“Autonomia financeira precisa ser tratada como política de prevenção à violência”, defende educadora Patrícia Marins

08 de setembro, 2026 Gênero e Número Por Mariana Rosetti

Filha de doméstica, a bancária e criadora da comunidade Mulheres Pretas Finanças defende que tirar o agressor de casa não basta: sem renda garantida, a mulher continua exposta.

Em 1989, a grande atração de São Gonçalo (RJ) era o shopping recém-inaugurado. Foi em seus corredores, logo após uma aula de tricô, que um grupo de alunas decidiu esticar o fim de tarde no cinema. Quando Patrícia Marins, aos 16 anos, avisou o namorado sobre o passeio, recebeu como resposta: “Não, você não vai”.

Como ele iria trabalhar cobrando passagem de ônibus naquela noite, determinou que ela também ficasse em casa. Ela desligou o celular, e o relacionamento de poucos meses terminou ali. Sem espaço para barganhar sua liberdade, virou as costas e nunca mais olhou para trás.

Trinta e sete anos depois, o gesto virou método. Formada em matemática, bancária e criadora da comunidade Mulheres Pretas Finanças — um projeto de educação financeira e mentoria focado na autonomia e prosperidade da população negra —, Patrícia transformou em trabalho a lição que aprendeu ainda adolescente.

Aos 53 anos, percorre o país ensinando mulheres negras a construir aquilo que, para ela, é o avesso da submissão: dinheiro próprio e o poder de dizer não.

Quem é a Patrícia e como você se define?

Patrícia Marins: Sou filha da dona Edna Marins, uma mulher negra, doméstica, que eu digo que limpou muito banheiro para que eu pudesse estar aqui agora conversando com você. Ela não me deixou seguir a profissão dela, por mais que eu quisesse, por mais que às vezes eu até a acompanhasse nos trabalhos. Ela sempre falava: “Vai estudar, leva o caderno, leva o livro”.

Sou cria de São Gonçalo, do Jardim Catarina, assim como a Nina Silva [executiva e especialista em tecnologia e inovação] — só não sou tão famosa quanto ela, mas não tem problema, ela é minha referência. O Jardim Catarina já foi o maior loteamento da América Latina e já foi mais afetado pela violência, pelo tráfico, pelas barricadas. Agora, teoricamente, está um pouco melhor, porque não tem barricada, mas a violência continua.

E sou cria da escola pública. Quase 100% da minha vida foi na escola pública, e os únicos dois anos em que não estudei nela só serviram para me atrapalhar. Fui fazer o ensino médio com curso técnico de administração à noite, porque queria trabalhar de dia.

Você é formada em matemática. Por que matemática?

Patrícia Marins: Porque, como a maioria das mulheres pretas e pobres, eu não consegui passar para informática — na minha época era informática, não era tecnologia. Eu sempre fui de escola pública boa, mas nesse ensino médio, eu botei na cabeça que queria trabalhar e fui fazer um curso técnico numa escola particular ruim.

Não passei no vestibular no primeiro ano, fui fazer cursinho. No meio disso, meu pai morreu e não tinha mais dinheiro para pagar. Você é pobre e vai entrar no que der. E o que deu foi matemática, na UERJ. Assim que entrei na faculdade, já comecei a dar aula, e a vida seguiu.

Em que momento a violência contra as mulheres chegou até você? Existe alguma experiência que tenha te marcado a ponto de olhar de forma diferente para a violência de gênero?

Patrícia Marins: Por eu vir de um bairro periférico, uma coisa que me afetou muito foi estar sempre tendo que andar acompanhada, minha mãe indo me buscar no ponto do ônibus às 23h30, quando eu voltava da faculdade. Não era possível andar sozinha, por conta da violência.

E, mesmo hoje, morando no centro do Rio, já aconteceu de eu estar em um domingo na feira, comprando um peixe para o almoço com a criança e o cachorro, e de repente ser barrada por bandido correndo, policial correndo com arma na mão do meu lado, tendo que me esconder sem saber o que ia acontecer.

E, enquanto mulher, eu sempre sofri violências relacionadas à cor da minha pele. De brigar com o motorista do ônibus, porque o cobrador achou que a nota que eu dei era falsa. De brigar para o ônibus parar no ponto, porque ele achava que não tinha que parar para mim. De não poder frequentar determinados lugares, porque as pessoas achavam que eu trabalhava ali, e não estudava. De estar no banheiro de uma universidade pública, com uma blusa escrita UERJ [Universidade Estadual do Rio de Janeiro], e alguém me pedir uma vassoura. Isso também é violência, ainda que não seja física.

