Feministas sob ataque na internet: quando o ódio vira algoritmo

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Foto: Freepik

11 de fevereiro, 2026 AzMina Por Natali Carvalho

De ameaças de morte à censura automatizada, enquanto plataformas lucram, mulheres pagam o preço por ocupar o espaço digital

  • Feministas sofrem ameaças, perseguições e censura enquanto plataformas lucram com conteúdos misóginos que geram engajamento e raramente são responsabilizadas;
  • Denúncias em massa e moderação automatizada derrubam conteúdos feministas, por outro lado os discursos de ódio permanecem ativos e amplificados;
  • Especialistas defendem transparência e regras claras para que plataformas parem de reproduzir desigualdades e enfraquecer o debate público e os direitos das mulheres.

A internet amplifica as vozes, sejam elas quais forem. E as mulheres feministas frequentemente pagam um preço alto para ocupar esse espaço. Em 2024, a Safernet Brasil recebeu 14.108 denúncias únicas de crimes de ódio, como racismo, intolerância religiosa, neonazismo, LGBTfobia e misoginia — mais de uma denúncia por hora. Nesse cenário, feministas, jornalistas e ativistas se tornaram alvos preferenciais de perseguições coordenadas, ameaças de morte e tentativas sistemáticas de silenciamento.

No mesmo ano, ao menos 137 canais no YouTube dedicados à propagação de ódio contra mulheres foram identificados em levantamento feito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Ministério das Mulheres. O destino do ódio é, principalmente, feministas, mulheres acima dos 30 anos e mães solo.

O caso da ativista feminista Lola Aronovich é um dos exemplos mais extremos desse cenário de misoginia escancarada. Desde que criou o blog Escreva Lola Escreva, ela vem sendo alvo de ataques que extrapolam o ambiente virtual e envolvem ameaças de morte e violência contra ela, a mãe e o marido. Os algozes, os masculinistas a quem chama “mascul”, começaram atacá-la simplesmente por ser feminista.

“Não é uma coisa pessoal, porque eles não me conhecem, nunca me viram, nunca falaram comigo, nem sabem quem eu sou. Eles acham que sabem, mas eles não sabem”, afirmou Lola.

A violência que atravessa a tela

A gravidade das ameaças levou a Polícia Federal a investigar o caso de Lola, em 2015, após mensagens que mencionavam atentados com explosivos caso a ativista não fosse desligada do seu ambiente de trabalho. “Se não fossem essas ameaças terroristas, teria sido só mais uma feminista sendo atacada”, relatou Lola. A perseguição, no entanto, continua até hoje.

Em 2016, um ataque coordenado quase tirou o blog Escreva Lola Escreva do ar. Denúncias em massa resultaram na remoção de conteúdos, no apagamento de imagens e na impossibilidade de publicar novos textos ou receber comentários. Mesmo após seguir todos os procedimentos indicados pela plataforma responsável, Lola não conseguiu reverter a situação. “Eu fiz tudo que o Google mandou, mas ninguém analisou minha resposta. Era só robô”, disse.

Lola iniciou uma campanha na internet — “Google não censura a Lola” — para conseguir seu blog de volta. A mobilização teve uma grande repercussão, e o Google ligou pra ela para resolver a situação. Ela queria um pedido de desculpas público, mas recebeu um não como resposta.

Criado em 2008 a partir da necessidade de falar sobre feminismos, pauta então ausente na mídia tradicional, o blog virou referência ao abordar temas como corpo, gênero e direitos das mulheres. E foi essa visibilidade que também o transformou em alvo de grupos masculinistas organizados. Para Lola, a omissão das plataformas diante desses ataques não é acidental. “As plataformas são cúmplices. Não fazem absolutamente nada.”

Fórum incitava ataques, oferecendo recompensas 

A obsessão por Lola era tamanha que Marcelo Valle Silveira Mello, condenado por crimes de ódio e conhecido por perseguições sistemáticas a mulheres e ativistas, criou um Dogolachan — fórum anônimo — dedicado a ela. O espaço, que ficou ativo por mais de 4 anos, oferecia recompensas para quem a matasse, além de incitar violência contra outras figuras públicas, como o ex-deputado federal Jean Wyllys.

Marcelo chegou a ser preso, mas, após ser libertado, voltou a ameaçar Lola, responsabilizando-a por sua prisão. O fórum foi descoberto em 2014, quando o próprio agressor enviou o link diretamente à ativista.

Foi nesse cenário de ameaças constantes que ela passou a frequentar o fórum para coletar provas. Lola temia que os planos mirabolantes para matar ela e sua família pudessem se concretizar. O processo de documentação, no entanto, levou anos, evidenciando a dificuldade de responsabilização em casos de crimes de ódio no ambiente digital.

Em 2018, foi aprovada a Lei Lola, que surgiu da dificuldade de saber onde denunciar crimes cibernéticos e misoginia. As delegacias tradicionais não tinham conhecimento de internet ou não aceitavam denúncias contra agressores desconhecidos. Embora honrada, ela diz que a lei não está totalmente implementada e que criminalizar a misoginia é crucial para que a Lei Lola e outras legislações sejam eficazes.

Sil Bahia, codiretora da Olabi, organização que pensa e promove a tecnologia e a inovação, alerta: “a misoginia não nasceu com a internet, mas ela ganhou um impacto ainda maior no ambiente digital”. A estrutura das plataformas não é segura e não consegue proteger ativistas, parlamentares e mulheres.

“Essas consequências [dos ataques misóginos] vão muito além da violência direta, porque elas acabam reduzindo também a participação de mulheres dentro desses espaços de quem constrói as estruturas tecnológicas”, analisa Sil.

Censura algorítmica e silenciamento institucional

Casos como o de Lola não são isolados. O ataque massivo que o Portal Catarinas sofreu em 2021 durou cerca de uma semana entre idas e vindas. Além de ser um ato político, por configurar censura e silenciamento, impedindo a publicação de conteúdos e alterando a rotina do portal de jornalismo de gênero, também teve impacto psicológico na equipe.

Paula Guimarães, diretora-executiva do Portal Catarinas, supõe que o ataque estaria ligado a publicações sobre a misoginia e a criminalização do aborto ou a um conteúdo que abordava como a masculinidade valoriza as relações entre homens e subjuga as mulheres.

O perfil do Catarinas no Instagram já foi derrubado após denúncias de que violavam os padrões políticos da plataforma. “A equipe se sente insegura com as redes sociais, principalmente devido às denúncias de que o portal viola os padrões das plataformas”, comentou Paula, destacando que, embora não tenha um estudo sobre isso, “essas plataformas não derrubam conteúdos misóginos e machistas.”

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