Em 24 de novembro de 2025, véspera da 2ª Marcha das Mulheres Negras em Brasília, três especialistas negras em tecnologia se reuniram no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) para discutir as demandas da população negra no campo digital. O público queria ouvir, sobretudo, a coordenadora-geral de Cultura em Direitos Humanos e Mídias Digitais do Ministério dos Direitos Humanos, Miriam Alves, que dividiu a mesa com duas integrantes do Comitê de Tecnologia da Marcha: Thiane Neves e Silvana Bahia — a Sil.
O encontro não surgiu do acaso. Ele foi costurado desde antes do lançamento oficial do comitê, em setembro, e é resultado de meses de trabalho que consolidaram um projeto político evidente: pensar tecnologia a partir de uma perspectiva antirracista, feminista e comprometida com o bem viver.
A agenda do grupo é extensa e segue para além da Marcha: inclui analisar criticamente o impacto das tecnologias digitais, produzir subsídios técnicos, defender participação popular em espaços decisórios, ocupar instâncias estratégicas da governança da internet e construir políticas públicas que enfrentem racismo, machismo e desigualdades de acesso e uso.
Mais do que debater infraestrutura ou conectividade, o comitê reivindica uma visão interseccional de inclusão digital — entendendo que disputar o digital é também disputar memória, cuidado, criação e reinvenção do mundo. Por isso, reúne mulheres negras de diferentes regiões do país e mantém, no seu núcleo, referências nacionais no tema. Entre elas está Silvana Bahia, diretora-executiva do Olabi e idealizadora da PretaLab, cuja atuação tem tensionado e ampliado o debate sobre democratização tecnológica, pensamento crítico e presença de mulheres negras no setor.
À Gênero e Número, Sil Bahia falou sobre formação crítica, disputa política no ambiente digital, proteção de crianças e adolescentes, diálogo com o governo e os desafios de formular políticas públicas que reflitam, de fato, a população brasileira — sobretudo a população negra, que há décadas sustenta, denúncia e reinventa o país.
Sil Bahia é carioca, nascida na Lapa, comunicadora social e empreendedora social. Hoje codiretora executiva do Olabi, tornou-se um dos nomes mais influentes em tecnologia e inovação no Brasil. Sua trajetória passa pela infância no centro do Rio de Janeiro, pelo sonho da universidade e pelas barreiras enfrentadas como mulher negra no mercado de trabalho.
Ela debate gênero e raça na tecnologia, tem um mestrado em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense (UFF) dedicado aos coletivos de arte e às disputas no espaço urbano. E, sempre e muito importante, está disposta a falar sobre abrir portas para outras mulheres que, como ela, sonham com um Brasil mais inclusivo.
Como a formação em tecnologia pode estimular senso crítico, especialmente entre mulheres negras?
Sil Bahia: Quando a gente fala de tecnologia, fala pouco de questionar as tecnologias. Questionar se a gente precisa delas da forma como estão sendo servidas para a gente. Estimular o senso crítico começa por aí: fazer novas perguntas sobre coisas que, como sociedade, não temos olhado tanto.
“No Comitê de Tecnologia [da Marcha das Mulheres Negras], discutimos muito como o olhar das mulheres negras — aliado a essa visão crítica sobre uso e produção — incide numa mudança que não é só de consumo, mas também comportamental. Nas formações do Olabi, a gente bate nessa tecla há mais de dez anos: a tecnologia não é neutra.”
Não queremos só que as pessoas saibam “apertar botão”, mas que consigam fazer leitura de contexto, de mundo. Isso faz parte da formação de senso crítico. Isso também é educação midiática, algo urgente neste tempo – e estamos vivendo isso, inclusive, na Marcha das Mulheres Negras.
Esse uso crítico da tecnologia também aparece nas discussões sobre crianças e adolescentes nas redes?
Sil Bahia: Esse talvez seja um dos maiores desafios do período que a gente está vivendo: como proteger crianças e adolescentes num ambiente digital que, muitas vezes, parece terra sem lei. Existem conteúdos que não são próprios para essa fase da vida, e eu fico pensando em mães e pais: como lidar com isso?
O primeiro passo é falar sobre o problema. Quando a gente não fala, não cria solução. Existe uma vulnerabilidade grande para crianças e adolescentes, e essa discussão é urgente, porque os impactos emocionais e de comportamento podem aparecer a longo prazo — mais ansiedade, mais vício em telas. É preciso discutir como não cercear o uso, mas criar contorno e limite.
Por que trazer o Ministério dos Direitos Humanos para esse debate? Como tem sido esse diálogo?
Sil Bahia: A presença do ministério foi um convite nosso, do Comitê de Tecnologia, para abrir diálogo e, estrategicamente, trazer esse compromisso com o que estamos construindo. Essa articulação nasce muito do Comitê Nacional, como possibilidade de diálogo com ministérios. A gente está preocupada em construir diálogo com quem pode se comprometer com nossas pautas.
Trazer ministérios, governos, secretarias é importante, porque queremos dizer: “Temos pensamento sobre tecnologia, temos ação, temos propostas”. Mas também queremos dialogar com quem pode ouvir e incorporar essas pautas nas ações de governo.
No fim do dia, é a política pública que chega na ponta… muitas vezes não chega, mas a ideia é tentar fazer incidência para algum tipo de transformação. Se não, é chover no molhado.
“Hoje mesmo tracei uma linha do tempo sobre políticas públicas de inclusão digital e vimos como raça e gênero ainda não estão pautados. Isso precisa estar.”