Óculos inteligentes nos deixam ainda mais vulneráveis a violências, enquanto maximizam a transformação de nossos dados em lucro
Em seus estudos sobre capitalismo de vigilância, Shoshana Zuboff (2019) apresenta oito definições para o termo, sendo o primeiro: “1. Uma nova ordem econômica que reivindica a experiência humana como uma livre matéria-prima para práticas comerciais de extração, produção e venda de forma oculta” (livre tradução minha). Trago essa definição para o debate sobre os polêmicos óculos inteligentes da Meta. É uma nova camada do big data, a matéria-prima (nossos dados) é a mesma, mas muito melhor capturada, armazenada, comercializada e amplamente exposta, enriquecendo ainda mais a indústria dos “tech bro”.
A linguagem publicitária é feita da sedução. Foi assim com o Facebook, é assim com a Meta. Os anúncios sobre os óculos inteligentes em parceria com a Ray Ban são assim: Óculos com IA, os óculos com IA mais vendidos, estilo icônico com a Meta IA, mais estilo, mais cores e mais conforto com o Ray-Ban Meta (Gen 2); Estilo atemporal e tecnologia avançada; Explore os recursos: câmera, alto-falante, touchpad e Meta AI. Não consegui saber os valores, mas na loja virtual é possível ligar nossa câmera para simular os óculos em nosso rosto e assim escolhermos o modelo. Avancei na experiência, inclusive oferecendo meu rosto como dado. Para incrementar esse apelo, algumas mulheres famosas estão nas campanhas, como Bruna Marquezine e Kylie Jenner. É quase irresistível.
Os óculos com IA, lançados em 2025, registram áudio, foto e vídeo. Ter tudo isso de forma ainda mais prática do que no smartphone intensifica a experiência multimídia feroz neste capitalismo de vigilância, especialmente por facilitar registros de experiências em formatos como o POV, abreviação de “point of view” (ponto de vista), sem que a gravação seja percebida. Os óculos até têm uma luz de led que sinaliza quando ele está gravando, mas alguns usuários danificam esse led e gravam sem que saibamos que estamos na mira de uma câmera. Não à toa, os óculos da Meta ganharam o apelido de óculos de espião ou de pervertido. Assim, esses dispositivos chegam para integrar o debate sobre vigilância e consentimento de vários pontos de vista.
Novas tecnologias, velhos problemas
Mas vamos relembrar algumas coisas sobre quem é a Meta. Empresa dona do Facebook, do Instagram, WhatsApp, do Threads e agora de óculos inteligentes com IA. É importante manter a atenção para o fato de que uma parte significativa da nossa comunicação pessoal e social está em posse de um monopólio, uma corporação que nunca esteve comprometida com o direito de quem usa seus serviços. Desde os tempos do início do Facebook, quando acreditávamos que as redes sociais eram o lugar da liberdade e multiplicidade de vozes e dos novos modelos de interações comunicacionais, essa empresa já usava nossos dados, de forma oculta, como matéria-prima para suas práticas comerciais. Não importavam os métodos, nem se nós concordávamos com isso, os fins eram mais importantes.
Ainda na época que acreditávamos que o Facebook era um lugar legal, três questões interligadas e muito caras aos estudos de gênero e aos movimento feministas já eram observáveis: a privacidade, o consentimento e a vigilância em relação ao que era feito das nossas informações e dos nossos dados. Isso porque muitas mulheres foram alvo de perseguição, ameaça e invasão de privacidade online e quase nada foi feito à época. Grupos masculinistas no Facebook se reuniam em bando para roubar fotos e manipular as imagens, agiam como observadores e atores dessas violências.
O consentimento tem sido uma questão discutida primeiro por grupos ativistas, para depois ganhar o debate público de forma séria. Ele começa muito antes de você saber se está sendo gravada ou não, numa conta de email ou de rede social. Fazer uma conta de email requer uma obrigatoriedade para aceitar compulsoriamente os termos de uso daquele serviço e isso não significa que estejamos dando nosso consentimento, autorização para aquela empresa agir de forma deliberada com nossa privacidade e com a sensibilidade que nossas vidas comuns exigem.
Até porque esse amplo conjunto de vigilância + consentimento compulsório não tem protegido mulheres e crianças das violências, é justo o oposto. Estamos em maior vulnerabilidade com os vieses dessas IAs e demais modelos de linguagem computacional. Um estudo de 2021, realizado pelas pesquisadoras Genevieve Smith & Ishita Rustagi mostra como, de 133 empresas que tomavam decisões baseadas em sistemas de inteligência artificial usando o aprendizado de máquina, 44% dos resultados apresentaram vieses de gênero e 26% de raça e gênero. Seja para emprego, para a gestão financeira, para a saúde ou para as relações amorosas, esses dados reproduzem os preconceitos humanos que são depositados nos treinamentos das máquinas.
No Brasil, quando apresentamos as controvérsias de determinados tipos de tecnologias, uma polêmica é instaurada, como se ponderar sobre tópicos como necessidades, riscos, neutralidade e consentimento fossem meras opiniões de pessoas que reclamam sobre tecnologias que são neutras, mas definidas através dos usos dados pelo ser humano. Pois bem, o número de denúncias de estereótipos raciais e de gênero são crescentes, e a disponibilização de mais uma ferramenta de vigilância que possibilita que imagens não autorizadas de mulheres circulem pela deep web deve ser questionada.
De países europeus, como a Suécia, aos países latinos, como o Brasil, a questão que ainda não está tão sublinhada é o acesso não consentido às imagens de outras pessoas. Isso diz respeito tanto ao registro da imagem de alguém sem que essa pessoa saiba que está sendo filmada, muitas vezes em ambientes íntimos; quanto à ausência de regras sobre onde vão parar as imagens registradas pelos óculos e quem as acessa. Na Suécia, funcionários da META foram denunciados por acessarem imagens íntimas de usuárias registradas por meio dos óculos.
Uma pesquisa realizada na Universidade de Sidney, na Austrália, analisou 350 vídeos gravados pelos óculos e publicados no Instagram em comunidades de “pick up artists” que, grosso modo, são grupos de homens que usam técnicas para manipulação de mulheres em encontros românticos. Os vídeos foram feitos sem o conhecimento das mulheres envolvidas, que foram filmadas em suas vidas cotidianas, muitas vezes à vontade. Depois disso, elas eram expostas e, então, assediadas por esses homens. O resultado da pesquisa comprova como as violências contra as mulheres podem chegar a outros níveis, pois 60% do material foi classificado como de “potencial assédio”.
Na Alemanha, a organização HateAid, que atua no campo dos direitos digitais, apresentou uma queixa-crime porque os óculos violam a Lei alemã das Telecomunicações, dos Serviços Digitais e da Proteção de Dados e argumentam justamente o risco do agravamento da “violência digital baseada em imagens” e da vigilância disfarçada, pois é difícil de distingui-los de óculos comuns.