‘Eu não sabia que podia questionar’: racismo obstétrico atravessa parto e atinge primeira infância

Mulher em cama de hospital – Foto: Freepik

Foto: Freepik

24 de agosto, 2026 Alma Preta Por Jean Albuquerque

Mulheres negras recebem atendimento desigual desde o pré-natal; estudos relacionam racismo e piores condições de saúde materna e infantil

Aviso de gatilho: A reportagem abaixo contém relato de violência obstétrica. Leia com cuidado.

Quando entrou em trabalho de parto pela primeira vez, aos 20 anos, Evellyn Ribas Rocha não sabia que tinha o direito de perguntar quais medicamentos estavam sendo administrados nem de ter ao seu lado um acompanhante de sua escolha. Sozinha e com dores cada vez mais intensas, percebeu que algo não estava certo, mas não encontrou espaço para fazer perguntas ou ser ouvida.

“Eu senti na pele que alguma coisa não estava certa. Só muitos anos depois consegui nomear aquela experiência como violência obstétrica e refletir sobre ela também a partir do racismo obstétrico”, conta.

Hoje, aos 35 anos, é pedagoga, psicopedagoga, coordenadora de Assistência Social do Coletivo Pais Pretos Presentes e mãe de Isaque Ribas, de 14 anos, e Gustavo Ribas, de 11. O primeiro filho nasceu em 19 de setembro de 2011, em uma maternidade pública. Anos mais tarde, ela voltou a dar à luz pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas encontrou uma assistência diferente.

O contraste entre os dois partos mostra como acesso à informação, escuta e respeito à autonomia podem transformar a experiência do nascimento. Também evidencia que o racismo obstétrico não se limita ao momento do parto — se manifesta desde a forma como mulheres negras são acolhidas e tratadas pelos serviços de saúde e pode deixar consequências para elas e seus filhos.

Uma revisão de 44 estudos conduzida por pesquisadores da Universidade de Cambridge, publicada em 2026 na revista Trends in Endocrinology and Metabolism, identificou três mecanismos associados a piores desfechos gestacionais entre mulheres negras, a maior resistência vascular uteroplacentária, o estresse oxidativo elevado e o aumento de marcadores inflamatórios.

Os autores ressaltam que os achados não apontam para uma diferença biológica determinada pela raça. A hipótese discutida é que a exposição prolongada ao racismo sistêmico, à desigualdade socioeconômica e a outros fatores ambientais impõe uma sobrecarga ao organismo durante a gestação.

“Eu não sabia que podia questionar”

Rocha chegou à maternidade por volta das 9h e foi colocada em uma enfermaria com outras pacientes. Segundo a coordenadora, não permitiram a entrada de acompanhante, embora a Lei nº 11.108 já previa esse direito às usuárias do SUS desde 2005, durante o trabalho de parto, o parto e o pós-parto imediato.

À tarde, as dores se intensificaram. A pedagoga afirma que recebeu uma medicação para acelerar o parto, sem que a equipe explicasse o nome da substância, seus efeitos ou o motivo da intervenção.

“Hoje sei que medicamentos como a ocitocina sintética podem ser usados para estimular as contrações. Não posso afirmar que foi ocitocina no meu caso, porque não tenho essa informação. Sei que recebi uma medicação para acelerar o parto e isso não me foi devidamente explicado”, relata.

Em outro momento, um profissional pressionou o abdômen de Rocha. “Um enfermeiro chegou a subir sobre mim para fazer força sobre a minha barriga”, recorda. Anos depois, ela associou o episódio à chamada manobra de Kristeller, pressão aplicada sobre a parte superior do útero para tentar apressar a saída do bebê.

As diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a assistência ao parto não recomendam o uso de pressão manual no fundo do útero durante o período expulsivo. A entidade também orienta que a episiotomia, corte cirúrgico feito no períneo, não seja adotada de forma rotineira em partos vaginais espontâneos.

Por volta das 17h30, segundo Evellyn, uma médica percebeu que o bebê já estava coroando e que o cordão umbilical se encontrava enrolado no pescoço. Ela foi levada à sala de parto. “Lembro de sair batendo a cabeça na maca durante o deslocamento. Eu estava assustada, sentindo muita dor e sem compreender exatamente o que estava acontecendo”, diz.

Ela lembra que a obstetra olhou para ela e pediu desculpas por não ter sido atendida antes. Em seguida, suas pernas foram seguradas e a médica realizou uma episiotomia. Segundo o relato, não houve anestesia nem explicação prévia sobre o procedimento.

