Segundo dados do Centro Integrado Mulher Segura, 69 das 1.561 pessoas mortas por feminicídio em 2025 eram crianças ou adolescentes.
No início deste ano, Fernanda* preparava o jantar para as duas filhas — uma adolescente de 14 anos, Maria*, e uma criança de 11, Helena* —, no apartamento que havia acabado de receber. O novo endereço, comprado ainda na planta, ficava em Planaltina, no Distrito Federal. Naquele sábado, 17 de janeiro, a assistente administrativa de 38 anos também recebia um amigo de infância, Inácio*, de 28, com quem chegou a ter um breve relacionamento no passado.
“Sempre tivemos contato. Nós morávamos perto e éramos amigos desde pequenos. Ele dormia na casa dos meus pais às vezes, quando criança, e também era amigo do meu irmão”, compartilha Fernanda. Por “situações da vida”, os dois se reaproximaram. Naquela semana, a assistente soube que o rapaz estava tendo recaídas com as drogas e quis ajudá-lo. O combinado era que ele ficaria com a família até segunda-feira, quando iria para uma casa de apoio próxima à residência.
Como o apartamento estava vazio, Fernanda levou colchonetes para ela, as filhas e o amigo passarem o final de semana. À noite, enquanto cozinhava, Inácio ajudava preparando um suco de manga. Quando foram jantar, ela estranhou que ele não chegou a comer ou a beber. Alguns minutos depois, a assistente conta que começou a se sentir sonolenta. As meninas também disseram estar tontas.
Ela pensou que o motivo poderia ser o forte cheiro de tinta. Por isso, abriu as janelas e foi se deitar. Ao acordar, por volta das 5h, a mãe se surpreendeu com a filha mais nova ao seu lado. Fernanda então correu para o quarto onde as duas deveriam estar e encontrou a mais velha deitada. “Chamei duas vezes, mas ela não respondeu. A Maria nunca teve sono pesado. Balancei ela e senti a pele dela gelada nessa hora. Quando virei o corpo, minha filha já estava morta”, lembra.
Mais tarde, a criança mais nova relatou à Polícia Militar do Distrito Federal que foi obrigada por Inácio a sair do quarto onde dormia com a irmã, enquanto ele permaneceu sozinho com a adolescente. A mãe desconfia que o rapaz colocou entorpecentes na bebida para dopar a família.
A equipe policial foi acionada às 6h para prestar apoio ao Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Os socorristas identificaram marcas de estrangulamento no pescoço e sangramento nas narinas da jovem. Além do homicídio, a polícia constatou o roubo de um computador, dois celulares, perfumes e carregadores portáteis. Segundo nota enviada pela Polícia Militar à reportagem da Gênero e Número, Inácio foi localizado e preso no mesmo dia, e a ocorrência foi registrada como feminicídio e roubo.
Segundo a polícia, Inácio “confessou ter estrangulado a vítima, alegando que ela teria tentado impedi-lo de consumir drogas dentro do apartamento”. Atualmente, o caso está em julgamento.
“Tragédia social”

Dados do Centro Integrado Mulher Segura (CIMS), uma iniciativa do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio lançada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), revelam que 1.561 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025. Embora a maioria dos casos esteja concentrada na faixa de 25 a 34 anos (463) — seguida pela de 35 a 44 (398) e pela de 45 a 54 (247) —, 69 eram pessoas menores de idade. Ou seja, 4% do total.
Em outras palavras: a cada seis dias, uma criança ou uma adolescente foi vítima de feminicídio no Brasil em 2025.
Somente até 7 de maio de 2026, 16 dos 384 feminicídios registrados foram contra pessoas com menos de 18 anos. Como mostra a plataforma, dos 69 casos envolvendo meninas menores de idade no ano anterior, quase metade das vítimas (42%) era negra, sendo 26 (37,7%) pardas e três (4,3%) pretas. Jovens brancas representaram 26%, somando 18 ocorrências, enquanto índigenas corresponderam a 1,5%, com apenas um registro. Os outros 21 (30,5%) não tiveram a raça/cor identificada.

Dados do Centro Integrado Mulher Segura (CIMS), uma iniciativa do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio lançada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), revelam que 1.561 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025. Embora a maioria dos casos esteja concentrada na faixa de 25 a 34 anos (463) — seguida pela de 35 a 44 (398) e pela de 45 a 54 (247) —, 69 eram pessoas menores de idade. Ou seja, 4% do total.
Em outras palavras: a cada seis dias, uma criança ou uma adolescente foi vítima de feminicídio no Brasil em 2025.
Somente até 7 de maio de 2026, 16 dos 384 feminicídios registrados foram contra pessoas com menos de 18 anos. Como mostra a plataforma, dos 69 casos envolvendo meninas menores de idade no ano anterior, quase metade das vítimas (42%) era negra, sendo 26 (37,7%) pardas e três (4,3%) pretas. Jovens brancas representaram 26%, somando 18 ocorrências, enquanto índigenas corresponderam a 1,5%, com apenas um registro. Os outros 21 (30,5%) não tiveram a raça/cor identificada.

