País precisa rever modelo de rastreamento do câncer de colo do útero para alcançar mais mulheres de alto risco, por Angélica Nogueira e Andrea Gadelha Guimarães

06 de fevereiro, 2026 The Conversation Por Angélica Nogueira e Andrea Gadelha Guimarães

No dia 4 de fevereiro celebrou-se o Dia Mundial do Câncer, movimento liderado pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), com aval da OMS. Por isso, o The Conversation Brasil publica esta semana uma série de artigos exclusivos sobre o assunto, assinados por grandes especialistas brasileiros em oncologia.

O câncer do colo do útero permanece como um dos maiores paradoxos da saúde pública brasileira. É uma doença com causas bem conhecidas, tecnologias eficazes de prevenção e rastreamento disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e uma meta global de eliminação definida pela Organização Mundial da Saúde. Porém, o Brasil registra cerca de 17 mil novos casos por ano e entre 7 mil e 8 mil mortes anuais. Esses números não decorrem da ausência de recursos, mas de falhas persistentes na organização do cuidado, na comunicação com a população e na capacidade do sistema de alcançar justamente as mulheres em maior risco.

No mundo, o câncer do colo do útero é a quarta causa de câncer entre mulheres; no Brasil, é a terceira. O país mantém há cerca de 50 anos um programa nacional de rastreamento baseado no exame citopatológico, o Papanicolau. Esse esforço reduziu a incidência da doença, mas teve impacto limitado na mortalidade.

Na prática, o rastreamento beneficiou sobretudo mulheres que já acessavam regularmente os serviços de saúde, enquanto aquelas que nunca realizaram prevenção seguem chegando aos hospitais com doença avançada. São essas mulheres que continuam morrendo.

A persistência da mortalidade por câncer do colo do útero indica que o problema não está no desconhecimento da doença, mas na forma como as estratégias de prevenção têm sido implementadas. O modelo adotado até aqui tem mostrado capacidade limitada de atingir populações mais vulneráveis, especialmente mulheres que enfrentam barreiras sociais, territoriais e institucionais para acessar os serviços de saúde.

Ao longo de décadas, o rastreamento baseado no Papanicolau conseguiu reduzir a incidência da doença, mas falhou em alterar o padrão de mortalidade, justamente por não alcançar aquelas que nunca realizaram prevenção.

Nesse contexto, a incorporação do teste de DNA do HPV ao SUS, aprovada em 2023, representa uma inflexão importante na política de rastreamento do câncer do colo do útero. Diferentemente do Papanicolau, que detecta alterações celulares já causadas pelo vírus, o novo teste identifica a presença do HPV de alto risco antes do surgimento das lesões, permitindo estratificar risco e acompanhar de forma mais intensiva as mulheres com maior probabilidade de desenvolver a doença.

As mulheres que o rastreamento ainda não alcança

Após projetos-piloto realizados em capitais como Recife, o Ministério da Saúde iniciou, em 2024, a fase de implementação gradual do teste, com previsão de expansão progressiva para todos os estados até 2026. Trata-se de uma tecnologia mais sensível, que permite ampliar o intervalo entre exames quando o resultado é negativo e viabiliza a autocoleta, ampliando o alcance em territórios historicamente desassistidos.

A base da prevenção do câncer do colo do útero continua sendo a vacinação contra o HPV, vírus presente em cerca de 99% dos casos. A vacina está disponível gratuitamente no Brasil desde 2014, é segura, eficaz e capaz de prevenir a maior parte dos tumores associados ao HPV quando aplicada antes do início da vida sexual. Ainda assim, a vacinação não elimina o risco para as gerações de mulheres adultas já expostas ao vírus, o que reforça a centralidade do rastreamento como estratégia complementar e indispensável.

Para essas mulheres, o rastreamento segue sendo decisivo. No entanto, a simples substituição de uma tecnologia por outra não garante impacto populacional. A incorporação do teste de DNA do HPV só produzirá resultados se vier acompanhada da organização do cuidado, busca ativa das mulheres nunca rastreadas, integração dos sistemas de informação e comunicação clara sobre a importância do exame. Sem isso, o risco é repetir, com uma nova ferramenta, as limitações observadas nos últimos 50 anos.

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