anos, é criticada pela idade. Dependendo do peso, recebe ofensas gordofóbicas ou é chamada de anoréxica. Se fez procedimentos estéticos, nossa, está toda artificial e repuxada. Se não fez, é desleixada e está envelhecendo mal. A liberdade que sentem para atacar a aparência de uma mulher é espantosa. Entre os agressores, estão homens e mesmo mulheres que se escondem em perfis fake, mas também aqueles que ostentam beleza duvidosa em suas próprias fotos de perfil. Lembro de um antigo comercial de TV em que um sujeito enorme, de bombacha e chimarrão na praia, avaliava mulheres de biquíni para saber quais tomavam um chá dito emagrecedor. Com a internet, essa objetificação do corpo feminino está ainda mais disseminada.
E piora muito quando entra o racismo. O Instituto Minas Programam, que oferece treinamento em programação de dados e no combate à violência de gênero facilitada pelas tecnologias, colheu depoimentos de mulheres negras. Ana, de 35 anos, postou fotos artísticas de uma nudez velada para defender a autoestima de mulheres gordas. O celular dela travou com 4 mil comentários, incluindo ameaças de estupro. Natalia, de 72 anos, economista aposentada, entrou num debate no Facebook sobre criação de filhos. Recebeu mensagens dizendo que a opinião dela não deveria nem ser levada em consideração porque a aparência dela era horrível — e, na idade que tinha, não deveria mais nem fazer comentários em público.
Lucia, de 39 anos, postou sobre faculdade tardia na área de tecnologia e recebeu ofensas raciais, mensagens pregando que ela deveria se automutilar, ameaças de morte e uma outra especificamente abjeta dizendo que ela seria “caçada”, como se não fosse humana. Além de totalmente desproporcionais, os ataques nem têm qualquer conexão com o post original. Depois de um período registrando na delegacia duas queixas-crime por semana, Lucia decidiu sair das redes sociais. O que nos leva de volta à pesquisa da ONU, em que 41% das mulheres disseram se autocensurar antes de postar, preocupadas em evitar a violência on-line.
Na semana passada, uma jovem de 21 anos morreu ao ser lançada sem corda num salto de uma ponte, vendido por um grupo absolutamente irresponsável como se fosse aventura. Mesmo diante de uma tragédia chocante como essa, um punhado de homens se sentiu à vontade em ir para a internet compartilhar imagens retiradas do perfil da vítima acompanhadas de comentários impublicáveis de cunho sexual. A psicóloga forense e pesquisadora sobre violência de gênero Arielle Sagrillo faz uma análise certeira sobre como nem a morte interrompe a apropriação dos corpos das mulheres. Ela ressalta que esses homens e suas piadas sexualizadas com a morte de uma jovem não são apenas “sem noção”, mas reverberam uma cultura que olha as mulheres como objeto de desejo antes de enxergá-las como sujeito. Que normaliza invasões de privacidade e transforma imagens íntimas em mercadoria. Pouco importa que a maioria dos autores desses posts revoltantes não virá a cometer nenhum crime físico. A violência virtual também machuca.
Na internet hoje, não se trata mais de ignorar e ser superior ao que dizem e pensam de nós, como bem me ensinou minha avó. Ameaças, incitação à violência, difamação, calúnia, violência psicológica, perseguição são todos crimes previstos em lei praticados ali abertamente. Cabe à gente não se render, apoiar as vítimas, denunciar, enxergar a violência dos nossos tempos como ela é. E ousar ser mulher e existir, também no mundo virtual.