Prevenir a violência letal contra as mulheres exige informação, políticas públicas eficazes e responsabilidade institucional.
O feminicídio não começa no dia do assassinato. Ele é o desfecho extremo de uma sequência de violências que, na maioria das vezes, foram visíveis, denunciadas e previsíveis. Se queremos salvar vidas, precisamos agir antes, com informação, políticas públicas eficazes e responsabilidade institucional. Este é um chamado direto aos gestores públicos e à sociedade civil.
A primeira barreira contra esse tipo de crime é levar todos os sinais de violência a sério. Agressões verbais, controle excessivo, ameaças, perseguição, isolamento social e violência psicológica não são conflitos privados nem “brigas de casal”. São alertas claros de risco. Quando esses sinais são relativizados, a violência escala.
A segunda providência é garantir acesso rápido e efetivo à proteção. Medidas protetivas precisam ser concedidas com agilidade, fiscalizadas de forma contínua e acompanhadas por uma rede de apoio real. Nenhuma mulher pode sair de uma delegacia apenas com um papel na mão. Ela precisa de orientação jurídica, suporte psicológico e, quando necessário, acolhimento em local seguro.
É indispensável fortalecer a rede de atendimento. Delegacias especializadas funcionando 24 horas, casas de acolhimento em condições dignas, equipes multidisciplinares e articulação entre saúde, assistência social, segurança pública e justiça salvam vidas. Onde essa rede falha, o risco aumenta.
Outra frente decisiva é produzir e divulgar dados confiáveis. Sem informações sobre violência doméstica, tentativas de feminicídio, reincidência e descumprimento de medidas protetivas, não há diagnóstico nem prevenção. Invisibilizar dados é perpetuar a violência. Gestores públicos precisam tratar a informação como política de proteção.
Também é fundamental responsabilizar os agressores desde os primeiros episódios. A impunidade, seja pela demora do sistema, seja pela banalização da violência, autoriza a continuidade das agressões. Programas de responsabilização e acompanhamento de homens autores de violência são parte da prevenção.
Outro eixo fundamental é a conscientização e responsabilização dos homens. Falar sobre feminicídio não pode ser um debate restrito às mulheres. É preciso dialogar diretamente com homens adultos, questionar padrões de masculinidade baseados no controle, na posse e na violência, e investir em políticas educativas que promovam relações baseadas no respeito.
Esse trabalho precisa começar cedo. Escolas são espaços estratégicos para construir uma cultura de igualdade, ensinar resolução não violenta de conflitos, educação emocional e respeito às mulheres. Trabalhar esse tema com jovens é prevenir assassinatos no futuro.
A sociedade como um todo — famílias, instituições, mídia e poder público — tem responsabilidade, mas esse compromisso só se sustenta com vontade política, metas claras e orçamento.
O enfrentamento da violência contra as mulheres não pode ser tratado como pauta secundária nem restrito a datas simbólicas: é uma política de vida ou morte. Exige prioridade governamental, planejamento intersetorial, recursos permanentes, formação contínua dos profissionais da rede, transparência e avaliação sistemática dos resultados. Campanhas pontuais não substituem políticas públicas estruturadas.
À sociedade civil cabe não silenciar, acolher, orientar e denunciar. Às instituições, compete agir com rapidez, articulação e compromisso. O feminicídio é um problema público, social e político, não individual. Cada vida salva é resultado de uma rede que funcionou. Cada morte anunciada expõe falhas que precisam ser corrigidas.
Por isso, prevenir o feminicídio significa agir antes. Implica proteger, ouvir, acolher e intervir a tempo, mas também romper com uma cultura que naturaliza a violência contra as mulheres e legitima o controle, o ciúme e a agressividade masculina.
Esse enfrentamento demanda uma mudança estrutural. Não basta agir quando a violência já explodiu. É necessário investir em educação para a igualdade, em políticas de cuidado, em campanhas permanentes que dialoguem com homens e meninos, e em espaços de escuta que permitam intervir antes que a violência se transforme em morte.