Como reagir ao assédio sexual: treinamento ensina 5 passos e alerta para omissão coletiva

23 de abril, 2026 Marie Claire Por Hysa Conrado

Projeto Stand Up treina homens e mulheres para lidarem com situações de assédio ou importunação sexual em locais públicos

Mulheres sofrem com situações de assédio e importunação sexual diversas vezes ao longo da vida – é quase como um evento canônico: o primeiro episódio costuma acontecer ainda na infância ou no começo da adolescência e marca o início do enfrentamento às violências de gênero que se seguirão.

Ainda assim, não é raro que elas se sintam sozinhas quando a violência acontece, especialmente quando as pessoas ao redor não se dispõem a acolhê-las ou a ajudá-las. A fotógrafa Caroline Soares, de 26 anos, foi vítima de importunação sexual no metrô de São Paulo e conta que não recebeu nenhum apoio.

“Fiquei em choque. Reagi empurrando o homem, mas o que mais me marcou foi a ausência de reação das pessoas ao redor. Depois vieram sentimentos de culpa e nojo, que ficaram comigo por um tempo.”

O caso de Carolina é apenas mais um na estatística brasileira: a pesquisa “Viver nas Cidades: Mulheres”, do Instituto Cidades Sustentáveis e da Ipsos-Ipec realizada em dezembro de 2025, revela que sete em cada dez mulheres dizem já ter sofrido assédio moral ou sexual, principalmente em ruas e espaços públicos.

O levantamento revela, ainda, que não há lugar seguro para as mulheres: ao menos 71% delas disseram já ter sofrido algum tipo de assédio em pelo menos um dos seis locais mencionados, como ruas e espaços públicos, transporte público, ambiente de trabalho, ambiente doméstico, bares/casas noturnas ou transporte particular.

A experiência de Caroline a mobilizou em busca de um treinamento de defesa pessoal. Foi assim que ela conheceu o projeto StandUp, da ONG Cruzando Histórias, onde aprendeu táticas não apenas para se proteger, como também para ajudar outras mulheres que estejam vulneráveis a homens assediadores.

O que mais marca não é só o assédio, mas o silêncio em volta. E eu não quero mais fazer parte dele. Hoje entendo que, antes, eu reagia no impulso e me sentia sozinha depois. [O treinamento] me trouxe estratégia e consciência de que podemos agir e apoiar umas às outras
— Caroline Soares, fotógrafa

No projeto, Caroline passou por um treinamento no qual aprendeu, primeiramente, a diferença entre assédio e importunação sexual. Segundo Bia Diniz, CEO da ONG Cruzando Histórias, entender o contexto é importante para saber reagir e como intervir na situação.

O assédio acontece em contextos em que o agressor se vale de uma posição de poder para cometer a violência. Por exemplo: professor e aluna, chefe e funcionária, líder religioso e fiel. Já a importunação sexual acontece entre desconhecidos ou pessoas que não têm uma relação hierárquica.

5 passos para lidar com assediadores

Bia Diniz explica que usa o metódo dos “5 Ds” para ensinar homens e mulheres a reagirem a situações de assédio ou importunação sexual. Não se trata de autodefesa, no sentido de travar uma disputa corpo a corpo com o agressor, mas posturas e decisões que são fundamentais para interromper a violência e acolher a vítima.

“As pessoas veem acontecer e é natural que paralisem ou finjam que não é problema delas, achando que outra pessoa vai resolver. Também há medo de intervir e a situação piorar ou se voltar contra si. Quando oferecemos ferramentas simples de ação nos treinamentos, as pessoas percebem que nunca tinham pensado nisso”, ressalta Diniz.

Os 5 Ds são: distrair, delegar, documentar, dialogar e direcionar.

1- Distrair consiste em fazer alguma intervenção para interromper a situação e levar o agressor a perceber que foi visto, interrompendo o comportamento. Pode ser fazer uma pergunta, se aproximar ou até derrubar um objeto.

2- Delegar, ou seja, pedir apoio. Procurar ajuda de outra pessoa, como um motorista, um segurança, um funcionário ou um gerente do local.Essa estratégia é importante para quem não sabe como intervir ou tem medo de agir na situação.

3- Documentar a situação por meio de foto ou vídeo, ou anotar características do agressor, o local, o horário, a placa de um veículo, entre outros detalhes. Essas informações podem ajudar em uma denúncia. É importante avaliar se você está em segurança para fazer isso.

“Esse material não deve ser compartilhado em redes sociais ou grupos, para evitar exposição indevida”, orienta Diniz.

4- Dialogar e acolher a vítima, oferecer ajuda, companhia ou apoio. Essa estratégia pode ser combinada com as demais.

5- Direcionar e intervir diretamente com o agressor ou a vítima. Pode ser pedir que o agressor se afaste ou oferecer ajuda direta à vítima. Deve ser feita com cautela, sempre avaliando a segurança de todos.

Carolina lembra que pouco depois de ter participado das aulas, vivenciou mais uma situação de importunação no ônibus, porém dessa vez ela não era a vítima, mas alguém que poderia intervir e mudar o rumo da história.

“Percebi um homem [importunando] mulheres com olhares e gestos. Quando notei que ele tentaria sentar ao lado de uma jovem de forma invasiva, me antecipei e ocupei o lugar. Em seguida, denunciei a situação ao cobrador, e o homem foi retirado”, conta.

Se causa desconforto, é violência

Quem nunca ouviu de um homem que “agora é tudo assédio”? Esta é apenas uma maneira sutil de reagir contra o avanço das discussões sobre consentimento, que resultou em ações como o protocolo “Não é Não – Mulheres Seguras”, lei brasileira que estabelece que qualquer recusa feminina deve ser respeitada imediatamente, sem insistência.

Para Bia Diniz, existe uma maneira simples de diferenciar o assédio e a importunação de uma mera demonstração de interesse: se há desconforto por parte da mulher, então é violência.

Se a mulher está se sentindo constrangida, triste, envergonhada, com medo ou com nojo, então é assédio ou importunação. É mais sobre a reação da vítima do que o ato em si. A partir do momento em que há desconforto ou desestabilização, há uma situação de importunação ou assédio
— Bia Diniz, CEO da ONG Cruzando Histórias

É importante ressaltar que o assédio e a importunação vão além do toque físico. Incluem comportamentos como encarar de forma invasiva, gestos sexualizados, ou se aproveitar de cumprimentos para encostar de forma inadequada na mulher.

Além disso, as situações também podem ocorrer no ambiente digital, quando há mensagens insistentes, conteúdos insinuantes ou envio de nudez sem consentimento. Em situações mais explícitas, como a prática de atos libidinosos, a exemplo da masturbação, o fato de o agressor não encostar na vítima também não minimiza a violência.

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