Graças a Deus, eu não venho de uma família com violência doméstica. Meu pai não era um homem violento, embora fosse policial militar. Ele morreu quando eu tinha 18 anos, então acabamos sendo uma casa só de mulheres. Com o meu marido também nunca aconteceu. E a violência de fala, eu estou sempre pontuando. Outro dia, ele me perguntou se eu não ia passar a roupa dele. Eu disse: “Eu trabalho igual a você, divido as contas da casa igual a você, faço a comida e ainda tenho que passar a sua roupa? Isso é uma violência, porque aqui é tudo dividido igual”. Eu vou pontuando tudo o que eu acho que não é para acontecer, para que não cresça. E, enquanto mãe de menino, também, né? É um desafio.

Existe um tipo de violência que a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) reconhece, mas quase ninguém nomeia: a patrimonial e financeira. Controle do cartão, dívidas no nome da mulher, artimanhas para sabotar o seu trabalho. Como esses casos chegam até você?

Patrícia Marins: A história começa assim: “Não trabalho, porque tenho crianças, e não tenho com quem deixar. Se eu for trabalhar, o meu salário vai ser todo para pagar a creche, para pagar a pessoa que fica em casa” — porque é sempre o salário da mulher que tem que pagar alguém, nunca o do casal.

Eu sou formada em matemática, fui professora e nunca recusava uma escola para dar aula: “Aqui paga R$ 30 a hora? Não estou fazendo nada, eu vou”. Daquela, eu trocava para outra que pagava 50, 100, 120, 150. Por quê? Porque você vai criando relacionamentos, conhecendo outros lugares. Mas, na cabeça do homem: “Você vai lá para ganhar R$ 100, para ganhar um salário mínimo”. E ela deixa de enxergar que, a partir daquele salário mínimo, ela pode ser promovida, mudar de emprego, receber um novo convite, ver o salário aumentar.

Ele já começa dominando ali. E aí ela entende: “Eu não tenho profissão”, ou “eu me formei, mas nunca trabalhei na área, então ninguém vai me dar oportunidade”.

A violência patrimonial sempre vem junto com a psicológica, com o abalo de que você não vai conseguir outro salário, outro emprego, e a criança vai ficar em casa, e não vai ter comida, não vai ter janta.”

Então, ela conclui: “A minha contribuição é estar aqui em casa”. E ela começa a se diminuir, porque vai pedir um dinheiro e ouve: “Não tenho, porque só eu trabalho, porque só eu pago as contas”.

O argumento de que “o salário vai todo para pagar quem cuida das crianças”, como você pontuou, é uma das principais armadilhas para afastar a mulher do mercado. Você já ouviu essa justificativa ser usada por um homem?

Patrícia Marins: Nunca. Porque o homem pensa: “Eu ganho um salário mínimo, você ganha cinco, mas teoricamente eu sou o provedor”. E as mulheres, às vezes, até escondem da relação a percepção de que ela ganha mais. Você pergunta: “Mas quem paga isso? Sou eu. Quem paga aquilo? Sou eu. Quem paga não sei o quê? Sou eu”. Essa conta não está fechando. A divisão não precisa ser meio a meio, precisa ser proporcional, mas às vezes não está sendo nem proporcional: é ela pagando tudo, ele ganhando o salário mínimo sem abrir mão de nada, e todas as despesas das crianças ficando na mão dela, porque teoricamente o fulaninho ganha menos. Nunca o homem fica em casa para tomar conta da família porque ganha menos. Para o homem, isso é inconcebível.

Essa desigualdade na divisão do cuidado e das contas impede a construção de patrimônio. É a partir desse gargalo que entra o conceito de finanças decoloniais? Por que a educação financeira tradicional e eurocentrada falha com as mulheres negras?

Patrícia Marins: A gente vive em um mundo capitalista: quem tem o dinheiro manda, e quem não tem, obedece. Quando eu falo de finanças decoloniais, é para fazer você entender que a gente não pode viver no consumo pelo consumo, que a gente não precisa só trabalhar para pagar conta, que a gente precisa ter o poder do não.

Quando a gente fala de mulheres negras que têm renda, em sua maioria, elas são as primeiras de tudo da sua família. E elas carregam o peso de “eu preciso ajudar todo o meu quilombo”. E nessa de ajudar todo o quilombo, ela vai distribuindo tudo o que ganha. Ela ascende profissionalmente, socialmente, mas não financeiramente.”

O salário pode ser de R$ 20 mil, mas ela divide com todo mundo e fica com dois, com três. Usa o cartão para um, faz um empréstimo para outro, um consignado, financia um carro, paga um seguro, às vezes um plano de saúde. Vai dividindo a riqueza com o seu quilombo e continua empobrecida. Então, a gente não cria herança. E, se você não cria herança, está fazendo o jogo do colonizador, que é o cara que está te empregando, que está tendo lucro com você, enquanto você só trabalha e paga conta. Você continua no mesmo lugar.

