Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, o que se rompe não é apenas uma vida individual, mas o pacto mínimo de convivência que sustenta o próprio conceito de civilização
Há crimes que chocam. Outros, mais inquietantes, repetem-se com tamanha frequência que passam a compor o pano de fundo da vida social. O feminicídio pertence a essa segunda categoria. Não porque tenha perdido sua brutalidade – ao contrário –, mas porque sua recorrência expõe algo ainda mais grave: a existência de um sistema que normaliza a violência contra mulheres como resposta última à sua autonomia.
No Brasil, essa recorrência não é abstrata. Ano após ano, milhares de mulheres são assassinadas em contextos marcados por vínculos afetivos, relações de dependência e histórico de violência prévia. Os dados oficiais indicam que essas mortes atingem de forma desproporcional mulheres negras, pobres e periféricas, revelando que o feminicídio não se distribui ao acaso, mas segue a lógica das desigualdades estruturais que organizam a sociedade brasileira.
A cada novo caso, a sociedade parece oscilar entre indignação momentânea e retorno rápido à rotina. Essa oscilação não é neutra. Ela revela a dificuldade coletiva de reconhecer que o feminicídio não é um desvio isolado, fruto de indivíduos “monstruosos”, mas a expressão extrema de um sistema social profundamente articulado, que entrelaça patriarcado, desigualdade, racismo, colonialidade e crise das masculinidades.
A violência como linguagem social
O feminicídio não nasce no momento do crime. Ele é gestado lentamente, no cotidiano, em relações marcadas pelo controle, pelo ciúme naturalizado, pela posse travestida de amor e pela tolerância social à agressividade masculina. Trata-se de uma violência pedagógica, aprendida e reproduzida, que encontra respaldo em tradições culturais, discursos religiosos, narrativas midiáticas e silêncios institucionais.
Nesse sentido, a morte não é um acidente. Ela é o ponto final de uma escalada previsível, muitas vezes anunciada, ignorada ou minimizada. Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, o que se rompe não é apenas uma vida individual, mas o pacto mínimo de convivência que sustenta o próprio conceito de civilização.
Patriarcado, colonialidade e desigualdade: uma engrenagem comum
Essa violência incide de forma desigual sobre os corpos. No Brasil, mulheres negras, pobres e periféricas figuram como as principais vítimas, evidenciando que gênero, raça e classe não são camadas adicionais do problema, mas seu eixo estruturante.
O patriarcado, longe de ser uma herança cultural abstrata, opera concretamente na organização do poder, do trabalho, da renda e do valor social atribuído às vidas. A colonialidade reforça essa lógica ao hierarquizar corpos, territórios e existências, enquanto a desigualdade econômica aprofunda relações de dependência que dificultam a ruptura de vínculos abusivos.
O feminicídio, assim, não pode ser compreendido como um problema restrito à segurança pública. Trata-se de um fenômeno social total, que atravessa saúde, assistência social, educação, cultura, trabalho e justiça, exigindo respostas que ultrapassem compartimentos institucionais e abordagens fragmentadas.
Reconhecer essas múltiplas dimensões ajuda a compreender não apenas a persistência do feminicídio, mas também os limites das respostas que vêm sendo construídas para enfrentá-lo.
Os limites da resposta exclusivamente punitiva
O avanço legal representado pela Lei Maria da Penha e pela tipificação do feminicídio foi – e segue sendo – fundamental. No entanto, a centralidade quase exclusiva da resposta penal revela seus limites. A punição, por mais necessária que seja, chega tarde: quando a violência já se consumou.
Sem políticas robustas de prevenção, cuidado e transformação cultural, o sistema jurídico atua como contenção posterior, não como mudança estrutural. Apostar apenas no endurecimento penal é tratar o sintoma, não a causa.