Na boca das mulheres, pautas conservadoras viram aposta da extrema direita para disputar o eleitorado feminino nas eleições de 2026
Você está vendo o horário eleitoral e percebe uma coisa: a extrema direita está muito mais feminina. Que bom? Não sei.
Passamos anos cobrando mais mulheres na política, e com razão. Principalmente porque, até hoje, o Congresso continua sendo desproporcionalmente masculino. São 107 mulheres para 487 homens, somando as duas casas legislativas. Essas candidaturas femininas, da extrema-direita, no entanto, não são bem a representatividade que reivindicamos em nossa luta.
Em uma das propagandas eleitorais, Eduarda Campopiano, candidata a Deputada Estadual do PL (SP), se apresenta como “a maior inimiga das feministas”. Vivi Tobias, também candidata a Deputada Estadual do PL (MS), se descreve como “Pró-vida e Antifeminista”. Sophia Barclay, uma mulher trans candidata a Deputada Federal pelo mesmo partido e também por São Paulo, reivindica a identidade de “trans de direita” e promete combater a chamada “agenda woke” — termo em inglês que significa “estar desperto” e tem sido usado de forma pejorativa para se referir a políticas para inclusão de pessoas negras, mulheres e LGBTQIAPN+.
Eu não consigo deixar de achar, no mínimo, incômodo uma mulher subir em um palanque para anunciar que sua grande credencial política é ser inimiga das feministas, enquanto exerce um direito conquistado justamente pela luta feminista. Se hoje ela tem o direito de se candidatar, apresentar suas propostas políticas, ou sequer de votar, é porque mulheres antes dela se organizaram politicamente para reivindicar esse espaço para todas.
E vale até voltar um pouquinho nessa história.
Tanta luta pra ainda questionarem nossos direitos
Na Constituinte de 1891, propostas para reconhecer o voto feminino foram rejeitadas. Décadas depois, quando o direito começou a parecer possível, ainda se discutia quais mulheres estariam “aptas” a votar. Em 1931, chegou a ser proposta uma regra que permitiria o voto de algumas mulheres solteiras que tivessem renda própria, e o de mulheres casadas que trabalhassem (com autorização do marido, claro). A pressão das sufragistas ajudou a derrubar essas restrições antes da aprovação do Código Eleitoral de 1932.
E mesmo assim, isso não significou que a gente participaria de igual pra igual com os homens no sistema eleitoral. O voto feminino foi reconhecido nacionalmente, mas apenas em 1946 passou a ser obrigatório também para as mulheres. Antes disso, o voto só era obrigatório para mulheres que trabalhavam no serviço público. Para as demais mulheres maiores de 18 anos e alfabetizadas, o voto ainda era facultativo. A equiparação completa só veio em 1965.
Depois vieram tantas outras batalhas para que não fôssemos apenas eleitoras, mas também candidatas, parlamentares, ministras, presidenta.
Hoje somos 83,9 milhões de eleitoras, 52,84% de quem pode votar no Brasil. Mais da metade. E mesmo assim, entre as candidaturas das eleições deste ano, as mulheres são aproximadamente 35%. Quando olhamos para as cadeiras ocupadas atualmente no Congresso Nacional, somos ainda menores: cerca de 18%. E ainda precisamos de uma Lei específica para conseguir atuar nesses espaços, já que aviolência política de gênero foi reconhecida como crime há apenas cinco anos.
Quando eu vejo mulheres se apropriando deste lugar, que custou muito a outras para ser conquistado, para atacar nossos direitos, dá até vontade de perguntar: se a ideia é combater tanto assim o feminismo, por que não fica em casa lavando a louça?
Mas essa seria uma pergunta ruim.
Primeiro, porque eu estaria usando exatamente a lógica de que existe um lugar adequado para uma mulher e que, quando ela pensa diferente, podemos mandá-la de volta para de onde ela veio.
E segundo porque, por mais desconfortável que isso pareça, gostando ou não, mulheres conservadoras existem. Mulheres que consideram o feminismo seu inimigo, também. Assim como existem pessoas trans de direita. Faz parte do processo democrático.
Representatividade pra quem?
Passamos tanto tempo falando sobre representatividade que, em algum momento, começamos a tratar “mais mulheres” quase como sinônimo de “mais direitos para mulheres”, mas não é. E talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas mais esquisitas (para não dizer, indigestas) da campanha das Eleições 2026.
De um lado, mulheres ganham espaço no horário eleitoral para dizer que são inimigas das feministas, combater pautas de gênero e defender projetos conservadores. Do outro, são também mulheres que aparecem ao lado de candidatos homens para dizer ao eleitorado feminino: olha como ele é bonzinho… Ele tem esposa, filhas e praticamente trata mulher que nem gente…
Soa como ótima a estratégia de colocar a voz de mulheres para legitimar ideias que, ditas por homens, encontrariam muito mais resistência entre elas.
Flávio Bolsonaro (PL) é um exemplo disso. Depois de declarações como a de que teve filhas mulheres para cuidarem dele na velhice e das polêmicas com sua madrasta, Michele Bolsonaro (PL), sua propaganda eleitoral passou a destacar sua mãe, esposa e filhas. Em um dos vídeos, o candidato diz até que, em casa, “quem manda são elas”.
Seu candidato a vice, no entanto, o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) foi alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sob acusação de suposto estupro de vulnerável. Em junho deste ano, Michelle Bolsonaro, então presidente nacional do PL Mulher, publicou quase meia hora de vídeo para dizer que havia sido desrespeitada e maltratada pelo próprio Flávio e que ele chegou a sugerir que ela ficasse fora das decisões do partido.
Mais recentemente, Vanessa Silva, candidata a deputada federal pelo PL conhecida como “Negona do Bolsonaro”, afirmou ter sido barrada na sede da legenda no Rio de Janeiro. Em vídeo, disse que cinco seguranças formaram uma barreira para impedi-la de entrar e que foi tratada “como um bolo de merda”.