“Diria que esses são os nossos piores dados. Ainda que sejam poucos, quantitativamente, são muito expressivos de uma tragédia social”, avalia a coordenadora do Departamento de Direito Penal e Processual Penal da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e desembargadora do Tribunal de Justiça do estado, Priscilla Placha Sá.
Em entrevista a Gênero e Número, a pesquisadora observa que a violência feminicida contra crianças e adolescentes negras se estrutura a partir de uma intersecção entre raça, gênero e classe. Nessa relação, “o racismo estrutural mostra a valência diferencial que atinge esse grupo social, para o qual as redes de apoio geral são mais frágeis e até inacessíveis”, afirma.
“As mulheres pretas e pardas, na amostra que mais concentra feminicídios, também responde por uma porcentagem importante e escancara a linha que ascende os dados. Assim, essa violência replica seus números também nas meninas e adolescentes desse grupo pela precariedade e pelo frágil controle parental e da rede de apoio, associado à maior vulneração infantil e adolescente”, continua.
A coordenadora destaca ainda a dificuldade de compreensão, por parte do Judiciário, dos casos de homicídio de crianças e adolescentes como feminicídio, especialmente quando há laços de parentesco entre a vítima e o autor.
“Com essas relações de parentesco internas, costumamos dizer que existe o fenômeno do familicídio (homicídios cometidos por membros da família), até mesmo por conta dessa relação de subordinação de garotas em relação aos seus cuidadores masculinos”, esclarece.
Sá acrescenta que, quando há em conjunto o assassinato da mãe, esse fato acaba sobressaindo no sistema. Ela cita como exemplo um caso em que o suspeito foi denunciado por tentativa de feminicídio de três pessoas, uma mãe e duas filhas, mas apenas uma ocorrência foi notificada como feminicídio.
“Isso é algo que podemos considerar como subnotificação. Quando o caso é isolado, é mais difícil, mas se ele é em conjunto, facilmente pode ser engolido pela forma de produção estatística do sistema”, declara.

Considerando as mortes de crianças e adolescentes por feminicídio no último ano, mais da metade (38) não teve a relação entre vítima e autor identificada. Nos demais registros, a categoria foi preenchida como “companheiro” em oito situações; “pai ou padrasto” em sete; “parentesco” em cinco; “namorado” em cinco; “amigo ou conhecido” em dois; “envolvimento amoroso” em um; “ex-companheiro” em um e “ex-namorado” em um.
O CIMS ainda revelou um caso em que a vítima foi classificada como “filho ou enteado”, relação esclarecida pelo MJSP.
Para Sá, a prevalência de companheiros e responsáveis como autores de crimes de feminicídio contra meninas, nos casos em que a relação com a vítima foi identificada, revela dois dilemas sociais: que a casa não é um lugar seguro e que a violência feminicida atinge tanto essa faixa etária, quanto mulheres com mais de 50 anos.
“O Mapa da Violência de 2012 já mostrava que o risco de morte de crianças e adolescentes é dentro de casa. Naquele momento, revelou uma concentração entre cuidadores e cuidadoras primários. Isso mostra que a violência é uma forma arraigada na sociedade e está no manejo das relações domésticas”, aponta.
Segundo o levantamento, a maioria dos atendimentos por violência física (55%) e sexual (63%) contra vítimas de até 19 anos apontou a residência como principal local de agressão. Com relação ao autor, “pai”, “mãe”, “padrastro” e “madastra”, somados, surgem em 3.176 (45%) dos 6.995 registros de violência física e em 2.388 (38%) dos 6.197 de violência sexual. O documento utilizou dados do Sistema de Informações de Agravos de Notificações (Sinan), ferramenta do Ministério da Saúde (MS), à época.
“Outro fator é a dificuldade de ampliar o conceito de feminicídio para além da violência doméstica e familiar, e sim como discriminação de gênero”, prossegue a desembargadora.
“Atualmente, ainda colocaria um terceiro fator: a machosfera que atinge garotos e meninos e estabelece a violência como ‘tônus’ das relações que ocorrem nos ambientes digitais. Isso tem um efeito rebote na misoginia digital e, ao sair das telas, vitima fatalmente meninas e adolescentes”, alerta.
“Qualquer uma de nós é uma potencial vítima”
Para a coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Silvina Mariano, a ausência de informações sobre o autor do crime na maioria dos casos de feminicídio contra crianças e adolescentes revela uma dificuldade de categorização dos dados.
Ela observa que os números da segurança pública costumam se basear nos boletins de ocorrência. Um dos problemas da classificação policial é que os agentes tendem a identificar a autoria primeiro para depois enquadrar o caso como feminicídio. “Brigamos por isso, já que as diretrizes e os protocolos dizem que a classificação não deve depender do conhecimento prévio da autoria. Geralmente, se não conhecem o autor, não classificam como feminicídio”, pontua.
