Crimes como o estupro coletivo no Rio espelham machosfera, pornografia e omissão parental

10 de março, 2026 Folha de S. Paulo Por Bruna Fantti

  • Ao ser preso, réu usa camisa com frase que também é mantra de coach misógino; defesa afirma que ele não participou da violência
  • Delitos sexuais cometidos por menores de 18 anos cresceram 93% no Rio em quatro anos

Ao se entregar na delegacia, o jovem Vitor Hugo Simonin, 19, acusado de participar do estupro coletivo de uma jovem de 17 anos no Rio de Janeiro, usava uma blusa com os dizeres “regret nothing” (não se arrependa de nada, em inglês).

A frase também é um “mindset” de Andrew Tate, influenciador americano-britânico, declaradamente misógino, réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores. Tate é citado na série “Adolescência”, da Netflix, que aborda a influência nos jovens da chamada machosfera (comunidades online misóginas) e a omissão parental na era digital.

Simonin, filho de um ex-subsecretário do governo Cláudio Castro (PL), é réu pelo estupro coletivo e investigado por outro crime sexual. Além disso, segundo duas estudantes ouvidas pela reportagem, ele era conhecido por passar a mão em partes íntimas de colegas, sempre que estava em uma aglomeração na escola, além de intimidá-las com possível bullying.

O jovem também é investigado por participar de brigas coletivas organizadas pelo WhatsApp. Procurado por ligação e mensagem, seu advogado, Ângelo Máximo, não se manifestou. Em entrevista anterior, ele afirmou que Vitor nega o crime de estupro. Outros três jovens estão presos, e um adolescente, apreendido.

Os depoimentos das vítimas relatam violência sexual, psicológica e física, mediante emboscada. Uma delas, de 14 anos, contou que chorou todo o tempo e chegou a pedir para os jovens interromperem as agressões, mas eles riram e filmaram o crime.

De acordo com especialistas, as ideologias de ódio a mulher na internet, assim como a pornografia massiva, a falta de educação sexual, o diálogo e até a formação cerebral ajudam a explicar o aumento da violência sexual contra meninas adolescentes.

Dados obtidos pela Folha mostram que, no Rio de Janeiro, de 2021 a 2025, houve um aumento de 93,04% no número de adolescentes que são apontados como autores nas ocorrências que apuram crimes sexuais.

O ano de 2025 apontou o maior número de registros nos últimos dez anos, com 832 jovens, com menos de 18 anos, suspeitos de infrações análogas a abusos sexuais —a maioria das vítimas, meninas.

O pesquisador Martin Magalhães do Geni (Grupo de Estudos de Gênero e Sexualidade ) da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) avalia que o aumento desses crimes acompanha o crescimento dos discursos machistas nas redes sociais.

“O universo redpill fala muito no sentido de você ter uma verdade, sobre como que o mundo funciona. Chama atenção de jovens que procuram por pertencimento, por identificação que muitas vezes não acontece dentro de casa”, disse.

“Passa a ideia de dominação, ‘que lugar que você quer ocupar?’. Os homens nunca querem ocupar um lugar dito como inferior, que é onde vão colocar as mulheres”, afirmou.

O pesquisador afirma que houve um desmonte do debate sobre gênero e sexualidade nas escolas, impulsionado por grupos políticos conservadores, o que teria deixado os jovens sem ferramentas críticas para lidar com essas questões.

O pensamento sobre a necessidade de educação sexual nas escolas é compartilhado pela educadora e ativista pela erradicação da violência sexual online, Sheylli Caleffi.

“É preciso que as escolas tenham educação sexual no sentido pleno da expressão. Ensinar a respeitar o meu corpo, o corpo do outro, falar sobre consentimento. E isso deve ser abordado pelos pais também”, disse. Sheylli ressalta que as escolas de elite têm programas sobre educação sexual, o que não é realidade na maioria das instituições. Sobre o conteúdo que os jovens consomem, ela opina também que a pornografia sempre mostra cenas que subjugam a mulher.

Além da questão educacional, especialistas apontam fatores biológicos que tornam os jovens mais vulneráveis.

Indagada sobre o impacto da pornografia e dos discursos de ódio nos jovens, Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), afirma que o cérebro dos jovens não está totalmente formado.

“Até os 21, 22 anos, o cérebro humano ainda está em desenvolvimento, sendo o córtex pré-frontal a última parte do cérebro a amadurecer. Ele é essencial para avaliar as consequências das situações de risco, raciocínio lógico, capacidade de estabelecer prioridades, organização e controle de impulsividade. Sem o córtex pré-frontal totalmente desenvolvido, as ações tendem a ser mais impulsivas “, explicou.

“Um adolescente exposto a determinada situação de forma repetitiva tem menos condição que um adulto de avaliar se a referida situação é ou não aceitável”, disse a especialista.

“Exatamente por isso os adolescentes devem ser orientados de perto em relação ao impacto da pornografia e do discurso de ódio. Esta é a forma mais eficaz de evitar a banalização de comportamentos inadequados e extremamente danosos, resultado de diversos fatores, entre os quais o uso indiscriminado das telas”, acrescentou.

O advogado penal Guilherme Carnelós lembra que sempre que há um crime de repercussão praticado por um menor de idade, grupos da sociedade pedem a redução da maioridade penal.

“Quando você prende jovens de 19 anos, muitos deles saem a serviço do crime organizado. Por isso, o que nós precisamos é construir um adulto melhor, e não uma ficha criminal”, opinou.

“O ambiente da internet facilita a vida dos pais porque teoricamente sua criança não está ‘dando trabalho’ e gera consequências gravíssimas. A internet está em todo lugar, até em relógio de pulso. Então, precisa de uma de política pública eficiente e de um ECA Digital eficiente”, acrescentou.

O ECA Digital, que entra em vigor no próximo dia 17, é uma legislação feita para proteção de crianças e adolescentes na internet.

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