Isaque nasceu com 55 centímetros e 3,890 quilos. A mãe recorda que ele estava com a cabeça arroxeada e apresentava marcas nos olhos. O que permaneceu com ela, além da dor, foi a sensação de ter perdido o controle sobre o próprio corpo.

“Tudo foi muito violento, mas acredito que a maior violência foi a falta de informação. Eu apenas sabia que sentia uma dor muito grande e que alguma coisa não estava certa”, afirma.

Desigualdade no atendimento

O relato da psicopedagoga encontra paralelo em pesquisas brasileiras. O estudo “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicado em 2017 nos Cadernos de Saúde Pública, analisou dados da pesquisa ‘Nascer no Brasil” e identificou diferenças no atendimento oferecido a mulheres negras.

Mesmo após o controle de diferenças socioeconômicas, essas mães tiveram maior risco de pré-natal inadequado, ausência de acompanhante e peregrinação para conseguir atendimento. Quando submetidas à episiotomia, também receberam menos anestesia local do que as brancas.

O racismo obstétrico ocorre quando práticas de negligência, desumanização e violação da autonomia reprodutiva são atravessadas pela discriminação racial. Não depende apenas de uma manifestação explícita de preconceito, isto é, pode aparecer na dor desacreditada, na informação negada e na diferença de qualidade do cuidado oferecido.

Rocha evita atribuir uma motivação individual a cada profissional que a atendeu. Ao rever o que viveu, porém, considera que sua raça, idade e condição social faziam parte daquela experiência.

“Eu era uma mulher negra, jovem, em trabalho de parto, sentindo dores intensas, sem acompanhante e sem receber informações adequadas sobre procedimentos realizados no meu corpo”, diz. “Não consigo olhar para aquela experiência apenas como um parto difícil.”

Para a professora do curso de Obstetrícia da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e especialista em saúde da mulher e saúde materna, Marlise de Oliveira Pimentel Lima, o racismo obstétrico é um fenômeno estrutural que atravessa as experiências reprodutivas das mulheres negras.

“Ele nega direitos básicos a uma saúde reprodutiva digna e tem consequências que vão além do momento do parto. Afeta a saúde mental materna, com ansiedade e depressão, dificulta o estabelecimento do vínculo entre mãe e bebê e aumenta riscos biológicos para a criança, como prematuridade, baixo peso e mortalidade”, explica.

A Universidade de Cambridge informou que os trabalhos revisados associam alterações inflamatórias, vasculares e de estresse oxidativo a complicações como pré-eclâmpsia, parto prematuro e restrição do crescimento fetal. Os autores apontam, no entanto, a necessidade de novas pesquisas sobre a relação direta entre fatores socioambientais e essas mudanças.

Uma violência que atinge a primeira infância

Para a especialista, o debate sobre a primeira infância também precisa considerar a gestação. As condições de desenvolvimento da criança começam a ser construídas antes do nascimento e passam pela assistência recebida pela mãe.

“As desigualdades no cuidado não são apenas injustiças no momento do parto. Elas moldam a saúde, o vínculo e as oportunidades dessas crianças pretas e pardas desde a gestação, o nascimento e a primeira infância”, afirma.

Segundo a professora, uma assistência inadequada pode interferir nos primeiros contatos entre mãe e bebê e dificultar o aleitamento quando não há apoio profissional. O sofrimento vivido no parto também pode repercutir na saúde mental materna e na construção do vínculo durante o puerpério.

No caso de Rocha, a recuperação foi marcada pelas dores na região da episiotomia e por um impacto emocional que ela só conseguiu compreender anos mais tarde. “Eu era uma mãe muito jovem e estava começando a cuidar de um bebê depois de passar por uma experiência extremamente intensa e dolorosa. Acreditava que aquilo fazia parte do parto e que eu precisava suportar”, lembra.

A docente acrescenta que o menor acesso a um pré-natal de qualidade, à assistência segura no parto e a unidades neonatais adequadas se combina às condições socioeconômicas produzidas pelo racismo estrutural. Essas diferenças começam antes do parto e podem continuar nos primeiros anos de vida.

“Colocar mulheres negras no centro das políticas de saúde materna e infantil, enfrentando explicitamente o racismo estrutural e institucional, promove desfechos mais saudáveis para essas crianças e pode mudar suas trajetórias ao longo da vida”, argumenta.

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