Nos últimos 5 anos, os feminicídios e as tentativas de feminicídio cresceram, respectivamente, 13,5% e 124,6% no Brasil.
Precisamos conversar.
Nas últimas semanas, circularam diversas notícias sobre feminicídio no Brasil, crime cuja motivação é o gênero, ou seja, quando mulheres são mortas simplesmente pelo fato de serem mulheres. Os casos de Catarina Karsten, 31, estuprada e morta quando ia para a aula de natação em Florianópolis (SC), e o de Odara Victor Moreira, 28, assassinada a facadas pelo ex-companheiro Lucas Cherobim Ferreira de Souza, em Curitiba (PR), são alguns dos que ganharam destaque recentemente.
Vale notar que, de modo geral, os homicídios no Brasil apresentaram uma tendência de queda de cerca de 24% nos últimos 5 anos, enquanto, no mesmo período, os feminicídios e as tentativas de feminicídio cresceram, respectivamente, 13,5% e 124,6%.
Para se ter dimensão da gravidade do assunto, a edição de 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública relatou 1.492 feminicídios (sendo 63,6% mulheres negras), 95.026 casos de perseguição (stalking) e 257.659 casos de violência doméstica. Este último número é tão elevado que se aproxima do total da população de municípios como Chapecó (SC), ou São Carlos (SP). No mesmo ano de referência, o Brasil chegou ao terrível marco de 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável (o maior da história, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública).
Precisamos lembrar que esses dados se tratam somente de registros oficiais, em um contexto no qual muitos desses episódios são subnotificados. Qual será o tamanho real dessas “cidades”, que vêm crescendo a cada ano?
Há quem argumente que as estatísticas de violência contra a mulher aumentaram porque antes não se denunciavam essas agressões. Em alguma parcela, isso é verdade. Todavia, tem sido constatada a escalada de discursos de ódio e o crescimento de movimentos extremistas, em contraposição aos avanços dos direitos das mulheres e de outras minorias políticas.
Esse movimento reacionário teria contribuído para o aumento real da violência contra a mulher, não apenas no Brasil, como observa o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Embora as notícias sejam numerosas e chamem a atenção pela crueldade dos autores, poucas convidam a uma reflexão mais aprofundada sobre o assunto. Para pensar sobre esse cenário, no entanto, é preciso ir além das estatísticas. É necessário falar sobre os meninos.
Um retorno à infância
Não é difícil perceber que o Brasil é um país extremamente perigoso para as mulheres1. Basta digitar “feminicídio” em sites de notícia para verificar que diariamente ocorrem esses crimes. O feminicídio é o ápice, ou o ponto final de uma série de violências pelas quais as mulheres passam desde a infância.
Desde muito novas, as meninas precisam desenvolver mecanismos e costumam ser ensinadas sobre medidas de segurança para tentar escapar das formas mais conhecidas de violência de gênero: estupro, assédio e o feminicídio.
Isso envolve pensar na roupa que se veste, na forma de se portar, por onde e em quais horários se pode ou não circular sozinha (ou sem a companhia de homens), o compartilhamento de rotas com outras pessoas, em quem confiar ou de quem desconfiar, entre tantas outras orientações constantemente reforçadas.
Se você é mulher, é muito provável que já tenha trocado de roupa, mudado uma rota ou deixado de ir a algum lugar por conta do medo de ser assediada ou estuprada. Se você não deixou de ir, é muito provável que tenha permanecido “em alerta” durante boa parte do tempo. Por outro lado, se você é um homem heterossexual, a chance de que você tenha precisado se preocupar com isso é bastante remota.
Em alguns grupos, embora essa conversa não esteja tão disseminada, fala-se sobre como reconhecer sinais de relacionamentos abusivos, as chamadas “bandeiras vermelhas” (red flags). Este é um tópico relevante, porque a violência de gênero não é só física ou sexual, e, na maioria das vezes, ela não vem de desconhecidos. A violência pode se manifestar de formas mais sutis, pelo menos no início. Ela pode ser psicológica, moral, financeira. Pode vir de homens que não aparentam, em princípio, serem agressores potenciais. Sobre os sinais de alerta e sobre aprender a nomear as violências, ainda se conversa pouco com as crianças e adolescentes.
