Pacientes do SUS têm acesso cinco vezes menor a biópsias de colo de útero que rede privada, diz pesquisa

11 de maio, 2026 Folha de S. Paulo Por Karina Matias

  • Estudo da FMUSP analisou dados de 2024 e apontou desigualdades também na concentração de exames de mamografias

  • Levantamento mostra ainda disparidade na realização dos procedimentos entre regiões e estados do país

Um estudo conduzido pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) mostra que pacientes atendidas pelo SUS têm até cinco vezes menos acesso a biópsias de colo do útero do que mulheres que recorrem à rede privada. Há disparidade também na realização de mamografias.

Enquanto no sistema público a taxa de biópsias é de 122,8 exames por 100 mil mulheres de 20 a 69 anos, entre beneficiárias de planos privados, que correspondem a aproximadamente um quarto da população feminina brasileira, esse índice chegou a 625,7. Além disso, em números absolutos, os planos de saúde já são responsáveis por 64,3% de todas as biópsias realizadas no país.

No caso das mamografias, apesar de o SUS seguir, em números absolutos, concentrando a maior parte dos exames feitos no Brasil (57,3% do total), proporcionalmente a rede privada fez 34,6 mil mamografias por 100 mil mulheres de 50 a 79 anos, ante 14,9 mil na rede pública. O levantamento é coordenado pelo professor Mario Scheffer.

Os dados são referentes ao ano de 2024 e foram publicados na revista científica Clinics, veículo oficial da FMUSP e do Hospital das Clínicas. Eles fazem parte do estudo Demografia Médica no Brasil (DMB), realizado há 15 anos.

A pesquisa usou duas fontes oficiais: o Sistema de Informação Ambulatorial (SIA) do Departamento de Informática do SUS (DATASUS) e o Painel Padrão de Troca de Informações da Saúde Suplementar da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar).

Os pesquisadores ponderam que as diferenças entre SUS e rede privada são ainda maiores, já que o levantamento não teve acesso a informações sobre os exames em que pacientes particulares pagam pelo procedimento diretamente para o laboratório.

Além das diferenças entre sistema público e particular, o estudo mostra também disparidade na realização dos exames entre regiões e estados do país.

No Sudeste, por exemplo, foram contabilizadas 23,6 mil mamografias por 100 mil mulheres de 50 a 79 anos, enquanto no Norte foram 9,3 mil.

No caso das biópsias de colo de útero, foram 333,88 procedimentos por 100 mil mulheres de 20 a 69 anos na região Sudeste, ante 97,07 na região Norte.

As disparidades são observadas também na oferta de médicos especialistas em ginecologia e obstetrícia. Segundo o levantamento, o Brasil conta com cerca de 35,5 mil profissionais nessas áreas. No entanto, quase metade do total (46,1%) atua em apenas 16 grandes cidades —todas com população de 500 mil mulheres ou mais.

“O Distrito Federal apresenta a maior concentração de ginecologistas e obstetras (91,96 por 100.000 mulheres), seguido por São Paulo (47,38) e Espírito Santo (46,85). No extremo oposto, destacam-se Maranhão (15,03), Pará (15,34) e Amazonas (20,09) com as menores razões de especialistas por 100.000 mulheres”, diz o estudo.

Para o professor Mario Scheffer, a curto prazo, o problema da desigualdade pode ser minimizado com políticas que desloquem a concentração de exames do setor privado para o público. Ele dá como exemplo de boas iniciativas já adotadas pelo poder público propostas como o Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde, e o Tabela SUS Paulista, do governo de São Paulo.

São programas que são baseados na compra de capacidade do setor privado para atender o setor público. O levantamento dá esse recado: de que existe uma capacidade instalada muito maior no privado, seja com a presença de ginecologistas ou no volume de realização de mamografias e biópsias.”

Já a questão da desigualdade geográfica, o professor avalia que se trata de uma questão estrutural, “ainda mais difícil de ser solucionada”. “Mas ela também precisa ser conhecida e encarada”, afirma ele.

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