76% das mulheres já sofreram algum tipo de violência no trabalho, o que contribui para um cenário de impunidade e risco constante para quem simplesmente tenta assegurar o próprio sustento
Casos de agressão, racismo e até feminicídio no ambiente de trabalho não são episódios isolados no Brasil. Eles refletem uma realidade mais ampla vivida por mulheres em todo o país. Um levantamento divulgado em 2020 pelo Instituto Patrícia Galvão mostra que 76% das mulheres já sofreram algum tipo de violência no trabalho, como xingamentos, ameaças, assédio sexual ou agressões físicas.
O estudo também aponta que 12% das entrevistadas relataram ter sofrido assédio sexual ou estupro no ambiente profissional, e 4% foram vítimas de agressões físicas. Além da violência direta, a pesquisa evidencia a impunidade como regra: em apenas uma parte dos casos denunciados houve punição aos agressores, e muitas mulheres sequer sabem se alguma medida foi tomada. Esse cenário contribui para o silêncio, o medo e o adoecimento, levando inclusive a pedidos de demissão.
Para a advogada Fayda Belo, especialista em crimes de gênero, esse cenário é sustentado por uma cultura que não reconhece o espaço profissional como um lugar pensado para as mulheres, especialmente quando elas ocupam posições de poder. A advogada ressalta ainda que a violência no trabalho não pode ser dissociada de outras formas de desigualdade de gênero.
Segundo ela, o homem que exerce violência dentro de casa muitas vezes é o mesmo que reproduz comportamentos abusivos no ambiente profissional. Sem políticas internas efetivas de prevenção, escuta e responsabilização, as empresas acabam reforçando um ciclo de medo e impunidade, no qual a maioria das mulheres prefere suportar a violência em silêncio a arriscar sua renda, sua reputação ou sua permanência no trabalho.