Ao explorar dados de pré-natal pelo SUS de Colombo, na Grande Curitiba, pesquisa de iniciação científica do Departamento de Nutrição da UFPR joga luz sobre a relação entre fatores sociodemográficos e a alimentação de pessoas grávidas. Fazer refeições com telas ao lado e comer poucas verduras e legumes são alguns dos obstáculos nutricionais
A idade, a renda e a escolaridade da gestante são fatores de vulnerabilidade para a alimentação durante a gravidez, sugere um estudo realizado por um projeto de iniciação científica do Departamento de Nutrição da Universidade Federal do Paraná (UFPR) especializado em gravidez e puerpério (o período de “resguardo” depois do parto).
Com base em dados das gestantes atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, as pesquisadoras levantaram indicativos de que, enquanto a renda prejudica o acesso a frutas e verduras, a baixa idade da grávida a torna mais propensa a exagerar no consumo de alimentos ricos em açúcar e gordura (bebidas açucaradas e ultraprocessados principalmente).
A pesquisa, que será apresentada na 17ª edição da Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão da UFPR (Siepe), pela estudante Natália Albano Laureano sob coordenação da professora Doroteia Höfelmann, tem o intuito de estudar como essas condições sociodemográficas influenciam a alimentação e a qualidade de vida de gestantes e seus filhos. A escolha por Colombo tem relação com os dados disponíveis pelo SUS e pela abrangência do cuidado à população. A cidade tem alta taxa de urbanização (mais de 95%) e, dos cerca de 232 mil habitantes, em torno de 194 mil dependem exclusivamente do SUS.
Os hábitos de alimentação das gestantes analisados pelo estudo
Pesquisadoras avaliaram 604 gestantes atendidas no SUS de Colombo (PR) e concluíram que, embora a maioria mantenha o consumo de alimentos in natura como feijão e frutas, fatores de vulnerabilidade como menor idade, escolaridade e renda estão associados ao maior consumo de ultraprocessados e a hábitos alimentares menos saudáveis durante a gestação.
Os dados também indicam, por exemplo, que quase oito de cada dez gestantes adolescentes (de 14 a 19 anos) e das mães de primeira viagem (chamadas primigestas) fazem as refeições enquanto observam telas. O principal impacto desse hábito, segundo nutricionistas, é o atraso da percepção de saciedade.
Dessa forma, o estudo reafirma a ciência que estabelece que baixa renda, escolaridade e faixa etária estão diretamente relacionadas a um perfil alimentar menos saudável em gestantes.
A gente também tem essa perspectiva de avaliar o que influencia além da alimentação. Mas, na verdade, as condições que a pessoa tem de renda, o local que ela mora, esses fatores como um todo, eles influenciam as possibilidades que as pessoas têm de poderem acessar determinados alimentos”, disse à Ciência UFPR.
“É importante pensar também no apoio social que essas mulheres têm de cuidado, para que elas possam também melhorar o consumo alimentar delas.”
Além de se refletir na saúde da gravidez, alimentação influi no pós-parto para a mãe e a criança
O consumo alimentar inadequado pode trazer diversas consequências indesejadas para as gestantes e seus filhos. Caso esse consumo seja insuficiente, os agravantes para o bebê são de um baixo índice de desenvolvimento no útero, uma frequência muito maior de partos prematuros e também há uma dificuldade de adaptação do recém nascido após o nascimento. Por outro lado, quando se trata de um consumo calórico em excesso, pode trazer um ganho de peso excessivo durante a gestação, trabalhos de parto mais prolongados, diabetes gestacional e até mesmo um aumento da pressão durante a gestação.
A partir disso, surge uma demanda de saúde pública para que essas gestantes tenham um acompanhamento alimentar adequado. O Sistema de Vigilância Alimentar Nutricional é criado para que os padrões alimentares e o estado nutricional dos pacientes tenham um monitoramento no SUS.
Esse controle ocorre através do Formulário de Marcadores de Consumo Alimentar, um questionário objetivo que busca informações relacionadas a ingestão alimentar baseadas em grupos alimentares, focando de forma específica em alimentos ultraprocessados.
Por meio dessas questões, os profissionais de saúde na rede pública conseguem obter informações sobre a qualidade do consumo alimentar, além de identificar padrões saudáveis e não saudáveis nos pacientes que frequentam o SUS.
Logo, é possível compreender através dessas questões que fatores como renda, escolaridade e moradia influenciam diretamente na dificuldade de acesso a alimentos adequados nutricionalmente, e que o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados pode estar associado à problemas de saúde e de insegurança alimentar, que prejudicam as vidas das gestantes e de seus filhos.
Höfelmann acrescenta que a cobertura dos dados de consumo alimentar dos filhos dessas gestantes é extremamente baixa e que existe uma necessidade crescente de que o sistema registre e colete essas informações. Foi o que motivou a criação do grupo de pesquisa sobre as condições de vida e saúde na gestação e no puerpério, com o objetivo de entender e avaliar o que influenciava nas condições de vida além da alimentação.
Dados sociodemográficos revelam vulnerabilidades de gestantes atendidas no pré-natal
O questionário abarca diversas questões em duas seções, sendo a primeira específica para analisar dados demográficos como renda, escolaridade, faixa etária e número de gestações. Já a segunda seção aborda o consumo alimentar, a situação de insegurança alimentar, a prática de atividades físicas e o consumo de álcool. Alguns dos marcadores avaliados foram o consumo de feijão, verduras e legumes, embutidos, bebidas adoçadas e consumo de doces.
Natália Laureano informa que, a partir dessa coleta de dados, há uma análise estatística para que todas as variáveis sejam calculadas.
“Os dados foram inseridos em um programa assim. A professora usa o Stata 15, que é um software de estatística que faz associações com diferentes variáveis. A partir daí a gente faz a análise para ver o que é pertinente e o que não é.”
A pesquisa está sendo realizada desde 2018, a partir de entrevistas realizadas com aproximadamente 604 gestantes que realizavam acompanhamento pré-natal no SUS e residiam em Colombo.
Os dados encontrados a partir das entrevistas revelam marcadores interessantes sobre a realidade dessas mulheres. Pouco mais de 62% delas se enquadram na faixa etária entre 20 e 29 anos, aproximadamente 66% delas possuem uma renda familiar per capita de até 750 reais, 56% delas possuem menos de 11 anos de formação escolar e 72,6% delas já deram à luz a mais de um filho.