O ponto é que, desde pequenas, as mulheres são forçadas a se preocupar com a própria segurança, bem como a de outras mulheres. Em contraste, enquanto o medo de sofrer violências motivadas por gênero acompanha as mulheres do início ao fim, há homens que passam a vida sem sequer ter conhecimento de todas as precauções e privações impostas às mulheres no Brasil.
A linha entre o cuidado e a restrição é tênue. Até que ponto a preocupação em nos mantermos seguras não nos afasta ou até mesmo nos retira de espaços públicos e privados nos quais deveríamos ter e sentir a liberdade de estar? Em que medida essas limitações não nos distanciam mais, pouco a pouco, dos lugares que deveríamos poder ocupar?
Não se trata, de forma alguma, de dizer às mulheres que elas deveriam se expor a situações nas quais se sintam inseguras, e sim de nos questionarmos por que essas situações são consideradas inseguras. Mais do que isso, trata-se de compreender que é evidente que a redução da violência contra mulher não deveria ser delegada ao comportamento da vítima, e sim ao de seus agressores reais ou potenciais.
Ser alvo de violência e receber toda a responsabilidade por evitá-la, ou toda a culpa quando ela acontece, é uma enorme, cruel e sistemática agressão.
A violência não é inerente ao gênero: é preciso olhar para a socialização
Na edição de 2025, o Anuário Brasileiro da Segurança Pública constatou que os homens não apenas cometeram 97% dos feminicídios com autoria identificada, como também foram os autores de 91,5% das mortes violentas intencionais (MVI) de homens no Brasil. Ora, se os responsáveis pelas mortes de mulheres e de homens (ainda que, no segundo caso, com motivações distintas do gênero) são os homens, é preciso olhar para eles e nos questionarmos como chegam a esses extremos e o porquê. O que faz com que o comportamento dos homens seja estatisticamente tão distinto do das mulheres, no que se refere à violência?
Coloquemos o foco sobre os meninos, mas sem cairmos na armadilha da naturalização das formas de agir. A violência não é inerente ao gênero. Diante disso, as perguntas-chave são: como os meninos estão sendo criados e socializados? De que maneira eles entram — se entram — em contato com essas temáticas? Como são ensinados a se relacionar com mulheres, seja em contextos amorosos, profissionais, familiares ou de amizade? Como veem seu papel em situações de violência contra a mulher, mesmo quando não são os agressores? Quais modelos de masculinidade têm sido propagados nesta conjuntura de escalada de discursos de ódio e do conservadorismo?
Um equívoco comum é direcionar estas perguntas à mãe, ou aos cuidadores diretos da criança. É certo que existem influências dessas pessoas na forma pela qual as crianças são apresentadas ao mundo, porém é uma simplificação grosseira pensar que a visão de mundo e a forma de se colocar em sociedade é condicionada exclusivamente pelo núcleo familiar.
Não existem soluções simples para problemas complexos: este é um problema coletivo, no qual a responsabilidade também é coletiva. A comunidade na qual esses meninos estão inseridos é a grande responsável por eles.
Isso abrange a influência da escola, do governo, das igrejas, da família, dos amigos e colegas, dos espaços de convivência e, progressivamente mais, das redes sociais.
A visão da comunidade foi o fio condutor adotado por Stephen Graham e Jack Thorne, roteiristas da premiada série britânica “Adolescência” (2025), na qual acompanhamos um garoto de 13 anos acusado de ter assassinado a facadas uma menina de sua escola.
Em entrevistas, Graham explicou que a série surgiu do incômodo ao notar, nos noticiários, a frequência de homicídios brutais cometidos por garotos cada vez mais jovens contra meninas na Grã-Bretanha. Sua intenção era trazer o assunto à tona e discutir a responsabilidade da comunidade nesses crimes, atentando para o fato de que precisamos encará-los enquanto sociedade e como um fenômeno coletivo, pois esses assassinatos não são eventos isolados.