‘O segundo sexo’ chega aos 70 anos. Mas será que a obra de Simone de Beauvoir continua relevante?

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Cinco mulheres que estudam a condição feminina debatem a atualidade do livro, considerado um clássico do pensamento feminista

(O Globo, 05/05/2019 – acesse no site de origem)

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado, que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro.”

É assim que Simone de Beauvoir inicia o volume dois de “O segundo sexo”, sua obra monumental sobre a condição feminina, que chega aos 70 anos, com nova edição brasileira (Nova Fronteira).

Monumental em seu tamanho porque os dois volumes somam mais de 800 páginas. Mas, fundamentalmente, “O segundo sexo” é monumental pelo ineditismo das ideias de Simone, que apresentou novas possibilidades tanto para o conhecimento acadêmico quanto para o comportamento das mulheres.

Foi a francesa quem primeiro formulou o conceito da mulher como um outro do homem. Baseada na dialética de Hegel, ela afirmou que a mulher é definida pelo olhar masculino, não em si mesma — uma ideia que, em 1949, foi revolucionária ao tornar possível entender que a desigualdade de gênero foi historicamente e ideologicamente construída. Um pensamento fundamental para a construção de um novo campo de investigação, hoje tão em voga: os Estudos de Gênero.

Com rigor acadêmico, Simone desmontou o determinismo biológico e os ideais de maternidade e de feminilidade, ao mesmo tempo em que colocou em discussão a sexualidade feminina , a contracepção e o aborto, e o papel do trabalho e da independência econômica na construção da liberdade da mulher. Ela escreveu: “Em seus projetos, a mulher afirma-se concretamente como sujeito”.

Os primeiros capítulos de “O segundo sexo” foram inicialmente publicados na revista “Les temps modernes”, criada por Sartre, Simone e Merleau-Ponty, entre outros intelectuais. Quando por fim foi publicado, o livro vendeu 22 mil exemplares em uma semana. Um sucesso atacado por diversos segmentos da sociedade francesa, que não pouparam sequer a intimidade de Simone — sua vagina chegou a ser citada em artigo de jornal. “O segundo sexo” ainda entrou para a lista de publicações proibidas pelo Vaticano, o Index Librorum Prohibitorum , extinto pelo Papa Paulo VI, em 1966. Apesar das represálias, a tese de Simone foi definitiva para o feminismo nos anos 1960.

No Brasil, o livro não causou o mesmo estardalhaço, como lembra a cineasta Helena Solberg, que entrevistou Simone de Beauvoir, em 1960, quando a francesa e Sartre passaram dois meses viajando o país, ciceroneados por Jorge Amado e Zélia Gattai.

— Só fui ler “O segundo sexo” em 1957. Achei que tivesse entendido tudo, mas a verdade é que era cedo. Dez anos mais tarde, quando reli o livro, entendi que havia muito mais nele — conta Helena. — Não tinha muitas mulheres o lendo aqui. Era meio inacessível e, a partir de 1964, com o golpe militar, tínhamos questões mais urgentes para tratar.

Helena conta que chegou a conversar com Simone sobre “O segundo sexo”:

— Falamos sobre algumas questões do livro, mas ela era curiosa, acabou me entrevistando também; queria saber sobre as brasileiras e sobre o movimento estudantil. No fim, o Sartre chegou e foi curioso vê-los juntos. Simone perguntou se ele tinha tomado os remédios. Estava ali, aquela grande intelectual, numa cena absolutamente prosaica.

Cartas para Simone

Quando, em fevereiro, o ministro Celso de Mello, relator de uma das ações que pedem a criminalização da homofobia e da transfobia no Supremo Tribunal Federal, citou a famosa frase “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, Simone de Beauvoir virou trending topic no Twitter.

A francesa pode parecer pop, mas, com a quarta onda feminista em plena caminhada, não custa perguntar: qual o lugar de “O Segundo Sexo” no mundo atual?

E mais: de que maneira a obra de Simone de Beauvoir dialoga com a interseccionalidade tão cara aos movimentos identitários? Qual análise fazem do livro feministas negras, transfeministas e jovens ativistas? Será que “O segundo sexo” ainda possui relevância acadêmica? De que maneira ele pauta questionamentos sobre a sexualidade feminina?

Para entender a atualidade de “O segundo sexo”, convidamos cinco mulheres que pensam a condição feminina para escrever cartas a Simone de Beauvoir: Carol Teixeira (filósofa e terapeuta tântrica); Fran Demétrio (transfeminista e professora adjunta da UFRB); Giovana Xavier (historiadora e professora da Faculdade de Educação da UFRJ); Isabela Reis (jornalista) e Mirian Goldenberg (antropóloga e professora titular da UFRJ).

Clique nos links abaixo para ler as cartas:

Carol Teixeira: A descoberta de que o corpo era para mim e não para o outro foi talvez a mais intensa revelação da minha vida adulta

Fran Demétrio: “O segundo sexo” contribuiu para a superação social e política da ideia essencialista sobre o que é ser mulher

Giovana Xavier: Se quero definir-me, sou obrigada inicialmente a declarar: Sou uma mulher NEGRA

Isabela Reis: É impossível construir um futuro sem conhecer o passado, sem reverenciar a ancestralidade

Mirian Goldenberg: A maior lição de Simone de Beauvoir para as novas gerações é a de que querer ser livre é querer que os outros sejam livres

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