Basta! Um ano após abuso coletivo, a cultura do estupro segue sendo perpetuada pela sociedade

10/05/2017 - 11:16 -
Email this to someoneShare on Facebook0Tweet about this on TwitterShare on Google+0

Em maio de 2016, uma adolescente de 16 anos foi estuprada por um grupo de jovens no Rio de Janeiro. O crime bárbaro, que foi gravado e compartilhado no Whatsapp, ganhou as manchetes do mundo todo e acendeu o debate sobre a cultura do estupro, que ainda dita as regras na sociedade atual. Dois dos setes indiciados foram condenados a 15 anos de prisão. Um ano depois, dois casos semelhantes voltam a acontecer, em paralelo à condenação da ex-ministra de Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República Eleonora Menicucci, que deverá indenizar Alexandre Frota por danos morais ao classificar sua declaração em um programa de TV como apologia ao estupro. Mesmo diante do clamor das ruas e das mobilizações nas redes sociais, todos esses acontecimentos provam que nenhum avanço aconteceu.

(Marie Claire, 10/05/2017 – Acesse o site de origem)

Na última sexta (05.05), a Baixada Fluminense, região metropolitana do Rio, foi cenário de um abuso sexual cometido por ao menos quatro jovens contra uma garota de 12 anos. O crime foi gravado e publicado em uma página do Facebook. Nas imagens, apresentadas à polícia pela tia da vítima, os criminosos aparecem nus, enquanto a garota é violentada. Os gritos para que parassem foram abafados por um travesseiro e pela fala de um dos rapazes: “Cala a boca. Vão ficar ouvindo a sua voz e vão saber que é tu”. “Tapa o rosto da novinha”, ordena outro.
Abre estupro (Foto: Thinkstock Photos)
Abre estupro (Foto: Thinkstock Photos)

“A menina está apavorada e a família em choque”, disse a delegada Juliana Emerique, titular da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (Dcav) e responsável pelo inquérito. A gravação foi classificada por ela como “forte” e “violenta”. Os agressores podem responder por estupro de vulnerável, que presume violência no ato sexual com menores de 14 anos, e quem compartilhou o vídeo também pode ser indiciado. Por hora, os detalhes do crime seguem em segredo de justiça até que os fatos sejam apurados.

Leia Mais: Do escárnio ao absurdo: a apologia ao estupro de Frota e a condenação de Eleonora Menicucci (Justificando/Carta Capital, 10/05/2017)

Frota não nos calará (Folha de S.Paulo, 10/05/2017)

Um dia antes, na quinta (04.05), em Teresina, outra barbaridade. Três adolescentes foram presos pelo estupro de uma grávida de 15 anos diante de seu namorado, que foi morto em seguida. Tudo filmado por um telefone celular. Os rapazes confessaram o crime. Por conta da gestação, a vítima não pode tomar medicamentos e está sendo assistida pelo Conselho Tutelar.

Na mesma semana, Alexandre Frota saiu vitorioso de uma ação movida contra Menicucci. A ex-ministra foi condenada a pagar R$ 10 mil ao ator por criticar sua declaração durante um programa de entrevistas. Na ocasião, ele conta ter provocado o desmaio de uma mãe de santo após imobilizá-la pelo pescoço e, em seguida, a violentado. “Ele não só assumiu ter estuprado, mas também fez apologia ao estupro”, avaliou ela na época. Após a sentença, assinada pela juíza Juliana Nobre Correa, Menicucci usou sua página no Facebook para se pronunciar. “Lamentavelmente a condenação não atinge só a mim, mas as mulheres que lutam há séculos contra o estupro, contra as violências de gênero”, escreveu.

Se há 12 meses, o debate inflado sobre a cultura do estupro se fazia necessário, agora mais do que nunca ele precisa voltar à tona diante de sucessivas atrocidades, que só reforçam as estatísticas brutais: no Brasil, um estupro acontece a cada 11 minutos; ao menos 500 casos acontecem ao ano. Além de condenar os verdadeiros criminosos, é preciso que a sociedade pare de uma vez por todas de aceitar e proliferar comportamentos machistas, sexistas e misóginos, que normalizam a violência sexual.