A baixa representação das mulheres na política brasileira não é fruto do acaso, da falta de interesse ou da ausência de lideranças qualificadas. Ela é resultado direto de um ambiente hostil, violento e excludente, no qual a violência política de gênero se consolidou como estratégia para afastar mulheres dos espaços de poder.
O crescimento do discurso de ódio nos últimos anos — impulsionado pela radicalização política, pela desinformação e pela naturalização da misoginia no debate público — produziu um cenário em que mulheres que ousam disputar poder passam a ser alvos preferenciais. Ataques virtuais, ameaças, perseguições, tentativas de deslegitimação, violência simbólica e material deixaram de ser exceção e se tornaram método.
A violência política de gênero não busca apenas ferir individualmente. Ela tem um objetivo claro: produzir medo, desgaste e desistência, restringindo a participação feminina e preservando estruturas de poder profundamente desiguais.
Do discurso de ódio ao aumento das violências contra mulheres
Esse ambiente não fica restrito à política institucional. O avanço do ódio como linguagem pública tem efeitos concretos e devastadores na vida cotidiana das mulheres. O aumento da violência doméstica, dos abusos e dos feminicídios é parte do mesmo processo de desumanização.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que o feminicídio segue em patamares alarmantes. Em média, quatro mulheres são assassinadas diariamente, em contextos de controle e violência continuada. Quando o discurso público normaliza o ódio, a violência se legitima em todas as esferas.
A política e a vida privada não estão desconectadas. Quando mulheres são atacadas, ridicularizadas e silenciadas no espaço público, isso reforça a ideia de que seus corpos, vozes e decisões podem ser controlados também no espaço doméstico.
Sub-representação feminina: um déficit democrático produzido pela violência
O Brasil segue entre os países com menor presença de mulheres nos parlamentos e nos cargos executivos. Esse dado não revela uma falha das mulheres, mas um fracasso do sistema político em garantir condições mínimas de participação democrática.
A violência política de gênero atua como uma barreira concreta à entrada e à permanência das mulheres na política. Muitas desistem antes mesmo de disputar uma eleição; outras têm seus mandatos atravessados por ameaças constantes, adoecimento psicológico e isolamento institucional.
Trata-se de um ataque direto à democracia. Não há pluralidade sem mulheres. Não há representação real quando o medo define quem pode ou não ocupar o poder.
Economia, orçamento e poder: por que mulheres decidem menos
A exclusão política das mulheres também se expressa na forma como o orçamento público é decidido. Dados do IBGE mostram que as mulheres seguem ganhando menos, acumulam jornadas de cuidado e estão mais expostas à precarização do trabalho. A dependência econômica é um dos principais fatores que sustentam ciclos de violência.
Quando mulheres estão fora dos espaços de planejamento, orçamento e decisão, políticas públicas deixam de responder à realidade da maioria da população. Combater a violência política de gênero é, portanto, também disputar um projeto de desenvolvimento.
Não há enfrentamento real à violência sem investimento público, políticas estruturantes e compromisso com autonomia econômica.