Qual o limite entre o engajamento viral e a violência de gênero nas redes? Especialistas explicam

02 de setembro, 2026 Marie Claire Por Camila Bucoff

Ao ampliar o alcance, o algoritmo também pode ampliar a exposição à violência. Especialistas explicam o papel das interações, das emoções e dos vieses de gênero na circulação desses conteúdos e os desafios para combatê-los nas plataformas

Júlia Cammy, de 23 anos, construiu uma comunidade no TikTok postando vídeos de maquiagem e esmaltação. Até que, na virada deste ano, seu perfil viralizou por um motivo particular: a roupa que ela usava em uma das postagens evidenciava um pouco mais os seus seios. Mesmo sem ter publicado o vídeo com intenção de sexualização, ela recebeu centenas de comentários obscenos e mensagens provocativas, que chegaram a migrar entre diferentes plataformas.

Hoje, o vídeo publicado soma 9,9 milhões de visualizações e quase 500 mil curtidas. “O conteúdo era voltado para unhas. Até as hashtags que eu usei foram todas relacionadas a esse universo. Não tinha nenhuma intenção além disso”, diz Júlia em entrevista à Marie Claire.

Com a repercussão, ela passou a ser procurada no Twitter e no Instagram por homens que perguntavam se ela teria um perfil no Only Fans – plataforma de conteúdo adulto para a qual ela não produz conteúdo. O assédio a surpreendeu, especialmente porque, na sua avaliação, não havia nada que justificasse esse tipo de associação.

Sua primeira reação foi questionar o que ela poderia ter feito de diferente naquele vídeo e se havia transmitido alguma mensagem equivocada.

O problema é que eu tenho peitos, não o que eu faço com eles. É complicado, porque você acaba caindo naquela falácia de que, se não quer ser assediada, deveria prestar atenção à roupa que está usando”, reflete.

A experiência a fez repensar a forma como se veste. Por um tempo, evitou roupas decotadas e, ainda hoje, prefere não utilizar peças que evidenciam o colo ou tenham decotes muito profundos para gravar vídeos para as redes sociais.

O que faz um vídeo ‘sair da bolha’?

Segundo Carolina Terra, pesquisadora de comunicação e redes sociais e professora na Escola de Comunicação e Artes da USP, um vídeo pode alcançar uma grande repercussão dentro de uma bolha específica, formada por determinado nicho ou público, sem necessariamente viralizar.

Para que isso aconteça, é preciso “furar a bolha”, isto é, ultrapassar a audiência inicial e alcançar outros públicos que também possam se interessar pelo conteúdo. Mas esse processo não ocorre de forma aleatória.

De acordo com a professora, o funcionamento dos algoritmos ainda não é totalmente conhecido, já que as plataformas mantêm em sigilo os critérios utilizados por esses sistemas. Entretanto, é possível compreender que eles analisam comportamentos e padrões de interação dos usuários para selecionar e recomendar diferentes conteúdos.

“Isso significa que a circulação não depende apenas do que foi publicado, mas também da maneira como os usuários reagem ao conteúdo”, explica Terra.

A viralização resulta da interação entre o vídeo, o comportamento das pessoas e a forma como o algoritmo aprende com as reações, segundo Sylvia Iasulaitis, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da UFSCar e do Núcleo de Estudos Sociopolíticos dos Algoritmos e da Inteligência Artificial.

A especialista ressalta que as próprias reações dos usuários ajudam a definir para quem um conteúdo será recomendado. Assim, quando determinados grupos passam a assistir, comentar ou compartilhar intensamente um vídeo, essas interações alimentam o sistema.

Terra acrescenta que conteúdos capazes de provocar emoções como raiva, ódio, surpresa, indignação e revolta tendem a alcançar maior circulação, já que o alto volume de interações sinaliza ao algoritmo que há um forte envolvimento do público com aquele conteúdo ou perfil, levando o sistema a recomendá-lo para mais pessoas.

É importante destacar que atenção e engajamento não significam necessariamente aprovação. Um conteúdo também pode mobilizar pela sexualização, pelo conflito ou pela hostilidade, por exemplo.

É nesse sentido que falamos também em vieses algorítmicos de gênero: padrões sociais de discriminação passam a se refletir também nos padrões de visibilidade e circulação dos conteúdos”, completa Iasulaitis.

Quando a repercussão sai do controle

Entre os comentários do vídeo de Júlia, os que mais chamaram a sua atenção foram figurinhas obscenas, que tinham forte conotação sexual.

Eu me senti muito mal. Me senti suja”, conta.

Ana Clara Lazo, pesquisadora em gênero e especialista no acolhimento de vítimas de violência, explica que o ambiente virtual passa a sensação de um espaço apartado da realidade, como um “não-lugar”.

“Costumamos pensar a internet como um espaço que se encerra quando ficamos offline, mas a realidade é que, em um contexto em que todos estamos permanentemente conectados, a internet se torna também uma dimensão do real”, afirma.

Para Júlia, a quantidade de pessoas reproduzindo os comentários contribuiu para que outras se sentissem à vontade para fazer o mesmo. Além disso, Lazo observa que a sutileza na escalada dificulta o discernimento de jovens que, por vezes, sequer percebem que estão diante de um discurso de ódio, mas passam a legitimá-lo e replicá-lo.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que a sexualização nas redes pode atingir qualquer mulher, inclusive aquelas que não produzem conteúdo com essa intenção. Assim, o fenômeno não se restringe às criadoras de conteúdo de beleza ou moda, por exemplo.

Paola Alves de Souza, historiadora, doutora em psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP e especialista em gênero, passou por uma situação semelhante à vivida por Júlia. Ela conta ter recebido mensagens de assédio após publicar no Instagram um vídeo sobre o resultado de sua cirurgia de afirmação de gênero, no qual utilizava um tom informal. O conteúdo teve 20 mil visualizações.

“Começaram a surgir homens de todos os lugares do mundo me mandando mensagens privadas. Eram coisas horrendas: pessoas dizendo que queriam sair comigo, que queriam me pegar, que queriam não sei o quê”, relembra.
Ela denunciou as mensagens e bloqueou as contas responsáveis pelas abordagens.

“Eu sempre aconselho a denunciar, porque você fica respaldada. Se em algum momento a situação mudar ou se tornar mais grave, você não corre o risco de ouvir: ‘Por que você não denunciou? Por que não reportou?’”, avalia.

Júlia, por outro lado, optou por desativar os comentários e excluir os seguidores que haviam feito manifestações obscenas, sem realizar denúncias formais. O processo levou cerca de 20 dias. A jovem conta que já havia tido problemas anteriores ao tentar acionar o suporte da plataforma, e ficou frustrada com a experiência. “Então, dessa vez nem pensei nisso”, afirma.

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