Visibilidade lésbica: maternidade plural desafia e abre novos caminhos para famílias

29 de agosto, 2025 Brasil de Fato Por Lucas Wilker

‘É preciso compreender e legitimar modelos familiares formados por duas mães’, diz pesquisadora

Em 29 de agosto, o Brasil celebra o Dia da Visibilidade Lésbica, uma data que marca a resistência e a afirmação da existência de mulheres lésbicas em todas as esferas da sociedade. Mais do que uma celebração, o dia convida à reflexão sobre os avanços e os obstáculos ainda enfrentados na garantia de direitos.

Um dos temas que vêm ganhando força nos últimos anos é a maternidade lésbica, especialmente no reconhecimento social e jurídico da chamada dupla maternidade.

Para a pesquisadora Leíner Hoki, do Grupo de Estudos em Lesbianidades (GEL) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a discussão sobre maternidade está profundamente ligada à desconstrução da lógica heteronormativa que estrutura a sociedade.

“A heterossexualidade compulsória é uma forma de olhar para o mundo que já pressupõe a heterossexualidade de todas as pessoas. Nesse sentido, a gente consegue observar, por exemplo, o quanto a ideia que a gente tem de maternidade está muito ligada com essa ideia de heteronormatividade”, explica.

O caminho, portanto, é o questionamento, ou seja, olhar para o mundo a partir de outras lentes e compreender e legitimar modelos familiares formados por duas mães.

“Em agendas escolares, por exemplo, a assinatura padrão vem com o espaço para ‘pai’ e ‘mãe’, como se já se presumisse que a criança só poderia estar dentro desse modelo”, aponta.

Hoki ressalta ainda que os direitos conquistados não são imutáveis e podem sofrer retrocessos.

“A legalidade da dupla maternidade é um avanço, mas não está garantida para sempre. O momento histórico que vivemos mostra de forma escancarada que não é assim que funciona. A luta é permanente. Por isso, a previdência é uma pauta LGBT. O SUS é uma pauta LGBT. Transporte público é pauta LGBT. Precisamos ‘des-heteronormativizar’ todas essas lutas”, defende.

Cuidado compartilhado

O desejo de constituir família foi um projeto em comum para Larissa Costa e Júlia Nascimento, que em junho deste ano se tornaram mães de gêmeos, Teresa e Francisco, por meio de fertilização in vitro.

“Foi um projeto de vida em comum. Começamos a nos organizar financeiramente e buscar informações. Não tínhamos muitas referências, porque ainda é um tabu na sociedade”, relata Costa, que foi a mãe gestante.

O processo, segundo elas, foi marcado pela falta de acesso a informações e pela necessidade de trocar experiências com poucos casais que já haviam passado por situações semelhantes.

“A gestação veio em primeiro lugar, pelo nosso desejo de viver essa experiência”, continua.

Hoje, a rotina intensa com os bebês é compartilhada pelas duas. Nascimento destaca a importância de ter conseguido licença do trabalho, mesmo sem ter gestado.

“Isso me permitiu dividir de forma mais equilibrada a rotina com a Larissa. Infelizmente, muitos pais não têm esse tempo. Por isso, precisamos debater a ampliação da licença parental no Brasil”, afirma.

Para Costa, a discussão sobre licenças é também uma questão de romper desigualdades e compartilhar o espaço de cuidado.

“A licença exclusiva da mãe gestante acaba responsabilizando apenas ela. No caso de dupla maternidade, é fundamental ampliar esse tempo para as duas mães”, sinaliza.

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