O Dia Internacional das Mulheres não é apenas uma data de celebração. Ele marca uma trajetória histórica de mobilização política, reivindicação de direitos e enfrentamento às desigualdades que atravessam a vida das mulheres em diferentes dimensões, mas ela não se encerra nesse dia.
Ao longo das últimas décadas, avanços importantes foram conquistados. Políticas públicas, marcos legais e mudanças institucionais ampliaram a proteção de direitos e contribuíram para tornar visível uma realidade que por muito tempo foi tratada como assunto privado: a violência contra mulheres.
Ainda assim, o cenário atual mostra que esses direitos seguem em disputa.
Nos últimos anos, o Brasil tem acompanhado a recorrência de casos de feminicídio, estupro e violência doméstica que mobilizam o debate público e evidenciam a persistência de um problema estrutural. Ao mesmo tempo, assistimos ao fortalecimento de discursos misóginos no ambiente digital. Comunidades online organizadas em torno de ideologias como a chamada “redpill” e outras narrativas antigênero disseminam visões que desumanizam mulheres, relativizam a violência e atacam políticas públicas voltadas à igualdade de gênero.
Esses discursos não se restringem ao espaço virtual. Eles atravessam a política, influenciam debates públicos e alimentam um ambiente social em que a violência contra mulheres pode ser relativizada, justificada ou invisibilizada.
Compreender esse contexto exige mais do que indignação momentânea diante de casos que ganham repercussão pública. Exige investigação, produção de evidências e construção de narrativas capazes de revelar como a violência de gênero se estrutura e se manifesta em diferentes níveis da sociedade.
É nesse ponto que a produção de dados, o jornalismo de dados e a incidência se tornam ferramentas fundamentais.
Na Gênero e Número, trabalhamos há uma década produzindo, analisando e comunicando dados sobre gênero, raça e sexualidade para revelar desigualdades e qualificar o debate público. Nosso trabalho parte do entendimento de que dados não são apenas números: eles são instrumentos para compreender a realidade, disputar narrativas e orientar políticas públicas mais justas.
No campo da violência de gênero, essa produção de conhecimento é particularmente urgente. A violência não se limita ao momento da agressão. Seus efeitos atravessam o corpo, a saúde mental, as relações sociais e as trajetórias de vida das mulheres. No entanto, muitas dessas dimensões permanecem invisibilizadas ou pouco exploradas no debate público.
Por isso, neste mês de março, iniciamos uma nova série de reportagens dedicada a investigar os impactos da violência de gênero no corpo das mulheres. A primeira reportagem da série aborda como a violência doméstica pode atravessar o climatério e agravar processos de adoecimento, revelando uma dimensão ainda pouco discutida quando falamos sobre violência.
Iniciativas como o Mapa Nacional da Violência de Gênero, projeto da GN em parceria com o Senado Federal e o Instituto Natura, nos mostram a extensão dos abusos contra mulheres no Brasil: em 2025, 23,6 milhões de mulheres declararam ter passado por alguma forma de violência doméstica e quase metade disse ter tido sua rotina interrompida pela violência. Nesse mesmo ano, aconteceram quatro feminicídios e 187 estupros por dia.
Se, como mostra a primeira reportagem da série Quando o corpo guarda a violência, esse número gigantesco de mulheres corre o risco de adoecer cronicamente em proporções maiores do que quem não sofreu violência, é preciso encarar os abusos como um problema urgente de saúde pública.
O texto da Lei Maria da Penha, cuja aprovação completa 20 anos em agosto, foi revolucionário não só por tipificar a violência doméstica e familiar como crime, mas por olhar para ela sob óticas diversas. Não se fala só em punição, mas em prevenção por meio da educação, em acolhimento interdisciplinar para as sobreviventes, em reabilitação para que agressores não voltem a incorrer na violência.
No capítulo que trata da assistência às vítimas, a lei ressalta, por exemplo, que a mulher em situação de violência deve ser atendida em caráter prioritário no Sistema Único de Saúde. Mas o que vemos é a manutenção da violência de gênero como um assunto a ser tratado apenas nas delegacias e no Judiciário.
O texto da lei foi aprovado em sua integridade em 2006, mas ainda é preciso trabalhar muito para que as medidas previstas (em especial aquelas que fogem à esfera criminal) sejam postas em prática – e para que se produzam dados capazes de monitorá-las.
Afinal, após quase duas décadas, as bases de dados oficiais já nos mostram estimativas de quantas mulheres sofrem nas mãos de agressores, mas não quantas adoeceram por conta da violência, quantas delas tiveram acesso à assistência psicossocial, quantas meninas e meninos foram educados para reconhecer os sinais de abuso, quantos homens participaram de programas de reabilitação ou quantos deles deixaram de se tornar reincidentes.
“Ao olhar para os efeitos de longo prazo da violência de gênero, nós da GN buscamos ampliar a compreensão pública sobre como ela se inscreve na vida das mulheres, muitas vezes de forma silenciosa e cumulativa.”
Paralelamente, também temos investido em compreender como discursos que alimentam a violência se organizam e circulam no ambiente digital. O Radar Antigênero é uma iniciativa voltada ao monitoramento de narrativas que atacam direitos de mulheres e pessoas LGBTQIA+, identificando padrões de disseminação, atores envolvidos e impactos no debate público.