Na “casa sensata”, possibilidade de representação de senadoras não garante novos rumos e deve atender a interesses conservadores
A “casa sensata”. Era assim que o Senado era conhecido até pouco tempo atrás. “Era” porque, ao que tudo indica, a descrição pode ganhar outros contornos. Encabeçado pelo PL (e endossado por outros partidos), partidos conservadores e de direita têm mirado a Casa para acertar um outro alvo: o Supremo Tribunal Federal.
Isso já é público e notório. Afinal, nos próximos oito anos se aposentam quatro ministros: Luiz Fux, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Edson Fachin. Isso, sem contar toda confusão que vem rolando em torno de Alexandre de Moraes e André Mendonça e a possibilidade (ou seria vontade?) de “impeachmar” ministros. Mas isso é tema para outra hora…
Como cabe aos senadores sabatinar e aprovar (ou rejeitar) o nome escolhido pelo presidente, a disputa pelo Senado ganha, portanto, outra dimensão. Não à toa, não são poucos os que apostam que a disputa mais importante desta eleição seja justamente pelo cargo de senador. Presidente? O mesmo Fla x Flu entre Lula e Bolsonaro de sempre. Governo? Pouca emoção em grande parte dos estados. Agora, o Senado…
Essa histeria dos partidos de direita fez com que siglas de esquerda e centro-esquerda concordassem em catapultar nomes de peso para o cargo. Para citar apenas alguns exemplos, Marina Silva (Rede), Simone Tebet (PSB) e Soraya Thronicke (PSB), que outrora concorreram à presidência, hoje disputam o Senado.
Se a representatividade feminina é pífia, tanto na presidência como no governo, no Senado a história muda.
Houve um aumento de 22% no número de candidatas em relação às eleições de 2022, de acordo com o TSE. Disputam por uma vaga 69 mulheres, sendo que em 2022 foram 58 e em 2018 foram 62. Esta é a primeira vez, desde 2014, que todos os estados têm ao menos uma postulante. Na eleição de 2018, por exemplo, Acre, Bahia e Tocantins não tinham sequer uma mulher na disputa. Neste ano, 54 das 81 cadeiras da Casa estarão em disputa.
O número, numa primeira vista, se mostra ainda mais impressionante considerando que a regra dos 30% (em que pelo menos 1/3 das candidaturas de cada partido precisam ser destinadas às mulheres) não se aplica às eleições majoritárias. Ou seja, os nomes delas vieram diretamente (das vontades e orientações) dos partidos.
Estamos vivendo, finalmente, a tão sonhada primavera feminista na política?
A resposta é NÃO. Assim mesmo, em caixa alta, para que não haja nenhum mal-entendido.
A balela de que os partidos políticos buscam maior representatividade feminina no Congresso não cola, pelo menos não para esta que vos escreve. Quando o assunto é poder, o Darwinismo reina e vence quem grita mais alto.
Em busca de respostas
Conversando com a Débora Thomé, doutora em ciência política, professora do IDP e co-autora do livro “Candidatas – os primeiros passos das mulheres na política no Brasil”, nos atentamos a dois fatos deste movimento que busca catapultar mulheres no Senado. O primeiro é que, ao colocar nomes de peso em estados estratégicos, os candidatos economizam palanques . Trocando em miúdos: enquanto suas candidatas ao Senado realizam campanha num local, os presidenciáveis podem fazer e outro. Os exemplos mais nítidos são Marina Silva (Rede) em São Paulo, nome tradicionalmente associado a Lula, e Michelle Bolsonaro (PL) no DF, cujo sobrenome não deixa dúvidas do apoio a Flávio Bolsonaro, apesar das rusgas públicas.
Já o segundo ponto, talvez menos visual, mas igualmente intrínseco, é como o Brasil tem dificuldade em acomodar mulheres para cargos executivos, especialmente no âmbito dos governos estaduais. Disputam a governabilidade dos estados apenas 32 mulheres num cenário com 198 candidatos . Em 2022 foram 38 dentre 224 candidaturas. Mas voltemos ao presente.
Toda eleição tem especificidades e temas importantes que estão em jogo. Nesta é o STF, mas sempre há pautas “mais relevantes” que passam à frente da representatividade feminina. Na passada foi a polarização entre direita x esquerda, na antepassada foi a acelerada de Jair Bolsonaro perante a prisão do Lula, na anterior foi o pós-impeachment… No fim sempre somos ludibriadas com o famoso “na volta a gente compra”.
O irônico desta eleição especificamente é o que está em disputa. Direita e esquerda, progressistas e conservadoras, homens e mulheres estão brigando na unha pelo mesmo voto: o feminino . As mulheres equivalem a 83,8 milhões de eleitores no Brasil, o que representa a maioria da população brasileira: 52,8%. Um eleitorado que, embora tão vasto, estava num ponto tão cego que foi necessário alguém de fora da política para enxergá-lo.
Enquanto partidos progressistas catequizavam para catequizados, as conservadoras ganhavam o país. Com financiamento gorduroso e aval de Valdemar Costa Neto, o PL Mulher abocanhou boa parte do eleitorado da Lulalândia: as chefes de família.
Michelle Bolsonaro, jovem, educada, de fala doce, com um histórico de superação e outsider do jogo político, viajou a todos os rincões do país para montar uma base eleitoral. Com o programa Alicerçadas, capacitou lideranças locais criando um canal de comunicação e conexão. Com as polêmicas familiares, projetou seu nome já como pré-candidatura para figuras-chave e vai, pouco a pouco, se mostrando mais Michelle e menos Bolsonaro. Não à toa, ela está em primeiro lugar nas pesquisas na corrida pelo Senado no DF.
Michelle não cansa de dizer que contou com a ajuda da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) para construir a expansão do PL Mulher. Michelle precisa de Damares e Damares precisa de Michelle. Juntas elas ganham tração para avançar com o que lhes é mais importante, as pautas de costumes. E é aí que o Senado se mostra o melhor lugar para se estar.