Lógica bolsonarista transforma direitos em obstáculos – e isso perpetua o racismo ambiental, por Mariana Belmont

21 de outubro, 2026 Gênero e Número Por Mariana Belmont

Na segunda-feira seguinte ao primeiro turno das eleições, andei pelo centro de São Paulo como se o mundo estivesse devastado. A cidade, para variar, estava cinza e fria. Não fez sol, o café da manhã desceu quadrado. As notícias me deixaram enjoada. Eu estava tonta e não me sentia bem. Não conseguia reagir ou ter conversas. Acabei ocultando todos os grupos de mensagem no WhatsApp, porque não suportava o desespero das pessoas, não conseguia entrar no clima de derrota e apreensão. Mas eu sabia que o pior já estava colocado. Eu nunca esqueci, mas a memória do que vivemos no governo Bolsonaro veio forte, e um medo intenso subiu no meu corpo.

O que podemos perder nessa eleição?

Fui caminhando e tentando organizar o ódio e o medo. Percebi que esse mal-estar não era só político — era afetivo. É assim que o autoritarismo opera: transforma a frustração em ressentimento e o ressentimento em alvo. A culpa pelo mal-estar precisa ter um rosto, e esse rosto raramente é o do sistema que prometeu tudo e entregou pouco.

Lembrei que o racismo é fio condutor do projeto de destruição que Flávio Bolsonaro incorpora. Não é detalhe, não é exagero, não é um desvio de percurso. É parte do projeto político da extrema direita.

O bolsonarismo não foi um acidente, foi a forma brasileira de uma transformação mais ampla, em que a violência deixa de ser falha do sistema e passa a ser apresentada como solução.

E esse caminho não é exclusividade do Brasil. É fundamental olhar o contexto global, pois nada do que está acontecendo aqui é alheio às guerras em curso no mundo. Ucrânia, Gaza, Sudão ou Venezuela não são exceções trágicas, mas expressões de uma mesma lógica. Recursos estratégicos, controle territorial e gestão violenta da escassez. A retórica promete redenção; a prática produz destruição.

Em 2017, Jair Bolsonaro foi ao Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, e proferiu uma das declarações racistas mais explícitas de sua trajetória pública — contra os quilombolas. Comparou pessoas negras a animais, ridicularizou seus corpos e atacou seus direitos territoriais. A mensagem era clara: aquelas vidas valiam menos, e os direitos conquistados pela população negra eram tratados como um desperdício de dinheiro público.

“Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles.”

Não é por acaso que o alvo é esse. O autoritarismo contemporâneo não resolve crises, só desloca responsabilidades. Mulheres, negros, indígenas e pessoas LGBTQIA+ passam a encarnar a origem de um mal que é estrutural. O problema deixa de ser material e se torna moral e, portanto, punível.

Nessa lógica, direitos viram obstáculos, e quem os reivindica vira inimigo útil.

Essa lógica também está por trás do racismo ambiental. Ela se apoia em uma visão predatória do mundo, em que territórios voltam a ser tratados como espólio, recursos como prêmio e populações como entraves. O Brasil ocupa uma posição central nessa engrenagem: fronteira extrativista, potência agrícola e campo de disputa. Amazônia, terras indígenas, água e vidas precarizadas entram na conta como ativos disponíveis.

Um projeto político que ataca territórios quilombolas, enfraquece a proteção ambiental e transforma a exploração da natureza em sinônimo de progresso escolhe, na prática, quem será protegido e quem ficará exposto à destruição. E essa escolha tem raça, classe e território. Quando os direitos de comunidades quilombolas são tratados como obstáculos, quando a proteção dos territórios é subordinada aos interesses econômicos e quando os impactos da degradação ambiental recaem sobre populações negras, estamos diante de uma estrutura que perpetua desigualdades históricas e protege privilégios.

Por isso, a negação do clima não é erro de cálculo nem disputa científica. É imperativo político.

A pauta climática exige exatamente o que o autoritarismo combate: cooperação, confiança na ciência, redistribuição de recursos e reconhecimento das desigualdades históricas. Ela desmonta a fantasia do crescimento infinito e mostra que não há líder forte capaz de negociar com a física.

E, como o colapso climático atinge primeiro os mais pobres, os povos indígenas, as comunidades negras e o Sul global, admiti-lo significaria reconhecer responsabilidades históricas e dívidas ecológicas. Para o projeto da extrema direita, isso é intolerável. Na prática, a mineração vira soberania, a devastação vira desenvolvimento, e o colapso é tratado como detalhe técnico.

O bolsonarismo não apenas reproduz essa estrutura. Ele a mobiliza politicamente, alimenta a hostilidade contra quem luta por direitos e transforma a defesa de privilégios em discurso de liberdade.

Chamar isso de conservadorismo ou reduzi-lo à “polarização” é parte do problema: não há nada a preservar aqui, e não há simetria entre quem disputa políticas públicas e quem nega direitos fundamentais.

O racismo ambiental não é uma pauta lateral nessa disputa. É uma das faces mais concretas de um projeto que combina autoritarismo, desigualdade racial e exploração dos territórios.

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