Da cirurgia inédita à batalha pelo registro civil, ela marcou a história dos direitos trans em todo o país
Waldirene Nogueira foi a primeira mulher a passar por uma cirurgia de redesignação sexual no Brasil. Nascida em 1945, em Lins, no interior de São Paulo, ela sempre soube quem era, mesmo numa época em que não existia reconhecimento legal nem políticas públicas para pessoas trans.
Apaixonada por cinema e inspirada pela artista francesa trans Coccinelle, umas das primeiras a fazer cirurgia de redesignação, Waldirene procurou pelo procedimento ainda durante a ditadura militar. Em dezembro de 1971, aos 26 anos, passou pela cirurgia de redesignação sexual no Hospital Oswaldo Cruz, em São Paulo. A operação, realizada pelo cirurgião plástico Roberto Farina, é considerada o primeiro do tipo realizado no Brasil e marcou a história da medicina nacional.
Waldirene sofreu perseguição e violências institucionais
O pioneirismo veio acompanhado de perseguição e violência institucional. Após a cirurgia Waldirene enfrentou uma longa batalha judicial para ter sua identidade reconhecida. Além disso, o médico responsável pela sua cirurgia foi condenado a dois anos de reclusão por lesão corporal gravíssima. Seu pedido de mudança de nome também foi negado, obrigando-a a permanecer registrada com o nome morto por décadas.
A violência chegou ao ápice em 1976, quando Waldirene foi levada até o Instituto Médico Legal da capital, a cerca de 400 quilômetros de distância da sua cidade. No local, ela foi fotografada nua e submetida a um exame ginecológico invasivo. Waldirene tinha solicitado um habeas corpus preventivo para evitar a exposição, mas o pedido foi negado pela Justiça.