Sem mulheres no poder, democracia brasileira segue incompleta

06 de maio, 2026 Vermelho Por Natália Padalko

Brasil é 133º em representação feminina; maioria, mulheres seguem excluídas dos espaços de poder.

O Brasil ocupa a 133ª posição no ranking global de representação feminina nos parlamentos, segundo dados recentes da União Interparlamentar (UIP) e da ONU Mulheres. Na Câmara, as mulheres ocupam cerca de 18% das cadeiras; no Senado, pouco menos de 20%, índices bem abaixo da média das Américas, que lidera globalmente com 35,4%. Embora sejam 51,5% da população e maioria do eleitorado, as brasileiras seguem sub-representadas em um cenário global em que os homens ainda ocupam mais que o triplo dos cargos políticos. A distância entre esses números não é apenas estatística, ela revela um sistema político que, longe de corrigir desigualdades históricas, continua a reproduzi-las.

Para a secretária nacional de Mulheres do PCdoB, Flávia Calé, o problema não pode ser reduzido às regras eleitorais ou ao desempenho das candidaturas. Trata-se de uma engrenagem mais profunda, que atravessa diferentes esferas da vida social e limita o acesso das mulheres aos espaços de decisão.

A distância entre presença e poder

A própria política, segundo ela, apenas reproduz uma lógica já presente em outros campos. “A sub-representação das mulheres precisa ser entendida de forma mais ampla. Não é só na política institucional, as mulheres são maioria em várias áreas, mas não chegam aos espaços de decisão”, afirma. O exemplo da ciência é emblemático: embora as mulheres predominem na base, entre pesquisadoras, mestres e doutoras, continuam sub-representadas nas instâncias de direção e gestão acadêmica. A lógica se repete. O acesso existe, mas o poder permanece concentrado.

A herança da exclusão política

Esse padrão não surge por acaso. Ele é resultado de um processo histórico no qual as mulheres foram incorporadas de forma tardia à cidadania política. Durante séculos, estiveram afastadas do direito à educação, da participação pública e, sobretudo, do voto. “As mulheres foram incorporadas tardiamente como sujeitas de direitos políticos. Essa exclusão histórica ainda se reflete hoje na dificuldade de acesso aos espaços de poder”, observa Calé. O presente, nesse sentido, não rompeu com o passado — ele o reorganiza sob novas formas.

Violência como instrumento de controle

Mas se a história explica, ela não basta. Há mecanismos contemporâneos que atuam ativamente para manter essa exclusão. Entre eles, a violência política de gênero ocupa lugar central. Longe de ser episódica, ela funciona como uma tecnologia de controle, operando tanto no cotidiano das instituições quanto na arena pública ampliada.

“Quando uma mulher é atacada, isso não atinge só ela. É um recado para todas”, afirma. Interrupções sistemáticas, deslegitimação da fala, ataques pessoais e ameaças não são desvios de conduta isolados, mas práticas que delimitam quem pode ou não permanecer nesses espaços. O objetivo não é apenas constranger, mas produzir desistência, silêncio e retração.

Extrema direita, redes e monetização do ódio

Esse ambiente se intensifica em um contexto de avanço de forças políticas que fazem do ataque às mulheres um instrumento de mobilização. Segundo Calé, a extrema direita tem desempenhado papel ativo na disseminação desse tipo de violência, especialmente nas redes digitais, onde o discurso de ódio ganha escala, visibilidade e, muitas vezes, retorno financeiro. “O discurso de ódio contra mulheres vem sendo estimulado e até monetizado. Isso impacta diretamente a participação política feminina”, aponta.

Dinheiro, poder e barreiras invisíveis

A exclusão também se sustenta em bases materiais. O funcionamento do sistema político, especialmente no que diz respeito ao financiamento de campanhas, favorece quem já ocupa posições de poder econômico. Nesse circuito, as mulheres chegam em desvantagem estrutural. “O modelo de financiamento favorece quem já está nos espaços de decisão econômica e as mulheres foram historicamente excluídas desses espaços”, afirma. O resultado é um ciclo que se retroalimenta: menos acesso a recursos implica menor competitividade eleitoral, que por sua vez perpetua a baixa representação.

Diante desse quadro, medidas formais, como a reserva de candidaturas, mostram-se insuficientes quando não acompanhadas de mudanças mais profundas. Para Flávia Calé, é preciso enfrentar simultaneamente as condições materiais, culturais e institucionais que limitam a presença feminina na política. Isso passa por garantir financiamento adequado, combater de forma efetiva as candidaturas fictícias e, sobretudo, enfrentar a violência política de gênero como um problema estrutural.

Mais do que ampliar números, trata-se de redefinir as bases da própria democracia. A ausência de mulheres nos espaços de decisão não é apenas um problema de representatividade, mas um limite concreto à pluralidade política e à capacidade do sistema de responder à sociedade que pretende representar.

“Não basta garantir candidaturas. É preciso criar condições reais para que as mulheres possam participar e permanecer na política”, resume. Em um país onde elas são maioria, a sub-representação não pode ser tratada como dado natural. É, antes, expressão de um conflito ainda em aberto sobre quem tem direito, de fato, ao poder.

Acesse a matéria no site de origem.

Nossas Pesquisas de Opinião

Nossas Pesquisas de opinião

Ver todas
Veja mais pesquisas