Em entrevista, a socióloga Bruna Camilo explica que fenômenos como as esposas-troféu e o movimento ‘redpill’ são amostras de como o conservadorismo tem se reinventado nas redes sociais, enquanto enriquece big techs e vende aos jovens ideias da extrema direita.
Esposa-troféu, discurso redpill, energia feminina, homem provedor, mulher de valor e tatuagem de borboleta. Nas redes sociais, quase toda semana surge uma nova trend, uma nova discussão, um novo movimento que, a princípio, podem parecer desconexos, mas compartilham de uma mesma base sólida. Assistimos a uma reconfiguração estética e emocional do conservadorismo nas plataformas digitais, tornando-o uma mercadoria, desenhado para lucrar com o público jovem. Apoiado na inércia das big techs contra discursos misóginos, nas desilusões do capitalismo e na ascensão da extrema direita, esse é um produto que tem vendido muito bem.
“O neoconservadorismo deixa de ser apresentado como uma norma rígida e passa a se oferecer como uma escolha individual desejável”, explica Bruna Camilo, socióloga, pesquisadora de gênero e misoginia e doutora em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica, a PUC, de Minas Gerais. Para ela, o que estamos testemunhando não é um simples saudosismo, mas a transformação da ideologia conservadora em um produto cultural altamente circulável e lucrativo.
Ao transformar o machismo em meme e a submissão em estilo de vida, as plataformas digitais criaram um mercado de atenção que monetiza o ressentimento da juventude. De um lado, mulheres exaustas pela desigualdade no mundo de trabalho são cooptadas pela promessa de proteção. Do outro, homens jovens são radicalizados em comunidades que transformam a insegurança masculina em ódio organizado. E é nesse cruzamento que o capitalismo de plataforma e o neoconservadorismo se encontram, utilizando a “astúcia” de transformar pautas políticas em nichos de mercado.
Assim, discursos que claramente inserem os jovens na lógica da extrema direita passam a ser vistos como uma mera escolha individual, como uma tendência em alta a ser seguida.
Em entrevista ao Intercept Brasil, Camilo detalha como o conservadorismo pop das redes se alimenta da frustração moderna, explica por que o feminismo se tornou o inimigo comum necessário para essa narrativa e alerta para os riscos de uma juventude que, em vez de romper com o passado, está procurando no tradicionalismo a sua nova forma de ser cool.
Como você vê o momento atual que vivemos nas redes, com o crescimento de discursos conservadores para jovens, especialmente para jovens mulheres? Quais temas despertam mais preocupação para você?
Bruna Camilo – O que a gente vê hoje não é apenas um retorno do conservadorismo. O conservadorismo sempre existiu, mas há uma reconfiguração estética e emocional do conservadorismo nas redes. O conservadorismo, ou o neoconservadorismo, deixa de ser apresentado como uma norma rígida e passa a se oferecer como uma escolha individual desejável. Ele vem em uma linguagem mais jovial, com memes, com humor, com assuntos que preenchem os interesses do jovem e trazendo muitas promessas.
Para jovens mulheres, pensando em meninas, ele vem com uma promessa de segurança num mundo totalmente caótico. Nesse pânico moral existe uma idealização de relações com papéis bem definidos, resgatando o ser mulher e o ser homem. A gente vê também essa recusa do cansaço associado à autonomia – então trabalho, independência, exposição, isso tudo é algo considerado nocivo.
O que me preocupa é a naturalização da desigualdade, que tem retornado de uma maneira muito forte com o papel das meninas e o papel dos meninos. Me preocupa esse reencantamento com a submissão, que tem voltado muito. A gente tem as esposas-troféu, a volta da masculinidade hegemônica, a volta do que quer ser macho. Tudo isso sempre existiu, mas as redes sociais potencializaram, especialmente com essas várias trends. Acontece uma produção da culpa feminina: a culpa das mulheres de terem avançado em seus direitos, então as mulheres são colocadas como um grande problema para a sociedade.
A gente percebe a volta de um padrão que a gente talvez pensasse que não voltaria mais. Existe aquele pensamento de que, na medida que as gerações vão passando, os jovens são os mais progressistas, pensam de maneira mais aberta do que as gerações anteriores. E não é o que está acontecendo. A gente está percebendo uma juventude extremamente neoconservadora, extremamente ligada à misoginia, extremamente ligada a padrões que a gente imaginou que seriam enterrados junto com décadas anteriores.
Pensando especialmente em movimentos/trends como redpills e as esposas-troféu, podemos dizer que existe um esforço para transformar o tradicionalismo em algo mais pop para os jovens? Quais elementos nos ajudam a apontar isso?
