“Nossa fé é em Jesus, e não nos líderes religiosos” diz Andressa Oliveira, membro do primeiro Comitê de Evangélicas da Marcha das Mulheres Negras

22 de janeiro, 2026 Gênero e Número Por Laila Nery

Na 2ª Marcha das Mulheres Negras, pela primeira vez, um comitê inteiro foi formado por mulheres negras evangélicas. A frente reúne batistas, metodistas, assembleianas, luteranas, anglicanas, pentecostais e neopentecostais para disputar narrativas dentro da própria fé. Entre elas, está Andressa Oliveira, ativista de direitos humanos, militante antirracista do Movimento Negro Evangélico do Rio de Janeiro (MNE-RJ), evangélica de esquerda e estudante de Teologia.

O comitê publicou um manifesto em que se apresenta como um coletivo diverso, formado por mulheres de diferentes idades, tradições cristãs e regiões do país. Elas reivindicam a fé como território político, espiritual e de resistência. O documento ressalta que o corpo negro feminino é território sagrado, memória de resistência e promessa.

Para essas mulheres, a espiritualidade não é dissociada da experiência concreta: nasce do corpo que dança, ora e luta, e se manifesta na vida cotidiana de mães, filhas, pastoras, teólogas, trabalhadoras, cuidadoras e intelectuais. Ao nomear o silenciamento imposto por estruturas racistas e patriarcais — inclusive dentro das igrejas —, o manifesto reivindica justiça de gênero e raça dentro e fora dos espaços religiosos, além de reparação histórica pelas violências sofridas.

Entre as denúncias centrais, está o impacto do racismo estrutural sobre a vida das mulheres negras evangélicas. O texto aponta a precarização do trabalho, as jornadas múltiplas, a falta de políticas públicas básicas, como creches e escolas, e a insegurança alimentar como expressões de um modelo que mantém mulheres negras na base da pirâmide social.

Soma-se a isso a violência doméstica, a exploração do trabalho religioso sob o disfarce do voluntariado e a política de segurança que segue produzindo mortes e luto nas famílias negras.

Representando não só a si mesma, mas a centenas de mulheres reunidas desde agosto, Andressa ergue uma voz que desafia a ideia de que existe pensamento único no campo evangélico. Em uma conversa com a Gênero e Número, logo após o início da Marcha, ela fala sobre fé, política, violência religiosa e de gênero, e sobre o trabalho de orientar mulheres que foram ensinadas, por leituras distorcidas da Bíblia, a se calar diante de abusos.

Com coragem e convicção, ela reafirma que essas mulheres não estão sozinhas, não são poucas e não devem submissão a lideranças que usam a religião para controlar seus corpos e vidas. “Eles não mandam na nossa fé”, diz. E é com esse ideal que Andressa marcha para ampliar o comitê, fortalecer vínculos e disputar, de dentro, os sentidos da fé que move tantas mulheres negras no país.

Ao longo do manifesto, as mulheres negras evangélicas rejeitam a falsa escolha entre fé e negritude. “Nossa fé não é contrária à nossa negritude — ela nasce dela”, afirmam as integrantes do Comitê no documento. A defesa do Bem Viver aparece como expressão do Reino de Deus, associada ao cuidado com a terra, os corpos e as comunidades, e ao compromisso com uma vida livre da violência racial e social. A marcha, nesse sentido, é apresentada como chamado profético e ação concreta: enquanto houver injustiça, a fé seguirá em movimento.

Você disse que está na Marcha representando outras mulheres negras evangélicas. O que significa ocupar esse lugar?

Andressa Oliveira: Nós somos mulheres que já estamos na luta dos movimentos de mulheres, enfrentando o racismo e lutando por direitos. É muito importante estarmos aqui unidas e identificadas, porque é um contraponto ao processo que tenta dizer ao país que existe uma unanimidade no pensamento dos evangélicos – não existe.

Querem fazer parecer que todos concordam com a tentativa de submeter o país inteiro a um poder estabelecido usando a religião, sufocando outras religiosidades, outras identidades, tentando retroceder nos direitos das pessoas LGBTQIA+, de outras religiões e das pessoas pretas. Existe um discurso de negação do racismo, e nós somos a reação a isso.

A verdade é que sempre estivemos aqui, mas agora nos colocamos enquanto mulheres negras evangélicas para dialogar e lutar. Eles não mandam em nós — nem na nossa fé. A nossa fé é em Jesus, e não neles [líderes religiosos].

De qual congregação você faz parte?

Andressa Oliveira: Sou da Igreja Batista. Mas temos irmãs da Assembleia de Deus, da Congregação Cristã do Brasil, metodistas, batistas, luteranas, anglicanas, e neopentecostais. Somos diversas e estamos unidas para lutar.

Quantas mulheres fazem parte do comitê?

Andressa Oliveira: O comitê só conseguiu se organizar na metade de agosto, então tivemos pouco tempo para alcançar muita gente. Hoje, no grupo, somos cerca de 150 mulheres, o que para nós já é um sinal importante. A partir daqui, queremos continuar esse trabalho e agregar ainda mais mulheres à luta e ao diálogo.

Acesse a entrevista no site de origem.

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