A ideia das finanças decoloniais é entender que nós, mulheres negras e pessoas negras, somos descendentes de reis e rainhas. E, se eu sou descendente de reis e rainhas, eu tenho direito à riqueza. Mas como eu construo essa riqueza? Não é com o cartão de crédito parcelado em 12 vezes. Todo mundo acha que quem tem dinheiro é quem gasta. Não: quem tem dinheiro é quem tem o dinheiro trabalhando para si. Se você entender que, tendo R$ 50 mil aplicados, a rentabilidade que aquilo traz todo mês é uma renda — isso é construção de patrimônio.

E como chegar nesses R$ 50 mil? Reduzindo despesas, sabendo o que eu posso usar com o meu quilombo e o que não posso, qual é o limite dessa ajuda. Para que a gente — mulheres que temos filhos — não se sinta culpada. Porque é com a culpa nas costas que você dá um iPhone 17 Pro Max para o filho, parcelado em 500 milhões de vezes que você não tem.

O capitalismo quer que a gente seja consumista ao extremo. Descolonizar é entender que, quando você abre a rede social e me vê com a mesma roupa várias vezes, é porque roupa foi feita para usar. Ela pode ser linda, maravilhosa e repetida.

Dentro dessa lógica decolonizadora, você argumenta que mulheres negras carregam traumas financeiros intergeracionais e são ensinadas a sobreviver, não a planejar. Como o peso de sentir que precisa “salvar todo o quilombo” agrava esse trauma?

Patrícia Marins: Muitas de nós vêm da escassez. A Viola Davis [mulher negra, atriz e produtora estadunidense] fala sobre isso: “Eu catei comida no lixo, minha casa tinha rato”. É uma dor que ela carrega até hoje, e ela ascendeu profissionalmente, socialmente, ganhou todos os grandes prêmios, e mesmo assim carrega essa dor. Essa dor que você carrega — e, muitas vezes, não fala porque sente vergonha — é revertida em impulso, em consumo exagerado: estou chateada, vou consumir; estou feliz, vou consumir; vou comprar muito, porque não sei se amanhã vou ter.

É muito comum pessoas que passaram em concurso, quando começam a receber o ticket de refeição, fazerem uma compra e não sobrar nada, e ainda terem que inteirar [no valor]. Porque elas pensam na escassez: “Eu nunca tive, então agora eu vou ter, vou gastar, vou gastar, vou gastar”.

E por que isso é intergeracional? Porque às vezes ela não passou [pela escassez], mas a mãe passou, a avó passou. A história é contada, e você vai absorvendo aquele pedaço da história e vê também os seus passando [pela escassez]. Isso faz com que você tenha comportamentos financeiros de sobrevivência.”

E tem também a questão do não merecimento: achar que não merece, que não tem direito. Por ser uma mulher negra, você não quer ir para aquele lugar que só tem branco, acha que aquilo não é para você, mesmo podendo pagar. E, muitas vezes, porque você não pode levar os seus junto, você não vai: “Se eu não posso levar o meu quilombo comigo para uma viagem na praia, então também não vou”. Você se limita a somente sobreviver.

Existe uma falta de letramento financeiro às mulheres?

Patrícia Marins: Existe uma total falta de letramento, junto com uma estratégia mercadológica que diz que mulher é gastadeira. Porque, se você for ver os números, as mulheres são as que mais economizam. São elas que fazem a economia doméstica: quem diz se as compras do mês vão durar são as mulheres. Mas, quando chega no dinheiro, dizem que ela não sabe, que ela não entende. E isso é muito do mercado, que ainda é muito machista.

O comercial de carro está sempre falando com o homem. Ou, quando é um carro para mulher, é um carro para a família. Mas nem todas as mulheres têm família, nem todas têm filhos. “O seu carro tem cadeirinha?”. Não necessariamente: pode ter a caixinha do gato, e não a cadeirinha da criança. Tem a taxa rosa, em que o mesmo produto para a mulher tem um preço e para o homem, outro.

Fora que o homem não precisa fazer a sobrancelha, e a gente precisa; não precisa depilar, e a gente precisa; não precisa ter dois, três tipos de chinelo, e a gente precisa. A gente é muito julgada e apontada o tempo todo, e esse julgamento vai direto para as finanças. Faz as mulheres consumirem.

E eu, enquanto mulher negra — isso está no meu livro “Entre contas, talentos e sobrevivência” —, quando comecei a dar aula de matemática, que paga muito bem, eu ia ao shopping e ninguém me olhava. Então, eu ia com a minha comadre, uma mulher branca, loira, e todo mundo vinha vender para a gente. Ela até brincava: “Mas o dinheiro é dela, não é meu”. E o que eu fazia? Comprava para mim e para ela. Era sempre dobrado. A minha renda já era dividida ali. Não porque ela precisasse, mas porque eu a carregava comigo para conseguir acessar os espaços que eu queria. Porque, se não, não tinha abertura.

Acesse a entrevista no site de origem.

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