Camilo – Bom, é algo muito impressionante de a gente ver. A gente tem um texto da [filósofa feminista] Nancy Fraser que é o “Feminismo, capitalismo e a astúcia da história”, no qual ela percebe como o capitalismo tem a capacidade de transformar determinadas pautas que são progressistas em algo de consumo para o indivíduo. E o neoconservadorismo também tem conseguido isso. Então existe uma astúcia de transformar o tradicionalismo em algo consumível. Alguns elementos mostram isso: essa estética aspiracional, a rotina perfeita, os corpos perfeitos, as casas incríveis, os casamentos perfeitos. A gente tem até mesmo percebido os jovens se casando cada vez mais cedo, a gente tem visto essa idealização de um casamento. Tudo isso em uma linguagem leve, irônica, com muito meme.
É impressionante como a porta da radicalização é fundamentalmente criada através do meme, das piadas e das trends.
As trends são absurdamente rápidas, todo dia sai uma trend diferente, envolvendo uma associação de autocuidado e de feminilidade. “A energia feminina”, “como ser uma mulher feminina”, “como ser feminina para atrair homens que vão construir famílias com ela”, “como atrair homens com masculinidade, virilidade”. E essa narrativa do pessoal, do “eu escolhi isso e sou muito feliz, então você também pode ser feliz com isso”, é muito ligada ao consumismo. É até um apagamento de dimensões estruturais, de classe, de violência, de desigualdade. Existe uma lógica de “não temos desigualdade”, em que a violência é algo praticamente justificado por conta de alguma insubordinação da mulher, por ela querer uma coisa que um homem não quer. Então, existe um apagamento dessa dimensão estrutural. É quase a transformação de uma ideologia em um produto cultural e altamente circulável. A gente vê cotidianamente o tradicionalismo transitando nas redes sociais como algo legal, algo possível e como a solução da sociedade para a volta da ordem.
Passa um pouco a sensação de que as meninas que se inspiram nesse discurso estão tentando romantizar os problemas. Se o mercado de trabalho é difícil e a desigualdade de gênero é difícil, então eu desisto de lutar por melhoria, pelos meus direitos e deixo meu marido cuidar de tudo. Você sente o mesmo nas suas pesquisas?
Camilo – Exatamente. É um pensamento como: “O homem é o provedor principal e eu sofro com desigualdade salarial? Então o melhor é eu voltar para casa”, exercendo a economia do cuidado integralmente, exercendo a minha maternidade porque eu sou mulher e sou feminina e serei mãe, pois tenho útero. E aí tenta-se reproduzir a vida das esposas-troféu. E você vai ver o vídeo de uma tradwife [termo em inglês usado para identificar a esposa tradicional] e é sempre aquela mulher branca com uma casa gigante, com uma empregada (e provavelmente uma empregada negra), com cinco, quatro filhos e tendo uma vida incrível. Fazendo seu bolo e esperando seu marido chegar. Em qual realidade é possível essa idealização no nosso país ou no mundo? Existe apenas para pessoas milionárias, para mulheres brancas e ricas. E olhe lá! Porque a violência de gênero atravessa todas as classes.
E aí vem a frustração da mulher que não é rica, não é casada com um milionário e consome esse tipo de conteúdo. Ela nunca vai conseguir a vida dessa esposa-troféu ideal e vai se envolver em relacionamentos extremamente abusivos e violentos em prol dessa família perfeita que quer construir.
Podemos apontar algum tipo de ligação entre os discursos redpill e o de esposas-troféu?
Camilo – É uma relação totalmente direta. É inevitável falar da esposa-troféu junto com o movimento redpill, é uma coisa bem profunda. Pode parecer algo totalmente diferente, porque redpills são homens que odeiam mulheres, e as esposas-troféus são mulheres que se dedicam totalmente à família e ao marido – mas elas operam na mesma lógica. É a lógica de um princípio organizador: o homem provedor e a mulher valorizada pela aparência e pelo comportamento. A ideia é de que as relações são um mercado de troca. A mulher é vista como produto, como objeto responsável do cuidar, do fazer filhos, de operar como uma máquina de cuidado para o homem. Isso é a essencialização de gênero, como se papéis de gênero fossem uma questão biológica e não uma construção social. É a rejeição da complexidade das relações contemporâneas – elas surgem como prontas e acabadas. É o tradicional, é a família patriarcal que deve ser retomada.
Entre esses dois movimentos existe uma diferença de posição subjetiva. O redpill responde ao ressentimento masculino daqueles que acreditam que perderam seu lugar na sociedade ou que acreditam que a mulher quer tomar o seu lugar. Já a esposa-troféu responde à angústia feminina, de como ser desejada e como ser protegida. E isso em algum momento se casa. E aí existe um casamento de ideias extremamente perigoso que tem sido reproduzido nas redes sociais e em que muita gente tem confiado.
