Cidade de São Paulo tem quase sete casos de estupro registrados por dia

09/09/2017 - 10:29 -
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A cidade de São Paulo registrou quase sete estupros por dia entre janeiro e julho de 2017, segundo levantamento feito pela Folha com base em dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado.

(Folha de S.Paulo, 09/09/2017 – acesse no site de origem)

Foram notificados, nas delegacias da cidade, 1.384 casos neste ano. Isso significa uma média de 197 por mês, ou 6,5 por dia.

Do total de registros, 903 foram classificados como estupro de vulnerável –como os que têm vítimas menores de 14 anos, que tenham deficiência ou que estejam com estado mental alterado a ponto de não poderem consentir.

Leia mais:
Número de prisões por estupro em SP é seis vezes menor que número de denúncias (G1, 05/09/2017)
Um terço dos casos de estupro ocorre em lugar público, diz levantamento (Bom Dia Brasil, 05/09/2017)

Em SP, apenas 1 entre 127 abusos sexuais foi considerado estupro (Claudia, 04/09/2017)

Os números vêm à tona após uma série de crimes sexuais cometidos no transporte público. No sábado (2), o ajudante geral Diego Novais, denunciado por ao menos 17 mulheres desde 2009, foi preso sob acusação de estupro após esfregar o pênis em uma passageira num ônibus.

COMPARAÇÃO

O número de casos de estupro registrados de janeiro a julho deste ano em São Paulo é 14% maior do que o registrado no mesmo período em 2016 (1.214). O número já havia crescido no ano passado. De janeiro a dezembro, a alta foi de 10% em relação a 2015 -de 2.087 para 2.316.

É só a ponta do iceberg: pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) estima que apenas 10% das vítimas reportem o crime à polícia. Levando este dado em conta, o número real na cidade chegaria a quase 14 mil -ou 65 estupros por dia.

O estudo, que usa dados de 2011 e 2013, estima que por ano sejam estupradas 527 mil pessoas no Brasil. Das vítimas, 89% são mulheres.

Apesar disso, segundo Isabel Figueiredo, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a alta no número de registros nos últimos anos pode significar um aumento de notificação e não necessariamente de casos consumados.

“Diferentemente de outros crimes, o estupro depende da vontade da vítima de denunciar e da rede que ela dispõe para isso”, afirma. “Como estamos vendo muitos casos de repercussão, campanhas incentivando a notificarem, pelo menos parte desse aumento pode se dever a isso.”

É um dos fatores que pode explicar, diz, o aumento expressivo de notificações em algumas delegacias da cidade. Na dos Jardins, região nobre da cidade, os casos passaram de cinco em 2015 para 14 em 2016 -alta de 180%. Até julho deste ano, já haviam sido registrados sete.

Outras nove delegacias paulistanas registraram aumento de 100% ou mais nos números: Alto da Mooca, Itaim Bibi, Itaquera, Lapa, Parque da Mooca, Parque São Lucas, Santo Amaro, Vila Clementino e Vila Formosa.

O número de casos registrados por elas, porém, não chega nem perto dos notificados nas duas delegacias que se revezam no topo do ranking desde 2015: a do Capão Redondo, no extremo da zona sul, e a de Perus, na zona norte.

A primeira é a atual campeã, com 50 casos. Em 2015, também ficou em primeiro lugar, registrando 68 casos. Já em 2016, Perus teve 74 registros, dois a mais que o Capão.

Ambos os bairros já sustentaram o título de mais violento da cidade. Também têm outra semelhança: não têm Delegacia de Defesa da Mulher -são apenas 9 em toda a cidade, contra mais de 100 delegacias regulares.

Segundo Figueiredo, a concentração de casos em bairros pobres segue a mesma lógica da violência doméstica em geral. “O número de mulheres de classe média que denunciam é menor porque elas têm outras alternativas, uma rede familiar, algum lugar para ir”, afirma ela.

A pesquisadora, ex-diretora da Secretaria Nacional de Segurança Pública, diz que o estupro é um crime de difícil prevenção, principalmente porque se dá normalmente em âmbito doméstico.

“Em termos de políticas de segurança, o que se pode fazer é aumentar a rede e a qualidade do atendimento, que em geral é muito ruim”, afirma. “Mas a política para coibir o crime em si está mais ligada ao combate ao machismo e a questões culturais.”

Procurada, a Secretaria Estadual da Segurança Pública afirmou em nota que “tem adotado medidas para coibir os estupros, independentemente do local onde ocorra”.

A secretaria afirmou ainda que “estabeleceu um protocolo único de atendimento, que impõe um padrão de atendimento nas delegacias” e que os policiais passam por cursos de atualização.

O texto ressalta que, dos sete estupros registrados pela delegacia dos Jardins, só um segue sem autor identificado.

Angela Boldrini