O feminicídio, complementa a coordenadora, é uma morte evitável, sendo essa uma característica que o separa dos outros tipos de homicídios. Diferentemente dos assassinatos relacionados à violência urbana, interpretados como “fatalidades” ou “oportunidades” para o crime, Mariano explica que os feminicídios ocorrem em contextos de vínculos duradouros entre a vítima e o agressor.
“Há um contínuo de violência que vai escalando diferentes graus de risco, até chegar no feminicídio. Geralmente, não é uma violência que aparece de uma hora para outra”, avalia. Dados disponibilizados no Mapa Nacional da Violência de Gênero [iniciativa da Gênero e Número, do Senado Federal e do Instituto Natura] reforçam a análise. A plataforma revela que 2.511.703 casos de ameaça e 1.357.412 de lesão corporal contra mulheres entre 2020 e 2025.
Houve uma diminuição de registros a partir de 2023, que contabilizou 514.422 crimes de ameaça e 262.647 de lesão corporal, enquanto 2024 somou 509.938 e 254.262. No ano passado, foram 292.270 ameaças e 153.233 lesões, sendo esses os menores valores desde 2020. Os números são provenientes da Base Nacional de Boletins de Ocorrência (BNBO) e do Validador de Dados Estatísticos (VDE) do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública.
Ainda de acordo com dados disponibilizados no Mapa, ocorreram 9.707 feminicídios de mulheres com até 60 ou mais anos nesse período. Mariano apresenta esse fenômeno como um tipo de assassinato motivado exclusivamente pela desigualdade de gênero. Por essa razão, também defende que não existe um perfil único para as vítimas, mas uma condição de gênero em comum. “Qualquer uma de nós é uma potencial vítima de feminicídio. No entanto, as diferentes situações e condições sociais modulam esses riscos”, ressalta.
A pesquisadora destaca que estar em situação de vulnerabilidade social e econômica é um elemento importante, já que os recursos para proteção da vítima são mais limitados. Em situações envolvendo crianças ou adolescentes, ela ainda aponta para a violência sexual, que considera um dos requisitos para a morte ser compreendida como feminicídio.
“Evitamos falar em um perfil, mas precisamos comentar sobre essa multiplicidade de fatores e como a interseccionalidade das desigualdades produz riscos maiores e menores”, resume.
Vice-diretora de mobilização e divulgação do Movimento de Mulheres em São Gonçalo, Rosângela Maria Sá, conheceu o ex-marido, Walmir dos Santos Francisco, aos 17 anos. Os dois se casaram após quatro anos de namoro. Apesar de diversas tentativas de separação frustradas, permaneceram juntos até 2009, quando Rosângela, aos 41, decidiu romper definitivamente o relacionamento.
“Percebi no que vivi aquilo que a Lei Maria da Penha traz em relação ao ciclo da violência, que pode começar no namoro. Vivi isso durante o relacionamento, mas não tinha nenhuma noção do que estava passando”, comenta, fazendo referência à Lei no 11.340.
A legislação é o principal mecanismo do Brasil para combater e prevenir a violência doméstica e familiar contra mulheres. Promulgada em 2006, ela define cinco formas de violência — física, psicológica, sexual, patrimonial e moral — e garante medidas protetivas de urgência para as vítimas.
“Ele sempre falava que a vida dele não tinha sentido, que ia morrer, que ia virar marginal, que qualquer coisa ruim aconteceria se eu não estivesse mais com ele”, continua.
Meses após a separação, Walmir apareceu sem avisar na antiga casa e foi direto para o banheiro. Ele carregava uma garrafa de plástico com gasolina, que pensaram ser refrigerante. Rosângela achou que ele logo iria embora, mas, ao sair do banheiro, o homem despejou o líquido da garrafa na ex-mulher e acendeu um isqueiro.
A vice-diretora teve 65% do corpo queimado e chegou a passar dois meses internada em estado gravíssimo. O episódio a deixou com diversas sequelas físicas, além de marcas pelo rosto e pelo corpo, já Walmir foi condenado a 26 anos de prisão por tentativa de homicídio. Embora o feminicídio ainda não houvesse sido incluído no Código Penal — o que só aconteceria com a Lei no 13.104 em 2015, atualizada em 2024 —, o caso apresenta todas as características desse tipo de crime.
“Hoje, penso que ele pode ter um desvio de conduta, por sentir atração por meninas com a idade da Maria. Ele já tinha tentado fazer a mesma coisa com outra menina, só que na época não acreditei na história”, retoma Fernanda. “Ele se aproveitou da situação para ter mais acesso [à adolescente], mas as coisas saíram do controle e ele acabou matando ela”, continua.
“O que acredito é que ele tentou abusar dela, só que ela acordou e ele, para não ter nenhum problema, achou que a solução seria matar ela”, denuncia a mãe. Questionada, a Polícia Civil do Distrito Federal informou que não foram constatados sinais de violência sexual durante o exame do Instituto Médico Legal. “O inquérito em referência já foi concluído e encaminhado para a justiça”, encerra a nota.