Algo em comum nesses discursos de conservadorismo pop nas redes é que todos batem no feminismo como forma de validar suas ideias e seu estilo de vida. Por que isso acontece? É uma forma de combater um movimento que cresceu muito pela própria internet na última década?
Camilo – É porque o feminismo desorganiza essa lógica que eles querem organizar. Eles querem reestruturar, querem naturalizar uma hierarquia de gênero. O feminismo chega e desorganiza essa lógica, faz as mulheres questionarem toda essa lógica patriarcal, aí existe toda essa ofensiva.
Mas nisso tem algo superinteressante. O “atacar o feminismo” desses movimentos não é apenas discordar, reflete uma coerência interna. Eles criam um inimigo comum: o feminismo. A partir disso surgem as narrativas como “o feminismo vai fazer com que os meninos nas escolas se tornem gays e as meninas se tornem lésbicas”, “por causa do feminismo vai ter mais abortos”, “por causa do feminismo as mulheres não querem mais se casar”. Você sai de uma noção individual e parte para uma posição totalmente política na defensiva. Então, toda a lógica do discurso de difamar e destruir o feminismo é algo completamente político. É como uma disputa de narrativa entre manter o tradicionalismo, a lógica de gênero ou fazer o questionamento dessas estruturas.
A [historiadora] Joan Scott [natural dos Estados Unidos e especialista em história das mulheres] fala nos seus escritos que gênero é uma categoria primeira de poder. E o que isso quer dizer? Quando você discute gênero, é sobre feminilidade, é sobre masculinidade, é sobre subjetividades na sociedade. E quando você discute isso, você quebra essa lógica patriarcal engessada, estruturada na misoginia. Se você controla feminilidade, masculinidade, subjetividades, você controla a política. Você molda a pessoa. Você não discute sobre direitos sexuais reprodutivos, você não discute sobre aborto, você não discute sobre enfrentamento à violência doméstica… Você mantém aquilo engessado. Então, você consegue conduzir a política como o neoconservadorismo quer. O gênero é uma categoria primeira de poder porque fala totalmente sobre a estrutura da nossa sociedade, fala totalmente sobre política.
O feminismo é uma ameaça para a sociedade porque tira essa lógica engessada, violenta e misógina da sociedade tradicional.
O neoconservadorismo, todas essas trends, essas modas que estão acontecendo entre os jovens são vendidas como uma escolha, como um estilo de vida. É impressionante. O neoconservadorismo virou lifestyle. Como isso virou cool?
Também existe a questão do impulsionamento desses tipos de conteúdo. Há pessoas que lucram divulgando movimentos conservadores para jovens. Quais os riscos disso? Como isso pode ser combatido, na sua visão?
Camilo – A monetização da misoginia e a radicalização nas redes não são só ideias ou discussões de internet. Isso é um mercado de atenção altamente lucrativo. Todo esse mercado da misoginia gera muito lucro. A gente tem diversos projetos de lei, a gente tem agora o ECA Digital [estatuto que procura proteger menores de idade em ambientes digitais] que está em vigor, e a gente espera que ele consiga muito parar todo esse mercado. Mas até lá, o que a gente vai fazer com essa mercantilização da misoginia? Isso é extremamente preocupante. Cotidianamente, meninos recebem conteúdos misóginos, redpill, sem nem ao menos ter demandado. Como fazer com que isso não chegue para os nossos meninos? Como fazer com que as meninas entendam sobre abuso para identificar e denunciar casos? Como os meninos vão aprender sobre consentimento, sendo que o mercado está totalmente voltado para misoginia?
Existe um grande risco da radicalização gradual. Começa com memes, com o humor e escala até conteúdos mais extremos. É gradual a ponto de os jovens não entenderem que aquilo é crime.
Existe um incentivo à produção de insegurança masculina, porque a insegurança engaja. E tem uma coisa que é muito perigosa: a masculinidade ameaçada fica insegura. Um homem inseguro na sua masculinidade é extremamente perigoso. E é nessa lógica que os feminicídios acontecem. É nessa lógica que os homicídios acontecem. Muitas violências giram em torno dessa criação de insegurança da masculinidade.
Existe a criação das comunidades fechadas, da chamada machosfera que está espalhada em toda a internet, por meio de fóruns, de grupos de Telegram, de WhatsApp, às vezes em canais de YouTube. Esses lugares são uma grande porta de entrada para esses homens ressentidos se conhecerem e se fortalecerem.
E existe essa transformação do sofrimento de um jovem, do questionamento de quem é ele, de seu problema de socialização, do seu ressentimento em algo como um nicho de mercado. E é isso que está sendo cooptado nas redes. É isso que a gente tem que identificar, porque está escancarado nas redes sociais. Não é necessária uma ferramenta extremamente elaborada para a gente localizar isso, está caindo nas nossas mãos a todo momento.